segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

(6343) - ARQUITETURA...

 

Capitania dos Portos

Hotel Porto-Grande
 
AS DUAS  CONSTRUÇÕES MINDELENSES PREFERIDAS DO
ARQUITETO SOTO M OURA

(6342) - ILHA BRAVA - NATUREZA PURA...






 
Dezembro de 2013
John Leão

(6341) - SÓ MÁS UM SOLIM, LUIS!...

 
Sob o título em epígrafe, escreveu o jornalista, senhor Eduino Santos, uma interessante crónica sobre alguns dos males que afectam a cidade do Mindelo e a ilha de S.Vicente,  evocando a figura do grande músico para "más um solim...", espécie de "requiem", por cada um de tantos malefícios atentatórios do património histórico-cultural da cidade, por incúria das entidades decisórias, sobretudo, do poder central e centralizado da capital do país...
Dou de barato a referencia à Assomada e a Freixo de Espada à Cinta (que não conheço) e, se encontro alguma justificação para a santiaguense, não vislumbro qual o papel da distante vila portuguesa neste contexto...
Mas, o articulista denuncia a antiga Presidente da Câmara Municipal de S.Vicente (querida Zau), por ter dado a uma praça o nome de "um qualquer Luís português" em vez,  por exemplo, do de Luís Morais... Nada temos contra,  antes pelo contrário, que o meu grande amigo Luís Morais tenha, no Mindelo, o nome de uma Praça, de uma Rua, de uma Avenida mas, nestas coisas eu acho que é necessário respeitar a História...
A Cooperação Portuguesa já teve diversas intervenções no Mindelo, por exemplo, na restauração da Réplica da Torre de Belém, na recuperação do edifício onde se instalou a Mediateca do Mindelo e, também, na reconstrução da Praça de D.Luís, que já tinha esse nome quando, em 1894 foi cedida à Companhia de S.Vicente de Cabo Verde, controlada encapotadamente pelos ingleses, e que aí instalaram a sua sede e os armazéns de carvão...
A questão suscitou, na altura, grande polémica, pois nessa praça estavam instalados importantes pólos comerciais e administrativos. Para além disso, era o local onde a população costumava juntar-se para ouvir as bandas dos vasos de guerra brasileiros, argentinos e ingleses que demandavam o Porto Grande...Terá sido graças ao descontentamento popular que, em 1895 foi construída a Praça Serpa Pinto, a que toda a gente chama Praça-Nova!

domingo, 29 de dezembro de 2013

(6340) - QUANDO FORMOS TODOS ALEMÃES...

 
ATÉ LÁ, VIVA À SUA MANEIRA...

 Remetido por Adriano Lima (Adaptado).

(6339) - S. VICENTE - ENTARDECER...





(6338) - O LIVRO DA DENÚNCIA...

 
DAME UM CAFÉ – de Hélder Fortes!
Este é um romance que convida à leitura de um só fôlego, porque está pejado de vida. Vida real numa interessante mescla com a ficção. O ecrã ou palco é a cidade cosmopolita do Mindelo.
Ao ler este DAME UM CAFÉ do Hélder Fortes, somos obrigados a viajar para uma pequena cidade-mundo sui generis. Mindelo. Nesta sua prosa ele cria-nos cenários tão fortes que, por vezes, podem parecer chocantes.
Trata-se de uma espécie de olhar social, antropológico, cultural, psicossociológico de uma certa realidade sanvincentina. A nu e cru. Com poucas papas na língua. Na tessitura desta obra de Hélder Fortes, temos a sensação, vezes sem conta, de que paira no ar o eterno mistério dessa necessidade da recriação das coisas em imagens, através da escrita, para terem mais vida, para poder ser mais vivida.
A abordagem de DAME UM CAFÉ – perdoem esta invenção terminológica – é SUXIAL. Trata-se aqui de uma tentativa minha desnexada de querer misturar o social com o sexual numa palavra híbrida.
A vida das noites mindelenses depois do cambar do sol é espelhada aqui sem contemplações. A análise social pode aparentar-se dura. Mas, é uma realidade quase fílmica do género hollywoodesco. Trata-se daquelas realidades a que muitos de nós – pseudo-analistas sociais – fechamos os olhos ou simplesmente fazemos de conta que não existem, até essa mesma realidade nos bater à bater ou invadir o nosso campo ou área de conforto.
Hélder Fortes consegue de forma magistral neste livro espelhar vivências várias na sua perspetiva antropológica, social e de citadino sanvicentino. Retratar o Mindelo dessa forma é uma “forma de justiça”. O cosmopolitanismo, a criatividade, a alegria contagiante, o brincar com coisas sérias, o não esconder as desgraças, e o vangloriar das suas doces loucuras, continuará na génese mindelense. No entanto, este livro vai mais fundo. Retrata a fuga da miséria e ao desemprego a que a ilha está votada nas últimas décadas num crescendo assustador.
O próprio termo DAME UM CAFÉ poderá ser muito sugestivo. Infirmativo até.
Vejamos que o acto de pedir um café é um signo ou gesto social. Este gesto poderá estar em equilíbrio ou não, dependendo do estatuto momentâneo, casual ou social do indivíduo nessa hora.
DAME UM CAFÉ, com efeito pode ser um gesto amistoso de socialização. Mas, também poderá estar a entrar no descambar da ruptura social, de alguma penúria alimentar.
DAME UM CAFÉ numa visão interpretativa poderá igualmente ser um grito de desespero. Ou mesmo “troco um CAFÉ por qualquer coisa que esteja à vista” já que já não nada mais para dar em troca.
DAME UM CAFÉ de Hélder Fortes, conduz-nos por esse Mindelo by night com uma alegria e uma vivacidade estonteantes. Dos turistas à procura do exotismo crioulo em que a terminologia é extensa. Dame um café, macacas e macaquinhas, para além das acompanhantes de luxo, nos hotéis e bares luxuosos, às estudantes universitárias que desenham esquemas para propinar o ano – umas só isso, outras viciam-se numa vida faustosa e sem limites… a não ser o próprio céu.
Das mulheres sonhadoras que ainda debruçam-se à janela a sonhar com príncipe/marinheiro encantado, não num cavalo-marinho, mas numa embarcação que levará o seu coração para longe.
Das macaquinhas que aprendem os rudimentos da arte da sedução, junto de emigrantes, dos homens casados e endinheirados, dos empresários aos políticos abastados. Por entre um CAFÉ, um poff, um ray, uma comidinha para as crianças que ficaram lá em casa à míngua. O pai e o marido – alguns fugiram à sua responsabilidade – e nem dão pão, nem farinha, nem consolo na horizontal às pobres mulheres, porque o álcool e outros vícios fumegantes levaram-lhes o orgulho fálico. Só resta mesmo fugir ou bater na companheira.
Do velho que quando novo não “curtiu” a juventude, e que agora num ímpeto louco de se agarrar à vida, gasta a sua reforma se enrolando dia sim dia sim com meninas de vida incerta.
Do emigrante que vem à procura de reminiscências e de presas fáceis, mas, que entra num jogo luxuriante em que nunca se sabe ao certo quem é caça e quem é caçador.
Monte Cara permanece vigilante. A Baía continua linda. As pessoas deambulam – umas com o rosto cheio de luz, outras com o esgar dos traços das doces manhas entranhadas em todos os movimentos dos antigos ingleses, outras loucas e/ou macambúzias de tristezas, porque em Mindelo vivia-se com intensidade. Era quase um Carpe Diem constante. Agora vive-se e sobrevive-se com o que Deus quiser.
Nesta complexidade societal, em que a volúpia se confunde e se transveste com mil argumentos, restará a muitas dessas lutadoras e ou vítimas sociais, poucas saídas. Não obstante o meio ambiente e social ser aparentemente leve e liberal, há estigmas que rotularão algumas “símias” (metaforicamente falando). Atingindo alguma maturidade, ou fogem da ilha ou montam esquemas mais sofisticados, mas, sempre com a plena consciência de que o seu tempo de DAME UM CAFÉ se perdeu no próprio tempo ou por algumas esquinas ínvias da cidade, onde a regra o jogo é viver/sobreviver/desenrascar.
Valeu e vale sempre a pena mexer em alguns baús das histórias das nossas vidas. Os passos vivenciados, as músicas dançadas, as guerras travadas, os sonhos sonhados, os amores amados ou capitulados, podem de rompante vir à tona da mente, quão lembrança de infância ou juventude.
Confesso que ao ler este “nosso” livro (porque agora passou a ser de todos nós também) senti-me amarrado ao chão dessa escrita, descrita e narrada, mesclada com imagens, que nos fizeram irromper também por algumas outras histórias da nossa infância e juventude passadas no Mindelo.
A escrita tem um enorme poder. Mais do que qualquer imagem, a escrita, a boa escrita, é tanto ou mais do que a imagem. Ela pinta várias imagens numa tela só. Ela traduz um, vários sentimentos de uma, de várias pessoas, faz ver uma sucessão de quadros. Veicula som, movimento, tato e acorda sentimentos indizíveis nos leitores.
Como todas as outras artes, a literatura reflete as relações do homem com o mundo e com seus semelhantes. Na medida em que essas relações se transformam historicamente, a literatura também se transforma, pois que sensível às peculiaridades de cada época, de cada espaço geográfico – neste caso também arquipelágico - aos modos de encarar a vida, de problematizar a existência, de questionar a realidade, de organizar a convivência social, etc.
Por um lado ela pode ou poderia ser uma invenção. O autor cria uma realidade imaginária, fictícia. Mas o universo da ficção mantém relações vivas com o mundo real. Nesse sentido, a literatura aqui é a imitação da realidade, construída de uma forma artística.
Esta é uma terapia. Envolve-nos e transporta-nos de forma arrojada numa viajem vertiginosa para espaços nunca antes imaginados, de soltura, diversão, descontracção, energia positiva e fuga da realidade. Este livro de histórias de vida – nossas e dos outras também – fundem-se, vezes sem conta com as experiências e/ou observações de cada um de nós.
Texto (resumido) do apresentador da obra - Daniel Medina
 
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Li por duas vezes esta obra por razão de ter dado modesta contribuição na revisão do texto final. E aquilo que, à partida, se poderia apresentar como uma "obrigação profissional" revelou-se um agradável prazer. Conheço Hélder Fortes há alguns anos, desde que me começaram a passar pelas mãos os seus textos empolgados publicados no extinto Liberal e onde assinava como Norga Fortes. Desde essa altura que me pareceu estar em presença daquele que poderá vir a ser um grande escritor. Penso que o tempo me dará razão. Ler "Dame um Café" é um encontro com um grande contador de histórias e a revelação de uma realidade que está escondida debaixo dos tapetes das conveniências sociais e políticas, que o Hélder desmonta de forma magistral: a exploração sexual de menores na cidade do Mindelo.
 
Alte Pinho António
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Helder está aqui a denunciar verdades bem inconvenientes às elites comodistas e autoconvencidas sobre os paradoxos dos desenvolvimentos e das agendas de transformação de CV, a história dos grandes bluffs e mentiras com idade de 40 anos que agora estão sendo desmascaradas neste livro que conta a mundi-vivência mindelense.
Cabo Verde em situação precária e de emergência social é a verdadeira história contada nesta obra como aparece no letreiro. E ninguém quer ver esta realidade nem fazer nada para resolver o emaranhado conjunto de problemas sociais políticos e económicos em que CV se encontra, tirando as histórias de pacto de Regime e outras tretas que os PAI /MPD gostam de inventar. Quando denunciamos situações muitos ‘politicos preguiçosos’ retorquem que não podemos mudar o Mundo, e perturbar a rotina da Praia.
Agora se não fizerem nada CV vai-se transformar num verdadeiro ‘nightmare’ social.
Foi este caminho que seguiu há 20 anos a Jamaica o Haiti etc e muitos outros estado falhados caribenhos, que hoje se transformaram em narco-estados, far-west, Chitty Chitty Bang Bang, para não falar dos estados dos estados falhados CEDEAO.
Abraço & votos de um Bom Ano para todos e para Cabo Verde!
José Fortes Lopes
 

(6337) - EXCERTOS...

Souto Moura: “A arquitectura de Mindelo lembra-me as vilas das novelas brasileira"

29 Dezembro 2013

Uma rápida passagem por S. Vicente deixou o arquitecto Eduardo Souto Moura apaixonado pela “geografia peculiar” da cidade do Mindelo e as suas características arquitectónicas de influências coloniais portuguesas. Adepto do “small is beautiful”, o prémio Pritzker 2011 não gostou, no entanto, de ver edifícios gigantescos construídos nas encostas. São prédios “contra natura” e “banais”, que, na opinião do especialista, podem beliscar a beleza de uma cidade que lembra as vilas das telenovelas brasileiras.


Souto Moura: “A arquitectura de Mindelo lembra-me as vilas das novelas brasileiras”
A Semana - É a primeira vez que vem a Cabo Verde, pelo que a impressão que tem até agora da arquitectura cabo-verdiana resume-se àquilo que viu na cidade do Mindelo. Quais as primeiras impressões daquilo que já observou?
– Souto Moura - Realmente desembarquei na cidade da Praia à noite e vim logo para S. Vicente, pelo que não deu para apreciar nada na ilha de Santiago. Aquilo que mais me impressionou na cidade do Mindelo foi a geografia, a ligação do território com a água, os montes envolventes, enfim, a paisagem é lindíssima. É uma geografia muito peculiar. O segundo aspecto que me chamou a atenção é constatar que as coisas estão muito bem arranjadas, dentro das vossas possibilidades económicas, que não são muitas. Está tudo limpo, tratado com cuidado. Mindelo transmite uma sensação de serenidade. Até perguntei se não há stress aqui. Já conheci outras ex-colónias portuguesas, que são mais agitadas. Aqui o comportamento das pessoas é de uma certa calma. Mas não sei se isso é verdade, porque estou cá há apenas cinco horas.
AS – Acha que essa sensação de tranquilidade pode estar relacionada com a presença da baía marítima do Porto Grande e com a estrutura arquitectónica da cidade do Mindelo?
– SM - Para dizer a verdade, gosto do conjunto, há um certo anonimato (em termos arquitectónicos), harmonioso, gracioso. Percebe-se que está presente uma arquitectura portuguesa do século XIX, marcada pelos chalés, os telhados, os sótãos… Esta cidade faz-me lembrar as vilas brasileiras que aparecem nas telenovelas. Portanto, há uma presença de elementos portugueses, mas que ainda não sei dizer ao certo quais são. Mas chego aqui e posso dizer “isto é uma coisa portuguesa”. Há influências portuguesas que vocês conservaram inteligentemente, naquela lógica de continuidade na história da arquitectura.
AS - Sente, então, que houve uma harmonização entre o passado e o futuro, na ilha de S. Vicente?
– SM - Vejo um certo cuidado, sem excessos, e uma preocupação de não se degradar o conjunto. Fui dar uma volta pela periferia, vi muitas casas por acabar, feitas de bloco, mas as ruas e os terrenos estavam limpos. Não vi os sacos de plástico e os colchões abandonados que encontramos em Portugal, nos sítios mais degradados.
AS - Algum edifício em particular chamou a sua atenção?
– SM - Gostei do prédio da Capitania dos Portos, situado na Avenida Marginal. Apesar da sua idade é um edifício modernista, muito fresco. Acho também agradável o edifício do Hotel Porto Grande.
AS - Possivelmente ouviu dizer que Mindelo pertence ao grupo das baías mais belas do mundo. É uma pessoa viajada, com sentido crítico, por isso lhe pergunto o que acha disso.
– SM - Seria desagradável vir dizer que não concordo, não é?! (risos). Acho que as coisas, às vezes, são exageradas. No fundo, os cabo-verdianos são que nem os portugueses, pois temos a mania de que somos os maiores do mundo. Não sei quantificar, dizer se é a quinta ou sexta baía mais bela do mundo e esta questão não me interessa. Agora, não restam dúvidas de que é uma enseada bonita, por isso estou com medo que a estraguem. Se eu fosse arquitecto da Câmara de SV, a primeira coisa que fazia era construir uma grande maquete da cidade, o que é uma coisa barata. Depois, cada pessoa que fizesse um projecto pedia-lhe para colocar isso na maquete para que visse com os próprios olhos se ficava ou não bem enquadrado no conjunto. Há pequenos processos que nos ajudam e muito a projectar uma cidade.

Edifícios “contra natura” nas encostas

AS - Em Cabo Verde, especialmente na ilha de S. Vicente, as pessoas começam a ficar preocupadas com as construções nas encostas. Falo de projectos aprovados pela Câmara de S. Vicente e não de casas clandestinas. Das voltas que deu pela cidade, como é que sentiu este aspecto?
– SM - Há algumas coisas que me fizeram uma certa impressão, porque sou um bocado adepto do “small is beautiful” (o pequeno é lindo). As pessoas têm um sentido colectivo de responsabilidade social e não restam dúvidas de que há edifícios altos demais implantados nas encostas. São contra natura e não têm a qualidade intrínseca para poderem existir. Eu não me importo que haja uma aldeia, uma cidade ou uma vila com uma determinada silhueta e depois desponte no horizonte uma igreja, uma catedral, um palácio ou um castelo, enfim, qualquer coisa de grande valor intrínseco. Quando vejo uma coisa banal, igual às outras, e que aparece só porque se pôs em bicos de pés, aquilo que posso dizer é que ninguém tem o direito de alterar a imagem e a identidade de uma terra.
AS - Esse tipo de construção pode desvalorizar uma cidade?
– SM - Acho que sim. Cabo Verde é um país recente e não devia cometer os mesmos erros que ocorreram, por exemplo, na Europa. Vocês são cultos, são patriotas, gostam desta terra, portanto deviam ter cuidado para isso não acontecer. Confesso que há coisas que não gostei de ver, mas isto é uma questão de bom senso. Quem é um grande artista, como o Picasso, pode não ter bom senso, mas quem não é genial tem que ter bom senso.
AS - É voz corrente que nas grandes cidades europeias as encostas são os sítios mais valorizados e que quem constrói nesses lugares é quem tem mais dinheiro. Mas parece que aqui em Cabo Verde é o contrário.
– SM - Nos países desenvolvidos paga-se muito bem pelas vistas e a proximidade com a água, como o mar e os rios. Nos países mais pobres, isto funciona ao contrário. Levantei esta questão quando fui à Baia das Gatas, Salamansa e Calhau e deparei com uma paisagem inóspita, que me tocou por ser áspera. Perguntei ao arquitecto César Freitas se essa paisagem está virgem por bom senso, mas a resposta não foi clara. Temos tanto espaço e já temos tantas infraestruturas nos aglomerados urbanos, por que razão vamos ocupar os montes?
AS - Não sei se sabe, mas há projectos turísticos para essas zonas da Baia, Calhau e Salamansa…
– SM - O turismo é uma fonte da economia como outra qualquer. Não sou contra o turismo; as geografias e paisagens são democráticas, toda a gente tem o direito de as ver e usá-las. Agora, há que haver planeamento. Não posso espalhar casas por onde quero. Faço parte de uma tradição, posso ser proprietário de um terreno, tenho o direito ao uso, mas isso não me permite fazer o que me apetece.
AS - Se tivesse a oportunidade de construir nessas tais paisagens ásperas que viu, que tipo de obras escolheria?
– SN - Construiria pequenas coisas. Penso que os arquitectos deviam aprender muito com as construções espontâneas e vernaculares. Passamos pela Ribeira d’Calhau, que é um vale bastante seco, e vi um conjunto de casas ainda sem reboco, envolvidas por algumas árvores. A vegetação, embora escassa, ajuda, porque aconchega, ampara. Quero dizer que as construções ficam desapercebidas, sem agredir a paisagem envolvente. Os arquitectos deviam aprender um bocado com isto. Penso que deve haver na arquitectura a vocação de se querer ser anónimo. Para mim, o patamar mais alto da arquitectura é fazer um edifício que o coletivo reconhece como seu.
– As pessoas falam do Castelo de Guimarães e não de quem o arquitectou. A Torre Eiffel é o símbolo de Paris e não do arquitecto Eiffel. As construções saem da cabeça de uma pessoa ou de um grupo e depois passam para um colectivo que as transformam em objectos afectivos. Se fossem demolir estas obras, certamente que haveria uma resistência popular.
AS - Mas ainda não disse que obras poderia fazer, por exemplo, na planície da Baía das Gatas.
– SM - Há ali um vazio junto a uma praia maravilhosa, que é uma piscina natural. Faria construções com o máximo de dois metros e meio de altura, bem integradas e construídas com material muito ligado à areia e à terra. Na Baía faz falta, por exemplo, um bar de praia. Junto ao muro poderia haver um conjunto de construções descontínuas e de pequena escala, para não formarem uma barreira                       

“Casa da Arquitectura Cabo-verdiana”

AS - A Ordem dos Arquitectos de Cabo Verde (OACV) quer abrir a sua Casa da Arquitectura, que é um conceito aplicado noutras partes do mundo. Como é que vê essa iniciativa?
– SM - Acho importante. A Casa da Arquitectura em Portugal é um projecto do arquitecto Siza Vieira. O que está a acontecer em Portugal é que a arquitectura passou a ser um tema quase que diário, que aparece nos jornais e os arquitectos são agora considerados personalidades do ano. Já não são só os actores e futebolistas.
AS - Está disposto a apoiar a OACV na abertura desse espaço?
– SN - Claro, mas não estou disposto a fazer o projecto, porque acho que não faz sentido ser um tipo de fora a fazer isso, quando há bons arquitectos em Cabo Verde. Estou disposto a ajudar a futura Casa de Cabo Verde a estabelecer relações com outras Casas que conheço.
in A SEMANA
 

(6336) - HÁ 92 ANOS...

«
A política tornou-se um negócio. A tradição republicana está ameaçada de morte. Que ninguém se iluda. Chegámos a uma hora extrema, para a qual é preciso recorrer a remédios heroicos, substituindo os homens pelos princípios. A nacionalidade afunda-se pela dissolução moral e pela falta de carácter. Muitos milhares de pessoas se dizem republicanos, e, supondo sê-lo não o são. Não há coerência, não há sequer o pudor aparente que deve caracterizar os actos individuais e colectivos. Há sim, egoísmo e cinismo, porque cada um trata de si, atropelando o semelhante, e vê tudo através da sua pessoa, da sua vaidade e das suas ambições inconfessáveis. Julgo-me com autoridade de falar assim, porque, sendo um dos mais antigos republicanos, nunca pretendi nada da República e nada quero dela. Tenho a coragem de dizer em voz alta o que todos proferem em voz baixa. Atravessamos um período de covardia moral que repugna. Muita palavra, sem dúvida. Mas os actos não correspondem às palavras, revelando uma vida de equívoco, de ficção e de mentira» - Magalhães Lima, 1921.
Remetido por Valdemar Pereira

(6335) - VIDA DE REFORMADO...

A mulher - Ó João, o que é que vais fazer hoje?
O reformado - Nada!
A mulher - Mas isso foi o que fizeste ontém!
O reformado - Pois...mas aínda não acabei!

(6334) - CABO VERDE, ENTREPOSTO DE DROGA?!

   
Pedro Pires admite a existência de droga armazenada em Cabo Verde. Esta constatação do ex-presidente da República tem com base os recentes casos relacionados com o tráfico de estupefacientes registados no país. O comandante Pedro Pires fez tais declarações à saída de um encontro com o Presidente da República, Jorge Carlos Fonseca.
Portador de uma mensagem dirigida ao PR, na sequência da sua recente visita ao Benin, Pedro Pires que é membro da Comissão Oeste Africana para a droga, abordou com Jorge Carlos Fonseca questões relacionadas com o narcotráfico e o consumo de droga na nossa sub-região.
Pedro Pires considera que a situação relacionada com o tráfico de droga na região oeste africana é “preocupante” uma vez que o combate a esse fenómeno é “extremamente difícil, complexo, cheio de armadilhas e subterfúgios”.
O ex-presidente considera, no entanto, que é um combate a ser feito, porque tem um “impacto negativo” sobre a economia sobre o funcionamento das instituições do Estado, mas também a saúde das pessoas. “Esta é a mensagem que trouxe ao senhor Presidente da República, com quem troquei impressões sobre esta questão”.
Pedro Pires, que reconhece resultados positivos no combate ao narcotráfico, exorta as autoridades a se empenharem ainda mais nessa batalha contra o tráfico de estupefacientes.
“Há dias circulou uma informação que um iate foi interceptado nas Canárias transportando droga que tomou em Cabo Verde. E uma conclusão que se pode chegar é que há droga armazena em Cabo Verde. Como e onde, a gente não sabe. Mas a realidade é esta. Da mesma forma que desapareceu daqui um barco e pensa-se que não desapareceu nada e que estaria numa operação de transporte de droga”, afirmou.
Pedro Pires considera que deve haver uma conjugação de esforços no sentido de se combater o narcotráfico e o crime conexo, porque no seu entender nenhum país, de forma isolada consegue combater esse fenómeno transnacional.
“Cada um por isso não pode. Teremos que desencadear todo um processo de cooperação e de trabalho comum para toda a região e para o Mundo, porque nós sabemos”, adverte.
in A Nação,,,

sábado, 28 de dezembro de 2013

(6333) - S. SILVESTRE...MILIONÁRIO!...


O FACTO...
A banda de zouk Kassav actua na passagem de ano na principal rua de Mindleo, Rua de Lisboa, indicou à Inforpress o vereador da Cultura, Humberto Lélis.Os custos da vinda do grupo a São Vicente deverá superar os dez milhões de escudos, sendo que boa parte da soma a Câmara Municipal deve conseguir com pelo menos três patrocinadores.
A banda chega a São Vicente no dia 29, proveniente de Dacar, Senegal, e o regresso deve ocorrer a meio do dia 1 de Janeiro.
O som e a iluminação na Rua de Lisboa estarão suportados por uma empresa nacional do ramo.
Humberto Lélis indicou tratar-se de uma prenda de Natal à população mindelense.
Recorde-se que os Kassav actuaram recentemente em Cabo Verde, mas na cidade da Praia, no passado mês de Junho, por ocasisão do Festival de Verão CVMóvel.
 
OS COMENTÁRIOS...
Dai Varela
Tem Mandioca no fim do ano de São Vicente...
Kassav (palavra em crioulo antilhano que significa mandioca) é uma banda de zouk de Martinica e de Guadalupe formada em 1979.
Realmente não entendo as vossas críticas pela vinda dos Kassav para nos dar música no final de ano no Mindelo quando se sabe que Cultura significa cultivar, e vem do latim colere. No final do ano estaremos a cultivar mandioca na Rua de Lisboa.
Acho perfeitamente normal que o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de São Vicente ofereça esta prenda (mandiocada) após um ano a investir e a promover a Cultura da (na) ilha.
Por exemplo, quem não se lembra dos vários concursos literários para jovens escritores/poetas, ou das exposições colectivas de jovens artistas promovidas pela CMSV ao longo de 2013? E dos projectos musicais que a CMSV aparece como co-financiador para jovens artistas e que hoje estão no mercado discográfico a enriquecer ainda mais Cabo Verde? Quem não se lembra do Roteiro Turístico da ilha que qualquer forasteiro pode adquirir e conhecer as belezas de São Vicente? Quem não se lembra dos livros co-financiados pela CMSV? Das formações aos jovens dançarinos, actores e outros agentes teatrais? Ou dos fóruns, seminários e palestras no âmbito cultural desenvolvidos ao longo do ano? Ou de acções com foco na cultura criativa, digital, artes visuais? Quem não se lembra do plano para exigir trabalhos definitivos no cinema EDEN PARK ou então a sua expropriação ao abrigo da lei que classificou como Património Nacional o Centro Histórico do Mindelo feita através da lei de Base do Património Cultural (lei 102/III/90 de 29 de Dezembro).
Bom... eu não me lembro mas isso não significa que não tenham existido, nera. (Esse esquecimento deve ser de tanto comer casca de mandioca).
E depois, acho perfeitamente normal chamar-se grupos estrangeiros para se investir nosso dinheiro neles porque eles irão investir esse 10 mil contos num banco caboverdeano e pagar todos os impostos nacionais ao movimentar este montante. Vocês já sabem que esses grupos crioulos recebem seus dinheiros e os levam logo para países estrangeiros e é por isso que devemos sempre chamar os de fora.
Ao que parece São Vicente merece uma prenda de qualidade e isso não era possível com um grupo ou artista nacional. "O que é nacional é bom" mas não é no fim do ano. Esta é uma época que não pode faltar mandioca.
Ate porque aquele dinheiro nem era vosso, era da Câmara Municipal de São Vicente. De certeza que iriam comprar mandioca com esse dinheiro, nera.
 
João Branco
10 mil contos. Pumba! Nem se pode argumentar que isto será com o dinheiro dos contribuintes, pois está anunciado que há patrocínios a cobrir a maior fatia dos custos. Mas agora eu pergunto: a troco de que contrapartidas? E quando aparecerem iniciativas privadas e essas mesmas empresas vierem dizer (como dizem quase sempre): "já gastamos todo o orçamento, não podemos fazer nada", como é que fica? Podem dizer que é prenda de natal, mas eu chamo a isto concorrência desleal. Mas o Mindelo festeja, não é? E isso é o que importa mais! Dexpox de sab, morrê ka nada! Boas festas!
 

Antonio Sérgio Matos Barbosa Isto tem, na nossa tribo a boiar no meio do Atlântico, tudo a ver com a badalada apresentação dos Kassav em S. Vicente. Inicialmente até pensei que apesar da triste figura que fazemos a pedir esmola e festejar à tripa forra, esta apresentação pudesse servir para a promoção da Ilha. Mas, promoção como? Com a música dos outros quando temos música autêntica para promover a nossa cultura? Na verdade, ao mostrar e demonstrar o grande esforço financeiro que vai ser esta festa de uma noite, a edilidade sanvicentina o que fez foi dar mostras de grande falta de conhecimento do meio, das necessidades das pessoas e acima de tudo de imaginação. Seria tão difícil mobilizar os mesmos recursos para outras actividades, ainda que festeiras? S. Vicente e Cabo Verde precisam de outra casta de políticos.
 
Adriano Lima
Não posso deixar de concordar com tudo o que se diz, pois espanta-me a falta de decoro da Câmara ao esbanjar irresponsavelmente o dinheiro que tem e que é pouco, conforme bastas vezes se ouve. E foi a minha sobrinha, a actual vereadora pelo pelouro social, quem há tempos lamentava não poder dar a devida expressão à sua acção em virtude da insuficiência de recursos. Afinal, em que é que ficamos? Quanto ao assunto em si, não entendo como pode faltar sentido de responsabilidade à edilidade. A menos que a nossa gente de repente tenha optado por gostos e exigências de uma suposta sofisticação e haja fenómenos evolutivos que possamos desconhecer, não vejo como pode um cabo-verdiano prescindir da sua boa música e aceitar gastos extravagantes com a importação de música alheia. Eu, se for a uma festa na minha terra, o que quero ouvir é exactamente música da minha terra. Portanto, haja bom senso naquelas cabeças.
Quanto ao texto do Dai Varela, só posso aplaudir a fina ironia com que faz a denúncia deste caso, que, quanto a mim, é mais um pretexto que se dá ao badio para nos rotular com aqueles mimosos adjectivos.
 Mais uma vez digo que há um trabalho de consciencialização cívica e política que urge empreender na nossa querida e saudosa terrinha. Há, pois, sinais claros que merecem uma adequada leitura sociológica.
 
Valdemar Pereira
Que cada um festeje o seu fim do ano que nôs queremos perpectuar o nosso!
E KASSAV a fazer-nos passar o ANO é como sabotagem aos nossos costume!
Considero a mesma coisa se chamarem os martinicas para dançar nosso Carnaval!
Atenção: - Amador disso tudo, aceito que apareçam numa outra altura se vierem de
graça jà que andamos de tanga (pelo menos em S.Vicente; Praia e Sal [do Lélis] jà
não sei).
Bravo aos Mandingas que não quiseram ir a Santiago "carnavalar".
E pronto !!!

 
 

(6332) - NOVE HORAS...NAS URGÊNCIAS!...



Nunca, como no passado dia 26, me apercebi da exacta dimensão da palavra "urgências", no que às ditas hospitalares diz respeito...
Na manhã desse dia, uma pessoa de família foi de ambulância para as Urgências do Hospital Amadora-Sintra, onde deu entrada pelas 10,19 hrs facto que, só por si, levou à emissão de uma factura de €18,00...Por ter sido transportada de ambulância, ganhou quatro horas de espera para ser submetida à triagem que é quanto, àquela hora, as muitas dezenas de pessoas amontoadas na recepção tinham que esperar...Foi-lhe atribuída a prioridade amarela - mais rápido só a cor de laranja - o que não evitou que só  fosse vista por uma médica às 14,30, quatro horas e onze minutos depois de ter entrado...nas urgências...
Cerca das 15.00 horas fez uma radiografia e submeteu-se às colheitas de sangue e urina para análises...Às 15,30 foi, de novo, chamada para os Raios X - mas era engano, claro!
Às 17,30 chegaram os resultados das análises ao sangue, com a informação de que a urina não tinha chegado ao laboratório...Alguém a tinha perdido pelo caminho...Foi colhida nova urina que ficou sobre o balcão meia hora, pois, conforme a própria informou, a funcionária encarregada do seu encaminhamento ainda não tinha tido tempo  para tal...Às 19,00 horas, não havendo nada a assinalar na radiografia, nas análises ao sangue e na da urina, a médica, brusca e mal encarada, deu alta à doente, que apresentava dores insistentes na zona lombar. Foi preciso a acompanhante pedir a uma enfermeira um comprimido que atenuasse o sofrimento da doente... Só havia...dos mais baratos, claro!
Cerca das 19,15 estávamos de regresso a casa, NOVE HORAS DEPOIS!!!
Durante tantas horas de espera deu para ver coisas, como os médicos em conversas intermináveis uns com os outros, a debandada geral na hora do almoço, os intervalos constantes para ir fumar um cigarro ou beber um cafézinho, enfim, tudo na maior das calmas num dia que, segundo diziam era atípico pelo  numero exagerado de pacientes que ocorreram aos serviços o que colocava a nu algumas insuficiências e descoordenações evidentes. De tal forma que as ambulâncias tinham que esperar tempos infinitos pela desocupação das suas macas por o Hospital as não ter em  numero suficiente para situações limite...Não devemos,  no entanto, deixar de referir, que, durante estas intermináveis nove horas, nos pareceu que os profissionais de enfermagem e pessoal auxiliar nos pareceu bem mais determinado, esforçado e humanizado do que o corpo médico, todos muito imbuídos do complexo de semi-deuses que parece ser apanágio da maioria dos clínicos deste país a quem mingua o espírito de missão que devia iluminar o seu desempenho!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

(6330) - MEMÓRIA DE MARIA DE LOURDES VIEIRA...




            DO BARRO À VIDA

 Cada ruga do seu rosto esconde uma mágoa secreta. A dobra das suas costas transporta o peso dos longos e fadigados anos da sua vida. Repetindo um ritual quotidiano, nha[1] Dona prepara a catchupa[2]. Acocorada diante do improvisado fogão, abana as brasas do carvão para alimentar o fogo. A colher de pau repousa entalada entre a tampa e o caldeirão depois de ter dado uma volta ao manjar que fervilha ao lume. A serenidade estampa-se no seu rosto, acentuada por um sorriso cheio de doçura. Em que pensará nha Dona nesse preciso momento? Nas saudades dos filhos embarcados e dos netos que não vê crescer? Ou estará a dar graças a Deus por mais aquela refeição em tempo de seca prolongada?

 Esta é uma das muitas figuras que brotam das mãos e do barro de Lurdes Vieira. Ceramista confirmada dá vida ao barro, materializando as recordações da sua infância e do imaginário colectivo de todos aqueles que, como ela, tiveram que deixar as suas ilhas em busca de um outro amanhã.
Lurdes Vieira é cabo-verdiana, nascida há oitenta e quatro anos no Mindelo e criada na Praia. Aos dezassete anos rumou com os pais e irmãos para a terra longe de Angola. Sem saber, com ela levava um tesouro que só veio a dar por ele ao dobrar a esquina das suas sessenta primaveras: as raízes da sua cultura gravadas no mais profundo do seu ser, tais amarras de um navio que não se quer deixar levar ao sabor das correntes marinhas... E é esse tesouro que Lurdes Vieira partilha hoje generosamente numa homenagem à sua terra e às suas gentes.
Revelando desde sempre uma sensibilidade para as artes manuais, que preencheram ao longo da sua vida os momentos de lazer da exímia funcionária pública que foi, a artista descobre muito mais tarde a arte de modelar o barro. E tudo aconteceu por acaso: um dia foi a uma olaria comprar material para os seus trabalhos. Cruzou com uma senhora que trazia um tabuleiro cheio de peças em barro para serem cozidas no forno do oleiro. Atraída e deslumbrada com aquelas figurinhas, comprou um pouco de barro para ver “ o que poderia fazer”... Uma nova fase da sua vida iniciava nesse momento com a confecção da sua primeira obra: o busto de um velho, que espantosamente revelou a capacidade artística de Lurdes Vieira no maneio do barro.
A partir daí o trabalho desta matéria preencheu a sua vida aperfeiçoando-se ao longo dos anos, enquanto desenvolvia uma obra que se pode considerar de cariz etnológico. É, na verdade, através do barro modelado, a que insufla o sopro da vida com o sentir próprio da sua arte, que Lurdes Vieira conta o quotidiano do povo cabo-verdiano, cuja riqueza está na crença de si mesmo, na sua força, coragem e determinação num combate permanente de sobrevivência. E tudo isto transparece na obra da artista. Ao trabalhar o barro, estampa a alegria e a tristeza, a ternura e a força, a determinação e a resignação, o vigor da juventude e peso dos anos nas expressões das suas personagens. Crianças, mulheres e homens enchem-nos o coração de ternura deixando-nos com vontade de conversar com eles por sentirmo-los vivos e tão próximos!
É um regalo para os olhos o rosto terno da Mãe crioula amamentando o seu filho ou o Menino bambudo[3] adormecido nas costas da mamãe. Enche-nos de compaixão o Menino triste.
Apetece-nos dançar com as mulheres do Batuque[4] enquanto que nos nossos ouvidos ressoam o coro das vozes e o repicar da tchabeta[5]. A Tocatina traz as recordações das serenatas em que a morna é rainha. O Par a dançar a mazurca, rigorosamente trajado à moda antiga, o Par a dançar o funaná[6]  e o Par a dançar a morna[7] embalam-nos nos movimentos dos seus corpos. E o tradicional ritual do Cola Sam Jom[8] transporta-nos para a festa graças aos seus mais pequenos detalhes em que não faltam o par de dançarinos, o dançarino com o barco e as conchas de enfeite…
Como nos dá vontade de desafiar para uma partida os Jogadores de uril ou brincar com o Menino da bola!
Ah! E quem não gostaria de provar a saborosa Catchupa de nha Dona preparada com tanto carinho e com o milho que a Cutchideira[9] pilou logo pela manhã?
Quantos corações não baterão perante a beleza serena e a sensualidade da jovem Crioula !
E quem não se revê na sua infância diante da Contadeira de estórias ou a receber a Benção da mamãe ou da vovó?
Sobe-nos ao nariz o cheiro da Pitada de cancã[10] e da Mulher grande fumando o seu canhoto[11]
A vendedeira de atum traz a nostalgia do pregão « Atum, atum ! ».
Apetece-nos dar uma mãozinha ao Homem da enxada que de sol a sol luta pelo seu pão contra o chão ingrato e a chuva ausente...
E quem não se reconhece naquela família repleta de filhos Escadas que Deus dá em que os mais velhos ajudam a criar os mais novos ?
Não ficamos insensíveis à cumplicidade do Velho casal, fruto de um longo percurso nem sempre ameno. E nas rugas do Homem das ilhas, o velho badio[12], lemos a vida árdua do seu povo.
São estas algumas das peças da obra de Lurdes Vieira. Cada peça é uma homenagem aos pilares de toda uma sociedade: à mãe, à mulher, à família, às tradições e lutas pela vida... E de peça em peça vai contando o viver do seu povo.
São cenas da vida que a ceramista retrata e imortaliza nestas figuras, sob o olhar cúmplice de Cláudio Vieira, seu companheiro de há mais de 5­6 anos. Cenas da sua meninice, certamente algumas já desaparecidas das tradições de hoje, mas que pertencem a um imaginário colectivo e ao património cultural de toda uma Nação. Cenas que, tal como ela, gerações de cabo-verdianos emigrados levaram consigo e transmitiram aos seus filhos e com elas as referências culturais das suas raízes. E Lurdes Vieira soube conservá-las intactas na sua memória, enquanto amadurecia em si essa arte de dar vida ao barro.
São formas, cores e expressões que brotam espontânea e naturalmente das mãos desta incontornável figura das artes cabo-verdianas que tem como uma das suas principais qualidades a humildade dos grandes seres.
 
1] Senhora, dona.
1] Prato tipo e emblemático de Cabo Verde, preparado à base de milho, feijões, carnes (ou peixe), mandioca, batata doce, banana verde.
1] Às costas.
1] Dança, canto e música ritmada por uma cadência marcada por batidas com as mãos em rodilhas feitas com tecidos, interpretados por mulheres.
[1] Ritmo do batuque.
[1] Música e dança tradicional de Santiago, acompanhadas com ferro e gaita e mais recentemente com acordeão.
[1] Música típica de Cabo Verde cantada com um acompanhamento de violino, viola e cavaquinho.
1] Ritual das festas juninas das ilhas do Barlavento.
1] Mulher que pila o milho.
[1] Rapé.
[1] Cachimbo.
[1] Natural da ilha de Santiago. Termo também aplicado aos naturais de outras ilhas de Sotavento.


 

 

 



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(6329) - ACTUAL, QUINZE ANOS DEPOIS...

INTERVENÇÃO NO II CONGRESSO DE QUADROS DA DIÁSPORA CABO-VERDIANA, 1998

Nota Introdutória: 15 anos passaram desde a intervenção de Luiz Silva no II Congresso de Quadros da Diáspora. Embora o grosso da intervenção abordou a problemática da Emigração Caboverdeana em França e no Mundo, o autor já nesta altura fez uma relevante exposição sobre o papel do Eden-Park na formação cultural e intelectual dos mindelenses, na sua consciencialização política, lembrando aos responsáveis políticos de Cabo Verde que este é um património histórico e cultural do país. Alertou, muito cedo, a sociedade civil, o município e o governo dos perigos da sua alienação, chamando a atenção para o facto de que o seu desaparecimento da cena cultural do Mindelo corresponderia a amputar Cabo Verde, os seus artistas e homens de cultura, de uma parte significativa da sua história. Este apelo não foi ouvido (Esh Ca Ta Cdi) e o pior cenário aconteceu, estando o edifício, num momento em que a ilha encontra-se mergulhada numa profunda crise económica e cultural, num estado total de degradação, após ter sido vendido a terceiros. Os alertas do Luiz foram premonitórios, pois desde então nos envolvemos em constantes e sucessivas lutas para salvaguarda do Património Arquitectónico e Cultural de S. Vicente, que vem sofrendo perdas irreparáveis, resultantes do desleixo e da incúria dos governantes, e do facto que a sociedade civil mindelense se encontra desorganizada, falida e impotente. Tratam-se dos terrenos de Golf De S. Vicente de que o autor corporizou um movimento para a sua salvaguarda, da problemática da Casa Adriana pela qual nos batemos até ao último momento contra a sua demolição, e as questões candentes e actuais de abandono e actos de vandalismos perpetrados ao Património, despoletadas e denunciadas no Notícias do Norte: Liceu Velho (ou Gil Eanes), o Fortin D’El Rey, a Escola da Praça Nova, etc. Não podia ainda deixar de referir a importância deste artigo na denúncia da ausência de Políticas Específicas da Emigração/Diáspora da parte do Estado de Cabo Verde e de um conjunto de propostas aqui elencadas já em 1997 para solucionar a vida de muitos emigrantes tanto na Diáspora como nas suas regiões/ilhas em Cabo Verde, mas que nunca foram tidas em consideração. Agora que se vislumbra a perspectiva da Regionalização em Cabo Verde, pela qual o Luiz Silva vem batendo, acreditamos que muitas das suas propostas para a Emigração/Diáspora poderão ser solucionadas no quadro das reformas da Regionalização e do futuro Governo Regional instalado em S. Vicente e nas restantes ilhas de Cabo Verde.

Portugal, 22 de Dezembro de 2013

José Fortes Lopes

Senhor Presidente da Câmara Municipal de Vicente,
Senhores Representantes do Corpo Diplomático,
Senhor Presidente do Congresso dos Quadros,
Caros Congressistas,
Minhas Senhoras,
Meus Senhores,

Eu queria, antes de entrar no tema que me é proposto sobre a emigração cabo-verdiana em França, prestar uma justa homenagem e muito particular ao Eden-Park e, em especial, ao seu fundador nhô César Marques pela sua criação em 1922 e pela sua grande contrlbuiçâo para a cultura cabo-verdiana. Acho que, melhor do que qualquer escola ou revista, o cinema Eden-Park foi uma verdadeira escola da vida de todas as classes desta ilha, para não dizer de todas as ilhas. Aqui tomámos consciência das injustiças sociais, com os filmes de Charlot. Um filme célebre como Cochise pela primeira vez dava razão na história aos índios da América. Sobre o racismo nos Estados Unidos, principalmente no Sul, pudemos ver o filme “A imitação da vida”que faz uma fotografia das consequências da escravatura nesse país.
Os valores de fidelidade, de luta pelas causas nobres, a nossa maneira de sentir e amar e até à nossa própria nossa própria heroicidade, muito se deve ao Eden-Park.

Gostaria ainda de :
- Relembrar que ‘os rapazes da Praia de Bote’, sem saberem ler e escrever, aprendiam o inglês no cinema, e que graças ao Eden-Park, puderam, com maior facilidade, integrar as sociedades europeias e americanas para onde emigraram.
- Recordar a importância do Eden-Park como centro de discussão e de debate, de conferências, por onde passaram homens distintos como Baltazar Lopes e Aurélio Gonçalves.
- Invocar o papel do teatro, que teve grande desenvolvimento no Eden-Park, (saúdo a presença de Dante Mariano nesta sala), recordando os seus grandes momentos nos anos cinquenta e sessenta. E também o Onésimo Silveira, porque foi aqui que se prestou a grande homenagem a Olavo Bilac, grande músico desta terra, autor da morna “Destino negro” num momento crucial da sua vida e cujo lucro foi destinado a apoiar a sua deslocação a Portugal para tratamento.

Resumindo, sinto que existe uma grande injustiça da parte da sociedade civil, do município e do governo em relação ao cinema Eden-Park que faz parte da história cultural de Cabo Verde. O desaparecimento do Eden-Park da cena cultural do Mindelo seria o mesmo que amputar Cabo Verde e os seus artistas de homens de cultura de uma parte da sua história.

EMIGRAÇÂO CABO-VERDIANA EM FRANÇA
Não posso ter a pretensão de lembrar aos nossos congressistas, de que a França e a sua cultura sempre tiveram um grande acolhimento em Cabo Verde. Os ideais progressistas da Revolução Francesa, como a liberdade, a igualdade e a fraternidade, sinónimos da Caboverdianidade, não podiam deixar de fazer eco num país marcado pelas sequelas da escravatura ou das injustiças agrárias que levaram centenas e centenas de Cabo-Verdianos à morte e à emigração. Eugénio Tavares (1868/1930), homem político para além de homem de cultura, foi sem dúvida um dos maiores defensores dessa emigração. Ele via nela não só uma via de libertação económica, mas também de conquista de valores como a dignidade, o direito à igualdade e à autonomia. A seu lado destacou-se uma geração de combatentes para a autonomia e independência desde os princípios deste século. Entre eles: Sena Barcelos, democrata infatigável que se levantou contra a dolorosa fome de 1903 ou ainda contra a emigração forçada para São Tomé e Príncipe; o Senador Vera Cruz, homem de cultura sempre referenciado por Baltazar Lopes e que fez de Mindelo a cidade culta do Arquipélago; o poeta José Lopes e tantos outros cidadãos que exerciam com grande mérito na língua e cultura francesas. O papel da França na literatura cabo-verdiana é menos reconhecida, no entanto não se pode ignorar a sua importância nas obras de Baltazar Lopes, Manuel Lopes ou António Aurélio Gonçalves. Se Manuel Lopes abre o romance “Os Flagelados do Vento Leste” com uma citação do escritor marxista Henry Barbusse, se Aurélio Gonçalves é sem dúvida um grande conhecedor de Flaubert, de Balsac ou Emile Zola, acontece que foi em Victor Hugo, André Gide e Fustel de Collanges que Baltazar Lopes encontrou a força e a argumentação necessárias para combater o racismo epidérmico do sociólogo brasileiro Gilberto Freire quanto analisava a realidade cultural de Cabo Verde.
Ao nível do ensaio repare-se que as contribuições de Amílcar Cabral, de Teixeira de Sousa ou de Gabriel Mariano revelam os contactos com os escritores africanos que marcaram o movimento da negritude. Os ensaios de Franz Fanon ou de Aimé Césaire foram as leituras essenciais para a nossa consciencialização.
Por Paris passaram nos anos cinquenta e sessenta a maior parte dos nacionalistas africanos das colónias portuguesas à procura não só do exílio político, mas também de armas teóricas para o combate de libertação. A livraria de François Maspero e a Présence Africaine eram lugares obrigatórios de todos os nacionalistas africanos.
Para além de se poder desfrutar de uma certa liberdade de acção, Paris era também a escola da democracia, em oposição a todas as ditaduras. Podia-se consultar livremente todas as obras ligadas às experiências da descolonização. Além disso, havia em Paris uma elite anticolonialista rara no mundo, tendo como chefe de fila o existencialista Jean Paul Sartre, que dirigia a revista Les Temps Modernes e que se dispunha a ajudar todas as lutas de libertação dos países colonizados, como também as reivindicações dos emigrantes.

OS PRIMEIROS CABO-VERDIANOS...
Não possuímos dados estatísticos sobre a presença de uma colónia cabo-verdiana em França, anteriormente aos anos sessenta. Podemos no entanto afirmar que ela era conhecida dos nossos intelectuais, dos nossos marítimos e também de alguns Cabo-Verdianosemigrantes no Senegal. No cemitério do Petit Parnasse em Paris repousa, ao lado de grandes personalidades da vida cultural e científica francesa, a figura do sábio químico Cabo-Verdiano Roberto Duarte Silva, falecido em Paris em 1905. A sua estátua nesse cemitério encontra-se em mau estado de conservação. Se Cabo Verde se orgulha de possuir um filho tão importante, é seu dever ocupar-se das suas campa e estátua, que ao lado da de Chateaubriand se destoam por falta de cuidados.
A independência do Senegal, em 1960, seguida da senegalização dos serviços públicos, levou ao desemprego uma boa parte dos Cabo-Verdianos ali residentes, que preferiram emigrar para a França ou Holanda. Se os homens emigraram principalmente para a Holanda, as mulheres, pelo facto de dominarem a língua francesa, emigraram para a França, estabelecendo-se principalmenteem Marselha, na região parisiense ou em Moulhouse. Hoje, a presença da comunidade cabo­ verdiana oriunda do Senegal é bastante importante em França e não conhece quaisquer dificuldades de integração.
Na zona leste, precisamente em Mozelle, vive, desde os princípios dos anos sessenta, uma pequena colónia de trabalhadores cabo-verdianos, na grande maioria originários de Santo Antão, vindos directamente de Cabo Verde (via Portugal) e onde puderam reconstruir o seu Cabo Verde, com as suas tradições, usos e costumes. Trata-se de pessoas que primeiramente tentaram emigrar para a Holanda e que, face às dificuldades da marinha mercante ou de entrada naquele país, encontraram um lugar de acolhimento nessa zona de minas de carvão e de ferro. Pouco a pouco, como é próprio do Cabo-Verdiano, começaram a fazer vir os amigos e familiares e já em 1964 havia uma pequena comunidade que pôde acolher alguns militantes da independência de Gabo Verde. Foi dali que, em 1964, partiram para as matas da Guiné-Bissau os primeiros combatentes da liberdade da Pátria. Com o fecho das minas de ferro e carvão, a maior parte dos fundadores dessa comunidade foram reformados. Os filhos tendo seguido uma boa escolaridade trabalham nas zonas limítrofes, no Luxemburgo e Alemanha.
Na região parisiense, ainda nos fins dos anos sessenta, os Cabo-Verdianos podiam contar-se pelos dedos das mãos. No 16° bairro de Paris havia uma pequena colónia feminina que trabalhava em casa de famílias burguesas, ocupando pequenos quartos nos últimos andares e onde modestamente recebiam outros emigrantes que vinham chegando pouco a pouco das ilhas de Santo Antão e São Vicente. Com o tempo essa emigração parisiense, inicialmente essencialmente feminina, começa a equilibrar-se com a chegada de amigos e maridos, especialmente da Holanda. Mas é nos princípios dos anos setenta que chega o grosso da emigração Cabo-Verdiana, constituída deemigrantes da ilha de Santiago, via Portugal, à procura de melhores salários. Bons operários, integram-se na construção civil e instalam-se nos foyers de trabalhadores emigrantes, principalmente na zona sul de Paris. Com a independência de Cabo Verde, essa emigração não cessa de aumentar e em 1981, com a subida do Partido Socialista ao poder uma nova vaga de jovens cabo-verdianos chega a França e, graças aos apoios do Movimento Associativo Cabo-Verdiano, muitos conseguiram legalizar-se.
O recenseamento eleitoral elaborado pelo Consulado de Cabo Verde em 1995 acusa um número de 14 616 inscritos. Ora, se considerarmos os Cabo-Verdianos que têm a nacionalidade portuguesa ou francesa e que não se inscrevem nos consulados, bem como os inúmeros clandestinos que estão a lutar pela sua legalização, podemos afirmar afoitamente que existem mais de 30 000 Cabo-Verdianos em França. Com o regresso dos socialistas ao poder em 1997 apareceram de novo centenas e centenas de trabalhadores cabo­verdianos à procura de legalização. Muitos deles estão em França há mais de 10 anos, trabalhando clandestinamente e sujeitos muitas vezes à exploração dos patrões e até de patrões cabo-verdianos. Aqui deixamos um apelo aos representantes da emigração, aos deputados, no sentido de acompanharem de perto esta situação, para que os emigrantes possam sentir-se apoiados pelo seu governo (CONTINUA).
LUIS SILVA