Discurso horripilante e sombrio
Folheando o jornal Expresso das Ilhas, edição 775 do dia 5 de Outubro de 2016, prendeu a minha atenção o artigo do meu amigo José Almada (Zé Almada) com o título curioso “O ano de todas as eleições, do fim das ilusões e da procura das soluções, num ambiente de um presidente, um governo e uma maioria autárquica“, que ao ler fiquei atónito e interrogando, se na realidade andamos todos a falar do mesmo país, aliás se temos vivido todos no mesmo Cabo Verde.
Por: Jorge Fonseca
De qualquer modo, o meu propósito com este artigo não é analisar a crónica do articulista, nem saber da bondade dos seus propósitos, mas sim pegar nessa sua “deixa” e, com o meu ponto de vista, debruçar sobre o discurso ”inócuo” que vai ecoando pelo país fora, pelas penas e vozes de setores ligados à nova maioria governativa, saída do “ano de todas as eleições”; mas antes queria distinguir a maioria governativa e seus simpatizantes da maioria vencedora das eleições. Nesta última categoria, mais abrangente, incluemse milhares de caboverdianos que, serenamente, souberam fazer a escolha que no seu entender fazia sentido em 2016, uma mudança e um renovar das energias para que Cabo Verde continue a crescer e a desenvolver, para bem e proveito de todos os seus filhos.
Mas voltando àquilo que me despertou atenção no artigo do Zé Almada, a introdução, com um discurso horripilante e sombrio, utilizando suas palavras “o triste retrato de Cabo Verde, país de desemprego, superendividado, com ilhas a perderem populações, de crime, de cidades tumultuosas com bairros de guetos onde nem a polícia entra” e terminando “é esta a herança que os novos governantes receberam. Poderia ser pior?”. Um discurso recorrente no seio de quem vai governar o país, que ao olhar para trás, para os últimos quinze anos, não vê no país nada de bom, nada de positivo, apenas uma árdua tarefa de desmantelar e começar de novo.
É realidade e verdade sim, que dos quinze anos de governo do PAICV cometeramse erros, e por vezes escusados e, por vezes ainda, em exagero.
É realidade e verdade também, que parte da liderança, dessa maioria que governou o país, nos últimos quinze anos, a partir de determinada altura, tornouse arrogante, narcisista e altiva. Aliás, talvez a maior fraqueza das lideranças do PAICV tenha sido a vaidade e não terem governado para produzir legado, focado no eu. Só produz legado aquele que é capaz de ser sábio, mas também humilde e generoso – infelizmente, estes três adjetivos não fazem parte da matriz da nossa (cabo verdiana) escola de lideranças. À custa disso, o PAICV recebeu a avaliação que recebeu e a nota que mereceu, devendo voltar às origens, recomporse, penitenciar e reerguerse.
Mas a maioria que acabou de ganhar a confiança dos caboverdianos, deve manterse alerta e não deixarse iludir e envaidecer sob pena de cair na mesma armadilha do seu antecessor. Certamente têm todos bem presente o que havia de mais enfadonho e oco no último mandato do PAICV, a cassete encravada no gravador dos anos noventa, pelo que uma manutenção, conveniente, do magnetofone nos pouparia a todos de mais uma dose, deprimente, de rádionovela sobre os primeiros quinze anos do novo século. É importante lembrar que o PAICV não governou sozinho; o MpD governou a maioria das câmaras municipais do país, pelo que também tem parte nos sucessos e insucessos dos últimos 15 anos. Por exemplo, a política de segurança é tarefa do governo central, mas é tarefa também de quem governa o município. Um bom autarca é aquele que cuida do ordenamento do seu território, zela para o seu município ser o mais limpo, ter as melhores escolas, bons centros de formação profissional, fomenta o desenvolvimento das artes, o desenvolvimento empresarial, a criação de empregos, mas também colabora com as autoridades centrais para que o município seja seguro, estimulando, deste modo, a fixação e atracção de novas populações.
Contudo, o que se vê, em todos os municípios de Cabo Verde, sejam os governados pelo MpD, sejam aqueles governados pelo PAICV, é a implementação de políticas populistas, que só têm servido para manter o povo refém dos caudilhos, numa relação perversa em que o voto se transforma num bem transacionável, com a balança a pender sempre para o lado dos caciques dos partidos.
Eu que vivi os últimos vinte e dois anos, em Cabo Verde, no Sal, vi: um país transformarse, um país a instruirse, novas estradas, aeroportos, portos, escolas, hospitais, centros de saúde, novos hotéis, novos resorts, novas avenidas, mais energia, mais água, iluminação pública, estrada de duas vias (EspargosSanta Maria), um parque automóvel como nunca sonhámos, Cabo Verde passar a receber mais de 500.000 turistas ano (em 2000 recebíamos 148.000).
Falando de Turismo, quantas vezes eu vi o meu amigo, articulista, no Sal, em fóruns de turismo, por vezes ao lado daqueles que mandavam calar os críticos da forma desenfreada como o património (terrenos) público era distribuído e alienado, sem critérios, nem transparência, mas também como promotor de projectos de turismo, que certamente, e na nossa juventude, enquanto estudantes em S. Vicente e mais tarde em Portugal, nunca imaginámos ver em Cabo Verde, mormente com o articulista como promotor, eram tempos de sonho, é verdade, de ilusões, que a crise deu um abanão, mas não, não deixemos morrer os sonhos, não deixemos morrer as ilusões, são eles a energia do empreendedor. O empreendedor que há dentro do Zé, não pode ser sufocado, não pode calarse, por um discurso pessimista, de desalento, há que continuar, corrigir o que precisa ser corrigido, mas aproveitar tudo que de bom os caboverdianos construíram.
Participamos todos nesta obra, a dívida é de todos, vamos pagála juntos, mas as fotos de barragens cheias de água, postadas nas redes sociais, com orgulho, pelas gentes de Santo Antão e Santiago, são também nossas alegrias a serem partilhadas com o mundo.
Há empresas em situação difícil sim, TACV por exemplo, há problemas com “casa para todos”, pessoalmente nunca concordei com esse projeto, também é verdade, há proliferação de bairros de lata na cintura das nossas cidades, o desemprego é crónico, em especial o desemprego jovem, um dos maiores desafios de governantes do mundo inteiro no século XXI. A segurança é um desafio global, mas novo em Cabo Verde, não tenhamos ilusões, é um problema novo, que ocorreria com qualquer partido que governasse Cabo Verde, nesta etapa do nosso desenvolvimento, e é um desafio futuro de todos os governos, seja de que cor política for.
A propósito de segurança, nos idos anos oitenta, um professor (brasileiro) na minha faculdade (economia), em Lisboa, um dia comigo em conversa, disseme, “Visitei Cabo Verde, a cidade da Praia daqui por uns anos vai ser como o Rio de Janeiro, violência, assaltos e assassinatos vão ser alguns dos grandes problemas do futuro”, ao que lhe retorqui, “Impossível”, e o professor doutor, disseme “O modelo de desenvolvimento que estão implementando vai produzir muita desigualdade e com isso não têm safa”.
Pois é, meu caro Zé, a desigualdade é o maior dano que nos quarenta anos de independência se produziu na sociedade caboverdiana, independentemente de quem tenha governado, essa é a grande herança, nociva, que os governos de PAICV e MpD deixaram com as suas políticas e o modelo de desenvolvimento implementado, sobretudo nos últimos vinte e cinco anos de Democracia.
Portanto, combater a insegurança, o crime, o desassossego, não vai ser tarefa fácil, nem de solução mágica, a luta passará seguramente pelo combate à pobreza, diria à miséria, que quer tempo, recursos, e ideias inovadoras, o que requer o concurso de todos. Assim, os tempos não são de triunfos, nem de velhas políticas sectárias, mas de entendimento, de inclusão, de sabedoria, de humildade e de generosidade.
A generosidade fará com que estendamos a mão aos vencidos para juntos olharmos para um futuro que é das novas gerações, mas também daqueles que construíram o passado, esse passado que devemos sentirnos todos orgulhosos e revermos, nele, um Cabo Verde que brilhou e brilha. O trabalho das sucessivas gerações do pósindependência não foi em vão; cometeramse erros, é certo, mas ficaram as sementes, e porque não, as boas obras.
O mundo mudou, estamos hoje inseridos num mundo global, dinâmico, e veloz, pelo que o desafio futuro é libertar o cabo verdiano da sombra do Estado, e é essa sombra cada vez mais curta, que assusta os empresários, os licenciados, os funcionários públicos, os deserdados que os políticos e as políticas vão habituando a viver de mão estendida, sobretudo, como os párias do sistema.
Na minha opinião, neste ano de todas as eleições, o povo mais do que dizer não ao PAICV disse não à velha política, e o PAICV com as suas quezílias internas acabou por ser o rosto mais visível dessa velha política, mas creio que o “não” dos eleitores o é também para todos os caudilhos locais, deste país, que devem entender a mensagem e mudar o rumo das suas atitudes.
Mudar de rumo, é também olhar para trás, fazer a análise do percurso efectuado, ter a humildade de reconhecer o trabalho do outro, valorizar tudo que de bom foi feito, aprender com as vitórias e os erros passados e galvanizar o povo para prosseguir a caminhada.
A nova largada, num mundo novo, de competição global, da era digital, requer mais agilidade, mais preparação, criatividade, lideranças fortes, competentes e capazes de incluir e galvanizar a equipa, de transformar as dificuldades em oportunidades, contrariamente ao discurso lamecha, pessimista, mas também arrogante e presunçoso de quem sabe tudo e tem, no bolso, a solução para tudo.
Eu sou pelo otimismo, Cabo Verde está preparado, em todas as áreas temos gente capaz, nos últimos quarenta anos produzimos valor, há quadros bem preparados, há recursos e abundantes, só nos falta “mudar o chip e o software”. Se conseguirmos na plataforma um presidente, um governo e uma maioria autárquica instalar o software do século XXI, então sim, teremos as soluções encaminhadas.
Sal, 12 de Outubro de 2016
in A Semana - 30.10.16
Sugerido por Adriano M. Lima