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sábado, 9 de abril de 2016

[9106] - QUE É FEITO DA MIRA TÉCNICA...

Tantos anos de exposição à mira técnica não serviram para ensinar a maioria dos telespectadores a afinar a imagem, como era a intenção, mas foram suficientes para criar a memória de um mundo mais lento, com actividades limitadas entre a «abertura da emissão» e o «fecho da emissão». A mira técnica existia entre uma coisa e outra, ou fazia a sua aparição súbita em caso de avaria, precedendo o anúncio que também se tornou célebre: «Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos». Que sossego. Os dias eram largos e as noites primordiais. De certo modo, em versão espartana, a mira técnica foi a antecessora do canal MyZen TV, com a sua câmara imóvel durante horas seguidas a filmar a rebentação das ondas numa qualquer praia tropical. Onde hoje há compactos de televendas a impingir-nos espanadores anti-estáticos e faixas queima-gordura para o abdómen, não havia nada; a não ser um padrão geométrico indecifrável e a expectativa de que algo de bom estava para acontecer. Por exemplo: desenhos animados, tardes de cinema, variedades, hóquei em patins e, maravilha das maravilhas, telejornais que duravam apenas meia hora. O pesadelo da programação ininterrupta, da televisão acesa de manhã à noite, dos três aparelhos ligados em cada parede do restaurante de bairro, estava longe de ser realidade. E embora os verdadeiros motivos da mira técnica fossem insondáveis aos olhos do vulgo, a memória dessa presença estática parece-nos, hoje, tranquilizante. Tal como a expectativa de que algo de bom estava para acontecer.

(Texto publicado na edição de 16 de Outubro de 2011,  do Notícias Magazine, revista de domingo do DN e JN, na secção "Nostalgia".)
PUBLICADA POR CARLA MAIA DE ALMEIDA 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

[8921] - NEOLOGISMOS...


Por vezes, o ecrã do televisor apresenta caras novas a fazer, principalmente, reportagens de exteriores... Julgamos que sejam estagiários a fazer provas de avaliação dos diversos canais e que, por vezes, metem os pés pelas mão uns, falam à disparada disparatando, outros, enquanto uns tantos tentam inovar e, não raro, dão um tirinho no pé...
Há dois dias, um desses novatos, por sinal de fraca presença física, fazia a reportagem daquele infeliz caso de uma mãe que parece ter levado ao afogamento de dois filhos, numa praia da Zona de Caxias tendo ela própria escapado por pouco de igual sorte...
Claro que o novato repetia coisas que já tínhamos escutado, em todos os canais e com "reprise" cronométrica de meia em meia hora, mas nem por isso o nosso repórter-tv conseguiu fugir à tentação de dizer as coisas de maneira diferente do habitual...Então, relatava que as buscas do corpo da criança de 19 meses seriam suspensas "ao cair do dia"!
Claro que, por norma, quem cai é a noite, o dia nasce ou desponta mas o repórter experimental achou-se no direito de "neologismizar" e acabou por dar barraca...
A menos que se trate de um simples e mero "lapsus liguae"!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

[8366] - OMISSÃO GRAVE DA TCV!?...


"PoderdoPovo Kabuverdiano"

Hoje a nossa crítica vai para a nossa (nossa não) televisão de Cabo Verde que recebe dos contribuintes para prestar serviço público como é o caso de uma final da taça INDEPENDÊNCIA ela simplesmente não transmite. Porque será? Vão justificar que a federação não quis assinar um contrato (teria que pagar) para fazerem a transmissão?! Por acaso os políticos que roubam o povo e que nem dignifica a classe dos jornalistas está a pagar-vos para transmitir as muitas baboseiras que são transmitidas na TCV?! Portanto a final deveria ser considerada um serviço público e ser transmitida. Também nem queremos pensar, como alguns já dizem, que é por causa de Santiago estar fora,  não fazia sentido, porque se fosse assim já era discriminação para as outras ilhas, mas nós acreditamos que não é isto ,porque sabemos que ainda há gente de bem dentro da TCV e que fazem um trabalho digno. Por favor expliquem aos caboverdianos porque não transmitiram a final da taça independência. 

quinta-feira, 12 de março de 2015

[7892] - MOMENTO EPISTOLAR...



Caro eng. José Sócrates

Espero que esta o encontre bem. Li com atenção as suas cartas e foi apenas por falta de tempo que não respondi mais depressa. Lembro-me de, no fim do liceu, ter mantido alguma correspondência com antigos colegas mas, por uma razão ou por outra, a troca de cartas foi-se tornando cada vez mais rara, até que parou completamente. Não gostaria de cometer esse erro outra vez. Parece-me importante manter o contacto com as pessoas do nosso passado, como antigos colegas e antigos primeiros-ministros.

Tenho pensado bastante nas observações que vai fazendo. Esta última carta sensibilizou-me especialmente, na medida em que criticava a cobardia dos políticos, a cumplicidade dos jornalistas, o cinismo dos professores de Direito e o desprezo das pessoas decentes. Como creio que sabe, não pertenço a nenhuma das categorias citadas, e por isso fui deixado de fora do seu olhar crítico, pelo que lhe agradeço.

As críticas que faz ao funcionamento da justiça parecem-me muito pertinentes. Portugal precisava que um homem como o sr. estivesse, digamos, sete anos à frente do Governo, talvez quatro dos quais com maioria absoluta, para fazer uma reforma séria do sistema judicial. É uma pena não termos essa possibilidade. Na minha opinião, os primeiros-ministros deviam ser presos antes, e não depois dos mandatos. Estagiavam durante dois meses numa cadeia, três num hospital e um semestre numa escola. O contacto directo com a realidade dá-nos perspectivas novas, mais informadas, e acirra o ímpeto reformista.

Julgo que é possível estabelecer um paralelo entre o processo de Josef K., a personagem de Kafka, e o de José Sócrates, ou Josef S. - sendo que a sua história é mais complexa: tanto Josef K. como Josef S. se vêem confrontados com decisões judiciais autoritárias e, em certos aspectos, até grotescas, mas Josef K. nunca teve amigos como Alberto Martins e Alberto Costa a tutelar a justiça, nem governou o seu país. Era apenas vítima. Ser simultaneamente vítima e carrasco deve ser mais perturbador. Ao contrário do que muitas vezes se diz, Joseph-Ignace Guillotin, o inventor da guilhotina, não foi guilhotinado. Essa ironia foi reservada para si, que é agora acusado por um sistema que ajudou a conceber e conservar.

Compreendo quase todas as suas queixas. Na verdade, a ironia que identifiquei acima não é a única do seu caso. Ao que parece, o facto de um amigo lhe ter disponibilizado um apartamento de 225 metros quadrados em Paris fez com que o Ministério Público lhe disponibilizasse um apartamento de 9 metros quadrados em Évora. Obrigam-no a aceitar aquilo que o acusam de ter aceitado. É duro. E irónico. Uma pessoa tolera tudo, menos figuras de estilo.

Considero, no entanto, que algumas das suas análises são menos acertadas. Por exemplo, quando diz, sobre a intenção da prisão preventiva: "(...) já não és um cidadão face às instituições; és um 'recluso' que enfrenta as 'autoridades': a tua palavra já não vale o mesmo que a nossa." Aqui para nós, se lhe roubaram o valor da palavra não terão levado grande tesouro, uma vez que a sua palavra já não valia o mesmo que a nossa desde aquela promessa dos 150 mil empregos"...

Espero que não leve a mal esta franqueza. Estou certo de que voltaremos a falar.

Cumprimentos,

Ricardo

(Sugerido por Tuta Azevedo)