quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

[7733] - O LUGAR DA HISTÓRIA...

José Fortes Lopes
Da Independência à 1ª Via: 1974, a tomada do Poder pelo PAIGC e a fuga da Elite Cabo-verdiana
In Cabo Verde 40 anos após a Independência  

Este artigo constitui um subsídio à história de Cabo Verde para que se possa perceber o presente e antecipar o futuro, tendo em conta as lições do passado. Numa altura de grande desorientação social, política, religiosa e ideológica, em que se tenta escrever e reescrever a História, impõem-se repor alguma verdade sobre os factos históricos e reanalisá-los, sendo certo que ninguém pode ter a pretensão de saber tudo e deter toda a verdade.
É comum afirmar-se que Cabo Verde é um país que nasceu de um sonho utópico. Na realidade, reza a história que o sonho de uma nação independente parece ter sido acalentado desde o século XIX por uma elite cabo-verdiana proto-nacionalista, influenciada pela independência do Brasil, embora esbarrando no modus operandi para a sua conquista e nos meios para a sua concretização e viabilização, tratando-se de um arquipélago desprovido de qualquer recurso. Inegavelmente, foi Amílcar Cabral e o partido que fundou em terras da Guiné, que permitiram concretizar o sonho da independência de Cabo Verde. Mesmo assim, a génese deste movimento não é alheia às reivindicações nacionalistas/independentistas dos anos 60 nascidas nos países africanos, locais onde radicava uma importante comunidade emigrante, como é o caso do Senegal, uma colónia francesa bastante desenvolvida na altura, em contraste com Cabo Verde. É claro que embora a Guiné e Cabo Verde atingissem a independência em 1974 e 1975, concretizando o sonho de Amílcar Cabral, e hoje dois estados soberanos, o cerne do projecto inicial inspirado pelo líder do movimento consistia numa unidade orgânica das duas nações (a Unidade Guiné-Cabo Verde).
Não se pode esquecer que esta ideia se inspirava no pan-africanismo, uma ideia muito forte, nascida nos meios nacionalistas africanos dos anos 60 e que visava o projecto de integração africana, como vinha acontecendo um pouco por todo o Mundo (Europa, América) com a criação de várias estruturas de integração supranacionais. Todavia, a Unidade Guiné-Cabo Verde não deixava de ser uma das principais fraquezas do projecto político do PAIGC, o seu verdadeiro calcanhar de Aquiles: a razão da própria existência deste partido supranacional acabava por ser o germe da destruição do mesmo. As dificuldades conceptuais e práticas na implementação do projecto da Unidade Guiné-Cabo Verde, durante a luta de libertação na Guiné, não deixaram de ser admiravelmente exploradas e combatidas pelas autoridades coloniais portuguesas, com argumentos, hoje incontestáveis, sobre a sua inviabilidade prática e concreta. O facto de Portugal não pretender abrir mão do arquipélago de Cabo Verde, dada a sua importante posição geoestratégica, era a principal determinante da sua argumentação, e a história dos acontecimentos que se seguiram encarregar-se-ia de validar as suas razões. Os mesmos argumentos seriam retomados pelos críticos do PAIGC, no pós-25 de Abril, acabando por constituir o principal pomo de discórdia entre os protagonistas no terreno em Cabo Verde, no período de 1974/1975, o que levou tanta a gente à prisão e a submeter-se à expropriação dos seus bens e ao exílio forçado de milhares de cidadãos. 
Abro aqui parêntese para analisar esta problemática. 
Com efeito, ao desafiar o PAIGC, inclusivamente criando um partido concorrente, a elite social mindelense, particularmente representada pelos membros do cobiçado Grémio da Praça Nova (ver Nota), estava selando o seu destino, não tinha outra alternativa senão o abandono do país ou algo pior, incapaz de perceber que a sua situação política era francamente desfavorável. Com efeito, o PAIGC, que já era um partido aguerrido, com quase 20 anos de existência, composto de militantes com alguma experiência política e internacional, conseguiu angariar em poucos meses uma grande fatia da juventude, organizando uma vanguarda combativa, com ‘sangue na guelra’, que rapidamente se familiarizou com as mais diversas teorias e práticas revolucionárias, com vontade nítida de mostrar serviço e valentia frente aos Combatentes da Guiné. Por outro lado, face à situação de caos político e social na então Metrópole, com as forças armadas desorganizadas e um país dirigido por um MFA e um Conselho da Revolução de esquerda, totalmente devoto à causa da descolonização, e por isso aliando-se decididamente aos Movimentos de Libertação, os partidos que mais se reclamavam aliados de Portugal nas ex-colónias viam-se, por ironia do destino, sem a preciosa protecção da ex-potência colonial. As elites das ex-colónias eram todas conotadas com a Metrópole, agora maioritariamente adepta á causa da descolonização imediata e de mais nenhum soldado para as colónias, e vistos como colonos ou colonialistas, o que não era bem o caso da cabo-verdiana (ver NOTA). Portugal do pós-25 de Abril, queria resolver a questão colonial num ápice, virar a página e entrar na CEE o mais rapidamente. Acresce que a elite cabo-verdiana não reconhecia o auto-proclamado estatuto de heróis ou de melhores filhos da nação cabo-verdiana aos recém-chegados líderes do PAIGC, pelo simples facto de terem lutado nas matas da Guiné. Recorde-se que a oposição atacava este partido naquilo que talvez era o seu verdadeiro calcanhar de Aquiles, rotulando-os de perigosos comunistas encapotados e de quererem governar sozinhos e instaurar uma ditadura. O PAIGC negava defendendo ser um partido do povo, e considerava o único representante legítimo do povo cabo-verdiano, que iria instalar um regime revolucionário democrático, do povo, para o povo e pelo povo. Com uma resposta desta calava a oposição, mas estávamos conversados quanto às intenções deste partido, pois como sabemos o povo é sempre um bode expiatório das aspirações políticas dos partidos que aspiram poderes revolucionários. Por outro lado, punha-se em causa a legitimidade e a competência dos membros deste partido para dirigirem os destinos de Cabo Verde. Tendo em conta esta situação inconfortável, só restava ao PAIGC uma política de terra queimada e de intimidação, como única via possível para se desembaraçar desta inoportuna oposição e conquistar o poder total. Num espaço sociopolítico limitado e exíguo como era Cabo Verde em 1974, não havia lugar, para dois grupos em concorrência e que se odiavam mutuamente e que se fecharam nas suas razões e certezas. O PAIGC apresentava-se como um partido Demiurgo, messiânico, com pretensões ao culto da personalidade dos seus líderes. Pena não ter havido possibilidade de diálogo e concertação, sobretudo se tal tivesse sido facilitado pela potência colonial administrante. Mas a elite que agora estava representada por um partido de oposição, UDC (sediada maioritariamente em Barlavento), era, justamente ou injustamente conotada (pois haveria sem dúvida muita boa gente, pessoas de valor, patriotas e amantes de Cabo Verde, que poderiam ainda ter contribuído para o novo Cabo Verde) com o ‘ancien’ regime colonial fascista, simbolizavam pessoas do passado. A UPICV (sediada maioritariamente no Sotavento) era um pequeno partido alegadamente de inspiração maoista e que se opunha, também, ferozmente ao PAIGC. Ambos eram favoráveis ao Referendo ou a uma consulta popular democrática para que o povo se pronunciasse livremente, Defendiam também o multipartidarismo, mas o PAIGC respondia agressivamente a tais pretensões com um rotundo NÃO. O multipartidarismo muito discutido na época seria, pois, num tal clima inviável ou um nado morto. Pois é, hoje, só os mais jovens ficam surpreendidos pelo actual clima político, que é bem pacífico e civilizado quando comparado com o da intolerância e do radicalismos de 1974! Só os brandos costumes do povo cabo-verdiano decorrente do nível de civilização atingidos no arquipélago (que era cem por cento seguro e pacífico, a contrastar com a situação social actual) evitaram que se descambasse para situações perigosas ou trágicas.
 Em Dezembro de 1974, o ‘povo’ do Mindelo, conduzido pelo PAIGC, tomava o seu ‘Palácio do Inverno’, assaltava a Rádio Barlavento e o Grémio, ocupando-os e nacionalizando-os. Iniciava-se a revolução cabo-verdiana e o caminho para a Independência Total e Imediata. Mas, pior do que a tomada de qualquer palácio, de residências e de outros bens públicos e privados, o maior sacrilégio seria cometido na ilha, algo de que hoje ninguém se fala: a Biblioteca Municipal seria assaltada, vandalizada, desaparecendo para sempre o seu enorme espólio composto por várias obras, de certeza algumas de um valor inestimável, e que se encontram, 40 anos depois da revolução, em paradeiro incerto ou desconhecido. Instaurava-se o poder popular com comités de zona, denúncias, tribunais populares e outros órgãos de cariz revolucionário. A confusão era tal sobre os objectivos da pretensa revolução, que muitos não sabiam ao certo de que é que se tratava, não se percebendo que o que estava em causa não era mais do que uma pura transferência do poder e a substituição de uma velha elite, dita colonial, por uma outra nova, dita nacional. Acreditava-se que após a expulsão dos burgueses, ‘capitalistas’ e colonos, o povo apropriar-se-ia de tudo o que haveria na ilha e no país, seja bem público ou privado, a ponto de uma revolucionária ter dito: ‘Mim próxima vez q’ um parí, tita ba ser na Poloç’. Pois é, estes edifícios coloniais onde nunca o povo tinha posto os pés fascinavam, acreditava-se que se estava a dar um Golpe de Estado no Paraíso, desconhecendo-se que as revoluções engendram paradoxos e originam regimes ainda mais castradores de liberdade, direitos e garantias que os dos ‘ancien’ regimes detestados.
Com a tomada da Rádio Barlavento em Dezembro de 1974 estava tudo consumado do lado da oposição. O medo e o pânico instalaram-se e generalizaram-se na elite social, dava-se o sinal para a debandada final, o que para a maioria significava deixar definitivamente e para sempre a sua terra natal. De uma assentada, Cabo Verde perderia grande parte da sua elite de então (talvez mais de 50%), sobrando os que se acomodaram e se recompuseram com o novo poder ou os que viraram a casaca pura e simplesmente. Este facto terá permitido uma certa continuidade à vida do novo país, apesar do vácuo geracional criado, mas permitiria a consolidação do poder do PAIGC. Um pouco por todo o arquipélago, este vento de pânico provocava corrida para o estrangeiro, obviamente para quem pudesse e não simpatizasse com o novo poder, a maioria refugiando-se em Portugal, Holanda, Brasil e EUA. O movimento de emigração, provocado pelos eventos políticos em curso no arquipélago, agora atingia todos os estratos da sociedade cabo-verdiana, e ironicamente os mais abastados e confortavelmente instalados, nunca mais pararia, dando origem a uma nova dimensão à Diáspora cabo-verdiana. A oposição aproveitava este movimento para se organizar e fortalecer ameaçadoramente no estrangeiro, ao passo que a jovem revolução tomava todos os ares da revolução cubana, um pouco como acontecera havia cerca de 20 anos, em terras do amigo e aliado Fidel. A similitude era total, tínhamos em confronto os bons e os maus, a revolução e a contra-revolução, numa luta de vida ou morte entre o bem e o mal. É claro que para o novo regime aconteceu o melhor cenário possível, pois era de toda a conveniência dispensar estas pessoas contra-revolucionárias que seriam um estorvo ao projecto revolucionário do PAIGC. Este partido, em autêntico estado de graça, não tinha mais oposição em Cabo Verde, o povo entregou-lhe o poder total, um Cheque em Branco. E o país eufórico desembaraçava-se dos maus, os chamados inimigos, dos reaccionários, dos traidores e dos ‘catchores de dois pés’. Livrava-se, assim, daqueles que eram, conotados com o colonialismo português e logo, supostamente, os responsáveis por séculos de escravidão, pelo estado de miséria e de sub-desenvolvimento do país e do seu povo. O país mudava de mãos, substituía os seus maus pais e avós, por bons pais da revolução e da independência, homens com nova mensagem, uma nova visão do mundo, uma mensagem progressista da vida e do país, e uma experiência militar e política forjada nos matos da Guiné em Conacri, e nas ruas de Lisboa, Alger, Rabat, Moscovo, Habana e Paris. Abriam-se, assim, boas perspectivas para a “libertação” do país e a criação de uma sociedade sem classes, sem injustiças, sem exploração do homem pelo homem. Acreditava-se, assim, que estava garantido o desenvolvimento humano e material do país e mesmo a possibilidade da felicidade terrena ilimitada, sem mais delongas, aqui e agora. Até iria chover e as águas iam voltar a correr nos campos!!! Os lugares deixados vagos garantiriam durante décadas a fio emprego e tacho para toda a nova elite e para as pessoas que viriam a ser formadas pelo novo regime, através da oferta espectacular de todo o tipo de bolsas e formações disponibilizadas pelos países amigos e mais desenvolvidos. Só assim o poder poderia consolidar-se, fechando o ciclo revolucionário e entrando na senda do desenvolvimento.
Com os feitos ‘heróicos e históricos’ descritos, a ilha de S. Vicente entrava em plena efervescência juvenil, um misto de revolução cultural chinês e de revolução de Maio 68 francês, onde tudo era permitido, nada proibido, com ininterruptas e ruidosas festas e bailes populares: todos os valores que regiam a sociedade conservadora seriam postos em causa, varridos por uma juventude sedenta de liberdade e dos prazeres da vida mundana. Hoje, analisando os factos com novos olhos e perante a experiência acumulada dos 40 anos passados, sabe-se que a ilha estava a desferir sem dar por isso, o seu primeiro tiro no pé, transformara-se numa ilha perigosamente revolucionária, mesmo para os homens do PAIGC, que seriam o futuro novo poder. Mas o novo poder tomara todas as devidas precauções, para não acontecer o que acontecera aos seus inimigos: instalara-se longe dos rebuliços de Mindelo, calmamente e seguramente, na pacata cidade da Praia, a capital política do arquipélago onde residiam os governadores de cabo Verde colonial. O centro de gravidade de Cabo Verde estava a deslocar-se para o Sul, para a ilha de Santiago, e S. Vicente, já exangue em finais de 1974, iria perder continuamente recursos humanos para emigração e para o projecto centralista do novo poder, já que não havia projecto consistente para a ilha que desse continuidade ao que era antes, um centro intelectual e económico do país. A ilha, despovoada, privada da sua poderosa elite, que ela mesmo escorraçou, sem voz (a Rádio Barlavento foi substituída pela Rádio Voz de S. Vicente, uma nova rádio agora afecta exclusivamente ao novo regime, que acabaria por ser absorvida com todo o seu espólio na Rádio Nacional, ao mesmo tempo que não havia mais condições para a existência da Rádio Clube do Mindelo, que morreria assim de morte natural ou provocada), perderia paulatinamente e inexoravelmente o seu peso, a sua importância e a expressão social e política, num arquipélago em processo de nivelamento por baixo, ficando com a magra consolação da ‘capital da Cultura’ de um dia ou de uma ocasião polítca. Pois é, graças à revolução, de que foi o catalisador local, a ilha de S. Vicente nunca mais se levantaria, não obstante os diferentes processos de normalização e de democratização que mais tarde viriam a ter lugar em Cabo Verde e os avultados investimentos financeiros e económicos nele operados. Faltava-lhe a força anímica, sem a qual o progresso social não se realiza. 

Nota: O Grémio era um clube fechado, elitista, que reunia a poderosa e influente elite mindelense (que o povo chamava ‘gent grand’ ou ‘gent bronc’ ), constituída pela nata da sociedade de então, em geral pessoas próximas do regime anterior ao 25 de Abril, fortemente ligadas a Portugal, com um elevado estatuto social, económico ou profissional, incluindo pessoas do povo que simplesmente venceram na vida. O Grémio representava, assim, a elite em Cabo Verde, era uma amostra da elite colonial cabo-verdiana, constituída por quadros da terra, altos funcionários e profissionais liberais de sucesso, que quase sempre viveram em Cabo Verde. Eram portanto, na maioria cabo-verdianos descendentes das sucessivas vagas de europeus e/ou de judeus que povoaram Cabo Verde desde os tempos remotos da colonização, pelo que é um erro grosseiro associá-los a colonos. É o que muitos hoje em dia fazem por ignorância e desconhecimento da realidade e da história de Cabo Verde.

Janeiro de 2015
José Fortes Lopes

[7732] - TEREMOS UM "PREC" GREGO?!...

A VITÓRIA DO SYRIZA (EXTREMA ESQUERDA) NAS ELEIÇÕES GREGAS DE DOMINGO PASSADO, A DOIS DEPUTADOS DA MAIORIA ABSOLUTA, PODE SER RECEBIDA COMO PORTADORA DE ANTICORPOS QUE ROBUSTEÇAM O IMPÉRIO DOS MERCADOS, AS POLÍTICAS NEOLIBERAIS, E O EMPOBRECIMENTO DOS CIDADÃOS.

Nos idos do PREC (Processo Revolucionário em Curso, que ocorreu em Portugal entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975), o Poder foi fortemente disputado. Era o papel de Portugal em África, nos territórios sob soberania portuguesa, mas também o papel de Portugal na Europa. À esquerda, pairava o espectro do Chile de Pinochet. Ao centro e à direita receava-se uma ditadura comunista apoiada pela União Soviética.
Os E U A tinham interesses estrategicos importantes em Portugal e deram um cheirinho do que poderia acontecer, fundeando no Tejo, em frente do Palácio de Belém, nos inícios de 1975, o porta-aviões USS Saratoga, durante a operação Locked Gate-75 da N ATO. Henry Kissinger, Secretário de Estado da Administração Nixon, que superintendeu o golpe militar que derrubou o Presidente Salvador Allende a 11 de Setembro de 1973 e frustrou, com inusitada violência, o projecto de estabelecimento de um regime socialista democrático no Chile, preparou as partituras para o (des)concerto de Portugal com uma abertura sobre a ocupação militar americana dos Açores, com vista à manutenção da Base das Lages.
No caso de os planos americanos darem para o torto, Kissinger engendrou a tese da vacina. Dizia ele que um regime comunista em Portugal acabaria por funcionar como uma excelente vacina para proteger a Europa de semelhante desassossego.
Quarenta anos volvidos, desfeita a União Soviética e com os Estados Unidos da América a aposentarem- se de polícias do mundo, a Europa padece da doideira em que a ilegitimidade democrá tica e incompetência dos líderes que a têm desgovernado a lançaram. A vitória do Syriza (extrema esquerda) nas eleições gregas de Domingo passado, a dois deputados da maioria absoluta, pode ser recebida como portadora de anticorpos que robusteçam o império dos mercados, as políticas neoliberais, e o empobrecimento dos cidadãos. Mas também pode vir a constituir um novo renascimento europeu por apontar aos eleitores o voto inovador em outros partidos que não os designados como pertencendo ao “arco da governação” que se metamorfosaram em polvos assassinos das sociedades em que se implantaram e que merecem intolerância crescente do eleitorado.




quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

[7731] - SEIS DÉCADAS DEPOIS...


A Grécia pretende exigir à Alemanha 162 mil milhões de euros em indemnizações por feitos que remontam à Segunda Guerra Mundial. A reabertura do dossiê, com quase seis décadas, promete aumentar as tensões entre Atenas e Berlim.

O governo grego vai entregar aos serviços jurídicos um relatório que estipula que a Alemanha deve pagar 108 mil milhões de euros por danos a infraestruturas e outros 54 mil milhões por um empréstimo que o regime nazi obrigou a Grécia a contrair. O valor total equivale a 80 por cento do PIB grego.

O chefe da diplomacia grega, Dimitris Avramopoulos, afirmou que o governo “vai esgotar todos os meios que existem para obter um resultado, independentemente do tempo e do esforço necessário, bem como das circunstâncias atuais”.

As indemnizações exigidas por Atenas seriam uma forma de saldar grande parte dos 240 mil milhões de euros atribuídos à Grécia no âmbito do plano de resgate, para o qual a Alemanha é o principal contribuinte.

Enquanto grande parte da população grega responsabiliza Berlim pelas dificuldades económicas, o governo alemão diz que já pagou todas as reparações devidas da Segunda Guerra Mundial.

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[7730] - CARTA SEMI-ABERTA A DILMA ROUSSEFF PR DO BRASIL...

Dilma Rousseff

COM A DEVIDA VÉNIA AO
CORAL VERMELHO

Excelência:
Respeitosos cumprimentos.
Esta tem a finalidade de trazer à consideração de V. Exa. um assunto que embora  recorrente, muito falado, comentado, criticado com uma frequência que talvez já possa ser considerado saturante, mas que, e infelizmente, pela sua persistência, continua a indignar aqueles que minimamente prezam a Língua portuguesa!
De tal modo recorrente, que já entrou no anedotário lusófono. Pode crer que é a custo, que me debruço sobre ele de novo, temendo  cansar o leitor.
Aconteceu que aqui há dias, vendo o noticiário de um dos canais televisivos de Língua portuguesa e em horário considerado “nobre,” escutei (para meu desagrado auditivo) um dos seus mais proeminentes ministros, referindo-se a si e intitulando-a de: “Presidenta” Convenhamos! Já é de mais! Os nossos ouvidos reclamam e com razão!
Pois bem, trata-se da aberração gramatical do seu título – felizmente provisório, acidental e passageiro - com que Vossa excelência resolveu, decidiu e decretou “brindar” os nossos ouvidos: “PRESIDENTA” (?). Onde já se viu? Com que direito?
Sim! Com que direito? Não sendo a senhora Presidente, autoridade em Língua portuguesa, como ousa e se arroga o direito de deformar as regras gramaticais da nossa bela Língua comum?
O que está a acontecer, configura uma quase falta de respeito ao quadro linguístico da CPLP de que o seu grande país justamente, é parte.
Ah! O saudoso e grande gramático e filólogo Celso Cunha! As voltas que deve dar, de cada vez que ouve “Presidenta” no seu país! Ele que, com outro grande Linguista português Professor Lindley Cintra, tanto fizeram (ambos) em prol e a bem da língua comum!
Posto isto, e desta forma, dúvidas sérias me ocorrem que a Língua portuguesa seja ou, tenha sido  língua materna de V. Exa. (?)!...
E mais, aconselho-a viva e rapidamente que se muna de um colaborador, conselheiro linguístico…não vá V. Exa. lembrar-se de outra “gracinha” do género desta: “presidenta”! A continuar, um dia desses teremos aí um manual gramatical "galhofeiro" da autoria do mandato de V. Exa.
Já agora uma questão, melindrosa e indiscreta: terá V. Exa. estudado as regras por que se rege a nossa Língua? Saberá senhora Presidente que os nomes (substantivos e adjectivos) terminados em e (regra geral) não são do género masculino? Já ouviu falar de palavras que se classificam morfologicamente de comum de dois? Isto é, usam-se de igual modo tanto para o masculino como para o feminino?
 Que apenas (excepções) isto é, um reduzido número palavras terminadas em e pertence ao género masculino?
Para assim se auto-denominar… o mais provável, ilustre senhora, é que desconheça ou ignore (mas nunca será tarde para se aprender...) que a maior parte dos substantivos e  dos adjectivos, terminados em “e” na língua portuguesa, nem sequer é do género masculino. Ou é do género feminino, ou é comum de dois (que é um subgénero gramatical). Isto é, são termos que pertencem e podem ser usados, conforme o contexto, ora no género masculino, ora no género feminino. Logo, a nossa gramática não é tão monocromática como querem fazê-la parecer. Não, ela possui uma paleta de variantes e de cambiantes de géneros e de subgéneros nas famílias das palavras, organizadas com lógica e que permitem que o falante, mantendo-se dentro das normas, se expresse de uma forma rica e clara!
Fiz ao acaso, um brevíssimo apanhado de algumas das mais bonitas, e também das mais temíveis palavras terminadas em “e” da língua portuguesa, que julgo ser ilustrativo daquilo que venho afirmando.
Ei-las:
A Amizade, a Saúde, a Fonte, a Árvore, a Ave, a Felicidade, a Honestidade, a Dignidade, a Hombridade, a Bondade, a Caridade, a Fidelidade, a Lealdade, a Majestade, a Efeméride, a Nave, a Chave, a Sensualidade e a Sexualidade. Assim também: a Falsidade, a Hostilidade, a Calamidade, a Malignidade, a Catástrofe, entre outras, e mais outras, de uma inesgotável listagem.
Imaginemos agora que a senhora Presidente e os seus altos dignitários desatem por aí a terminá-los em a? Havia de ser um caos gramatical! Não concorda? Creio que sim.
O interessante é que são mais raros, os registos gramaticais de palavras terminadas em “e” pertencentes ao género masculino. Uma mini listagem: Infante, Enxofre, Enxame e Cardume, são algumas delas.
Mas o mais significativo, em termos de quantidade e de regra gramatical da língua portuguesa, são os nomes (substantivos e adjectivos) terminados em “e” e que se usam tanto no feminino, como no masculino, o tal subgénero chamado, comum de dois.
Assim temos: o, a Presidente; o, a, Inteligente; o, a Ignorante; o, a Estudante; o, a Intérprete; o, a Emigrante; o, a Imigrante; o, a Cônjuge; o, a Herege, o, a Vidente, o, a Regente; o, a Paciente; o, a Pretendente, o, a Cliente, o, a Adolescente; o, a Elegante; o, a Prudente; o, a, Representante; o, a Ardente; o, a Chefe, entre vários outros exemplos que os limites deste texto não comportam.
Como vê ilustre Presidente, a nossa gramática permite ao semantema que denomina a vossa actual função (Presidente da República)) uma ambivalência em termos de género que o torna mais prestimoso e rico no seu uso e no seu significado.
Para terminar esta matéria já muito estafada quer na imprensa escrita, quer na redes sociais, rogo encarecidamente a V. Exa. que não desautorize os bons professores brasileiros da Língua portuguesa, (ao usar presidenta) os quais, nas aulas, se esforçam por bem ensinar a nossa língua comum.
Elevada consideração.
Subscrevo-me
Ondina Ferreira


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

[7729] - SOBREVOANDO O CEPTICISMO...

PIRRO
Gosto de escrever para o meu público (cabo-verdiano) que aprecia os conteúdos da minha escrita, e tenho podido contribuir para transmitir informações pertinentes de Medicina, Política, Religião e História que promovem conhecimento e reflexão. Aprendi a pensar de forma científica, incluindo como fazê-lo relativamente à política e religião, o que não agrada a alguns poucos leitores avessos ao uso do raciocínio e do cepticismo, um tipo de pensamento que está na base do método científico.
A dúvida metódica defendida por Descartes ajuda-nos a não enfiar todos os barretes, a não ingerir gato por lebre, e é por isso que certas “verdades”, mesmo as apodícticas, ou não me impressionam ou passam ao lado. O cepticismo desafia as instituições estabelecidas, pelo que é considerado perigoso, por poder levar as pessoas a adquirirem o hábito de pensar de forma céptica, talvez a começar a fazer perguntas incómodas sobre assuntos da gestão política e pública, económicos, sociais ou religiosos, desafiando as opiniões daqueles que se encontram no poder. O mal é o cepticismo ser considerado indelicado, a Ciência aborrecida e o pensamento rigoroso enfadonho e inadequado. Realmente, um homem culto é um homem mais livre que entende que o dever de um cidadão é a sua participação na política, o que o regime político deveria promover mas o sistema eleitoral não faz nem facilita.
Em escritos publicados anteriormente debrucei-me detidamente sobre os Jónios, da Antiguidade Grega, abordando os pré-socráticos. Foram eles os primeiros, de que temos conhecimento, a afirmar, de forma sistemática, que são as leis e as forças da Natureza, e não os deuses de vários povos, os responsáveis pela ordem e mesmo pela existência do mundo. Esta abordagem dos pré-socráticos foi, mais ou menos, por volta do sec. IV a.C., abafada por Platão, Aristóteles e, seguidamente, pelos teólogos cristãos.
Em religião encontrei em Bertrand Russell o que me fazia duvidar da existência divina, que se consolidou com o andar do tempo e o conhecimento do Mito Babilónico (Enuma Elish) da criação, dos finais do terceiro milénio antes de Cristo:

Quando lá no alto ainda o céu não tinha nome,
Nem a terra firme cá em baixo nome tinha…
Nenhuma cabana de colmo havia sido entrançada
Nem pântano aparecido, 
Quando deus nenhum havia ainda sido criado,
Nem chamado pelo nome, nem o seu destino determinado,
Foi então que os deuses foram criados

O Mito Babilónico corrobora a suspeita do amigo do bispo Agostinho (futuro Santo Agostinho) que, após ter ouvido o teólogo descrever, numa roda de amigos, as fases da criação do mundo por Deus, lhe atirou a pergunta: que fazia Deus antes da criação do Universo? Entalado com a pergunta, religiosamente incorrecta, respondeu-lhe que estaria a construir o Inferno para as pessoas que faziam perguntas do tipo da feita pelo amigo…
Thomas Hobbes escreveu em Leviatã que “o medo das coisas invisíveis é a semente natural daquilo a que todos nós, no nosso íntimo, chamamos religião.”
A minha descrença na política e nos políticos é de data mais recente, com a prática destes e de alguns amigos do peito que viraram políticos e governantes. Prática mesmo ruim, viciosa, com minguada relação com os ideais defendidos. Nunca tive vocação para o exercício da política, pelo que jamais me bati por, nem aceitei cargos políticos. Para se ser político é necessário ser-se feroz, como dizia Mitterrand. A minha ferocidade é civilista e não defendo verdades. Creio que foi Gramsci – alguns atribuem isso a Lenine - quem disse que “só a verdade é revolucionária”. Um outro comunista esclarecido rectificava: “tudo depende. A verdade só é revolucionária se for a verdade do nosso partido”. Entramos, assim, na órbita da partidocracia e da metamorfose da obediência em disciplina partidária, sem nenhum respeito pela democracia defendida porque nesta não pode haver obediência, simplesmente acordo. Da disciplina, claro, somente a consentida, o que não existe em política.
Quando se envereda pela política, deixa de haver amizades, simples interesses. Conta Franco Nogueira, ministro dos negócios estrangeiros e confidente de Salazar, nas suas memórias, que, encarregado pelo ditador a uma determinada diligência negativa junto de alguém, lhe respondeu que não podia levar isso a cabo por ser amigo íntimo dessa pessoa. Atalhou-lhe Salazar que em política não havia amigos, e que ele próprio não tinha amigos, isso dito por um bodona da ronha política.
Prefiro ser cidadão interveniente e de alma aberta da sociedade civil. Isso torna-me suspeito do poder? Certamente que sim, porque ainda não se descobriu a fórmula de ser insuspeito e empenhado ao mesmo tempo.
Não participar, por exemplo, na pressão sobre o Governo para a criação de uma comissão para o estudo da descentralização e regionalização de Cabo Verde proposta, há mais de dois anos, por um grupo de individualidades nacionais, em que me incluo, virar a cara para o lado, é uma forma de cumplicidade à indiferença, prepotência e mesmo violência não física. Aceito haver gente com os nossos ideais que se cala, por receio ou medo, gerador de submissões e menoridade, em que se instalou a covardia sob a máscara de prudência, que ainda hoje está alojada na consciência das populações que saíram de largas décadas do fascismo e passaram pelo regime de partido único do Estado-Partido. Mas a geração que não viveu isso, ou viveu somente uma parte, que espera para se fazer ouvir? Preferirá receber favores, mendigar aquilo a que tem direito em vez de o exigir? Suspeito, como pediatra, que este grupo da população, independentemente da sua idade, ainda está no período juvenil, na puberdade sensual, ignorante, ociosa e na cristianíssima resignação, esta a ser contestada pelo Papa Francisco. Mas, que raio!, há que sair dele!
Como disse, venho contribuindo com algumas ideias que não contêm certezas mas propostas de abertura e diálogo entre os dirigentes políticos e elementos da sociedade civil renitente à obediência cega programada. Presumo ter alguma razão nas propostas que defendo, por vezes, com alguma ironia, a qual, para ser eficaz, envolve, por vezes, certa caricatura. A vantagem da dialéctica defendida é mostrar claramente, como escreveu o meu mestre Henrique Carmona da Mota, duas perspectivas da mesma realidade, de forma a permitir uma imagem integral da mesma.
Falando de ironia e caricatura, aflora-me à mente O Triunfo dos Porcos (Animal Farm) de George Orwell, fábula publicada em 1945, que até pode ser uma sátira mas sem visados específicos, que não perdeu actualidade. O seu alvo é a sociedade, lato sensu. Presumo que F.C Fonseca se inspirou nele, ou pelo menos pensou no seu título, ao compor Porcos em Delírio, que releio, como terapêutica, nos momentos de má disposição para temperar o humor. Revisitando a apresentação do livro pelo malogrado colega e amigo João Vário, topo com as quatro figuras do quotidiano relacional utilitário, os discutidores da merdinha enfeitada, os matadores do burrinho do bispo, os passadores de pau – que deu o título de um dos meus livros – e os carochinheiros, cujas leituras recomendo vivamente aos meus leitores como desopilantes e premonitórios políticos, por serem figuras malignas, como nos adverte o autor, que se encontram em crescente e descarada proliferação, sobretudo no topo da nossa sociedade.
Após a aposentação, a minha posição tem sido puramente intelectual, idealista, e, na minha idade, de testemunho, que há pessoas, como eu, que aceitam mal e não o escondem, este estado de coisas – a falta de diálogo e a rejeição de colaboração franca daqueles que não pertencem à mesma cor política do Governo ou não aprovam todas as nuances por que têm passado essa cor – e se disponibilizam, de certa forma, para lutar contra a corrente, por não se conformarem com uma governação que se tornou autista e discriminatória.

Lisboa, Maio de 2014                                                            Arsénio Fermino de Pina
                                                                                      (Pediatra e sócio honorário da Adeco

domingo, 25 de janeiro de 2015

[7727] - GENTE QUE NÃO SE ESQUECE...

Manuel Figueira
Quem foi Teodoro Gomes, cujo nome popular era “Cunke”?
Segue-se a transcrição de dois curtos parágrafos que se encontram na página do Calendário de 1999, publicado pela Câmara Municipal de S. Vicente:
“Cunke aprendeu serralharia-mecânica nas Oficinas Inglesas tendo-se tornado exímio Mestre das Oficinas do Estado, na Pontinha, em 1932.
Várias gerações de jovens rapazes desta ilha, e não só, passaram pela Oficina do “Cunke” e, ainda hoje, existem muitos que ficaram a dever a sua formação à amável dedicação e arte de ensinar, deste filho de S.Vicente.”

Mais tarde
Sentindo na alma 
O peso da tristeza do lugar 
A casa em ruínas e a solidão da paisagem 
Decidi sublimar minha angústia 
Prestando Homenagem Ao Mestre Cunke 
Através das tintas, dos pincéis, da tela
Criando a pictórica composição intitulada 
“CAMPO DE SOL. SOLIDÃO”


(Colab. de José F. Lopes)

sábado, 24 de janeiro de 2015

[7726] - CONSELHOS ÚTEIS,,,

(Colab. Jorge Morbey)

[7725] - A DESCOLONIZAÇÃO EXEMPLAR...

"Para a maioria dos colonos, a possibilidade de abandonar África era nula"

PAULO CURADO 17/01/2015
Estudo antropológico junto de famílias de colonos procura cruzar histórias de vida com a história da colonização e descolonização portuguesa em África.

Família Freitas Munheiro, no Huambo, em 1962. Chegou a Angola no século XIX e dispersou-se após a descolonização entre Portugal, Brasil e EUA...

A guerra colonial passou desapercebida a muitas famílias portuguesas em Angola e Moçambique, alheadas do conflito e surpreendidas depois pelo processo de descolonização decorrente do 25 de Abril de 1974.

O fim do império significou o regresso a Portugal de centenas de milhares de cidadãos nacionais, pejorativamente apelidados de “retornados”, iniciando um processo de integração em muitos casos traumático e com efeitos ainda no presente. O “retorno” foi precisamente o último tema do painel “democratização e descolonização” que encerrou o primeiro dia da conferência O Ano do Fim. O Fim do Império Colonial Português, que terminou na sexta-feira no Instituto de Ciências Sociais (ICS), em Lisboa.

“Muitas destas famílias [de colonos] receberam o 25 de Abril em Portugal com indiferença, acabando por ser obrigados a regressar por força dos conflitos armados internos da pós-descolonização, nomeadamente em Angola”, explicou Elsa Peralta, antropóloga e investigadora do ICS. A guerra colonial que antecedeu as independências foi seguida com igual distanciamento. “Na maior parte das entrevistas que realizei junto desta população, não se verifica um discurso que permita pensar que existia uma noção do que estava a acontecer. Nem sequer havia consciencialização que ocorria um conflito armado”, revela, ressalvando que esta indiferença não pode ser generalizada a toda a sociedade colonial.

A natureza do regime que a revolução de Abril encerra em Portugal e o seu minucioso controlo da informação junto das populações africanas poderá explicar em parte este distanciamento, segundo defendeu António Costa Pinto, historiador e organizador da conferência, que alerta para a ausência de grandes estudos sobre esta temática. Elsa Peralta alarga o leque de hipóteses ao facto destas populações estarem concentradas em centros urbanos, longe dos palcos do conflito, e à ausência de qualquer tipo de politização e envolvimento, que potenciava o desinteresse.

“É difícil aferir e podem existir várias explicações”, salienta a antropóloga que iniciou esta investigação há cerca de ano e meio, no âmbito do desenvolvimento do projecto “Memória, esquecimento e pós colonialismo: representações públicas do Império Colonial Português”. “Este trabalho segue a longa tradição tipológica das biografias familiares, escritas a partir da recolha de dados etnográficos e de entrevistas em profundidade. Uma abordagem que permite compreender como forças sociais e quadros culturais e históricos são incorporados com a experiência individual. Ou seja, a partir de experiências de vida concretas, pretende alcançar estruturas sociais, políticas e históricas mais amplas.” Deixam de ser apenas histórias de vida, para se tornarem também na história da colonização e descolonização portuguesa em África.

Apesar das quatro décadas decorridas sobre as independências e o regresso forçado a Portugal destas populações, na sua maioria brancas, mas também mestiças e negras, Elsa Peralta encontrou muitas resistências para revisitar este passado, que deixou feridas perenes que ainda perduram, em muitos casos. “Muita gente recusou-se a falar, não só por receio de exposição, mas simplesmente por não quererem recordar. Há um ressentimento muito grande, privado, mas também com uma face pública, expresso quando chega o momento das eleições, por exemplo. Não imagino estas populações a votarem em candidatos ou linhas políticas próximas de figuras que identificam como responsáveis pelo processo de descolonização. Não desculpam o que aconteceu.”

Um passado traumático, que causa mágoa e ainda não se reconciliou com o presente. “Os ressentimentos que emergem das entrevistas são geralmente três, começando pelo rancor relacionado com o carácter súbito e inesperado da descolonização e do regresso a Portugal. Para a maioria dos entrevistados, a possibilidade de virem a abandonar África era nula, mesmo depois do 25 de Abril. Sentem-se inconformados e mesmo ludibriados pelo processo das independências conduzido pelas forças revolucionárias em Lisboa”, esclarece Elsa Peralta. A perda dos bens materiais deixados para trás e o chamado “desapossamento”, ou perda da legitimidade aos olhos do Estado e da sociedade, são igualmente factores de ressentimento, segundo a investigadora. (Sugerido por José F. Lopes)

[7724] - INCOERÊNCIAS...


UM HOMEM DE DIREITA COM IDEIAS DE ESQUERDA, É UM TIPO SIMPÁTICO... UM HOMEM DE ESQUERDA COM IDEIAS DE DIREITA, É UM TIPO REPUGNANTE!
(George Wolinski)

Citado por Valdemar Pereira

[7723] - COSTA NO CONGRESSO DO PAICV...


Sabiam que  António Costa vai participar no Congresso do PAICV,   neste fim de semana?! 
Seria bom que questionassem o Costa sobre o que é que ele pensa da Regionalização...
 (José F. Lopes)...

O líder do Partido Socialista português, António Costa, é um dos convidados e já confirmou a presença no Congresso do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV), que acontece no próximo fim-de-semana. A informação foi avançada pela presidente do partido, Janira Hopffer Almada, que disse ainda ter enviado convite também ao Primeiro-ministro da Guiné Bissau, Domingos Simões Pereira.

Além de assistir, António Costa, recém-eleito líder do PS, deverá ler uma mensagem no Congresso. Já Domingos Simões Pereira, ainda não confirmou a sua presença no Conclave que marca o fim de 15 anos de liderança de José Maria Neves, que se manterá como Primeiro-ministro até o final da legislatura, ou seja, no primeiro semestre de 2016.

Ainda sobre o Congresso, sabe-se que Janira Hopffer Almada convidou o líder parlamentar tambarina e seu adversário derrotado nas directas de 14 de Dezembro, Felisberto Vieira, para ocupar a vice-presidência do partido. Filú, recorda-se, obteve cerca de 40% dos votos nessa disputa interna.

A nova presidente do PAICV também endereçou um convite a ministra da Saúde, Cristina Fontes Lima, para o cargo de presidente do Conselho Nacional, numa tentativa de “juntar” todas as forças e aproveitar as competências do partido. Nem Felisberto Vieira nem Cristina Fontes ainda não comentaram os convites e nem responderam ao repto da nova líder. (da Imprensa)

[7722] - FUTEBOL SOLIDÁRIO...


A Seleção Nacional irá defrontar Cabo Verde a 31 de março, num encontro particular cuja receita reverterá a favor das vítimas da erupção do vulcão da ilha do Fogo, que deixou cerca de 1.600 pessoas desalojadas e prejuízos superiores a 45 milhões de euros. Ao que foi possível saber, o encontro, acertado diretamente entre os presidentes das duas federações, Fernando Gomes e Mário Semedo, terá lugar na zona da Grande Lisboa, embora ainda não esteja definido em que estádio. A última vez que as duas equipas se defrontaram foi em maio de 2010, na Covilhã, em partida que terminou com um nulo.

A partida surgirá dois dias depois do importante encontro em casa com a Sérvia, a contar para a qualificação do Euro’2016. Portugal é segundo do Grupo I, com seis pontos em três jogos, atrás da Dinamarca, que tem sete pontos em quatro partidas. (in Record).

[7721] - SOLIDARIEDADE...


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

[7720] - ENCRUZILHADAS...

Dos confins do Tibete às areias da ilha...
(Colab. José F. Lopes)

[7719] - PARA QUE CONSTE...

Nota - Cremos haver um engano na data...

[7718] - CRÓNICAS DESAFORADAS...


A propósito da referencia feita no blogue "Esquina do Tempo", de Brito-Semedo,  à cerimónia do lançamento do livro de João Branco, em S. Vicente, o amigo Adriano Miranda Lima comentou:

Excelente, excelente apresentação do Brito Semedo, um cidadão igual a si próprio em tudo o que faz ou em tudo em que se posiciona ou se manifesta: senhor da verdade e do afrontamento de peito descoberto quando a vê atropelada ou mascarada, enfim, um mindelense que “não leva  desaforo para casa”, como tantas vezes no-lo tem demonstrado neste blogue. Diria que o(s) apresentador(es) não podiam ter sido mais judiciosamente  escolhidos, um e outro em sincera sintonia psicológica com o autor, esse outro mindelense,  que é um “cabo-verdiano de sinal contrário, porque era o que queria ficar apesar de poder partir”- o João Branco. 
Mesmo sem  ler ainda o livro, o prevejo excelente, porque verdadeiro e certeiro no “desaforo” das suas denúncias. Basta atentar nos pequenos excertos recortados pelo Brito Semedo para crer que as “Crónicas Desaforadas” têm de mexer com as nossas consciências adormecidas ou convenientemente anestesiadas perante certa realidade que nos devia interpelar e incomodar. É imperativo que mexam, que nos sacudam violentamente! É que estas crónicas são um alerta bem vindo e um despertador cujas cordas têm de ser continuamente rodadas para que a campainha não cesse de retinir enquanto não acordarmos da nossa letargia.  A Praça Nova, um dos excertos mencionados, é bem uma evidência, porventura a mais paradigmática, do estado de degradação da sociedade mindelense.  É uma evidência que choca mais ainda porque ela é hoje um indesejável proscénio das nossas misérias e das nossas dores quando antes o era das nossas momentâneas alegrias e presumidas vaidades. Hoje,  os mindelenses que podiam (re)agir passam e fingem que nada vêem, nada mesmo, a caminho do seu conforto doméstico, dos seus whiskeys velhos e dos seus almoços.  É esta a sociedade que nos trouxe a independência política? É para isso que tantos sonharam?
Recorto estas palavras aqui ditas: “Por alguma razão uma criatura como o João Vário faz hoje tanta falta a Cabo Verde”. Sim, o João Vário, aquele  que foi proscrito porque sentiu a tensão existencial que lhe permitia lobrigar o que os seus pares não viam, que tinha essa visão de medianeiro entre a consciência individual e a universal. Conforta-me pensar que o João Vário possa estar latente na nossa consciência e que o sinal que dão mindelenses como o João Branco, o Brito Semedo e outros possa ser o tão necessário catalisador da “revolução” que urge empreender nos espíritos das gentes da nossa querida ilha do Mindelo.

Um bem-haja  a todos!    

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

[7717] - CABO VERDE - 40 ANOS DE INDEPENDENCIA...

JOSÉ FORTES LOPES
1ª Parte- Quando o Cabo Verde moderno renasceu em S. Vicente 

Com este artigo dou o início a uma série de artigos alusivos aos 40 da Independência de Cabo Verde. Como não podia deixar de ser, nos dois primeiros artigos faço referências à história de Cabo Verde e contextualizo o papel de S. Vicente na sua geração e formação, num momento em que a insurgência de um certo fundamentalismo tenta reescrever a História à sua maneira, conveniência e interesse. Cabo Verde é hoje um Livro Branco, um repositório de todas as narrativas falaciosas, lendas para consumo local, e especulações diversas para justificar opções políticas e económicas passadas actuais e futuras. Para que a narrativa se cole aos novos tempos e às novas vontades, revelam-se ao público ‘épaté’, atónito, descrições de alegadas epopeias gloriosas, combates épicos com as forças coloniais, focos de resistência, etc, tudo isso, imaginem, em solo cabo-verdiano. É claro que neste glorioso cenário, centenas de novos heróis fazem-se luz, impõem-se e recompensam-se: um punhado de combatentes engendra centenas de outros, e toda a clientela que gravita à volta, qual o milagre da multiplicação dos pães e peixes. É claro que tudo isto tem implicações financeiras: é suportado pelo magro erário público cabo-verdiano, ele mesmo dependente da ajuda externa. Como escrevi em tempos estamos na era do conhecimento e da informação, e simultaneamente na era de uma grande desorientação social, política, religiosa e ideológica. Aquilo que era ontem uma verdade quase absoluta parece tornar-se uma inverdade amanhã, com um simples ‘clickar’. 
Assim não agradará a alguns, mas é um facto que a ilha de S. Vicente, mais propriamente na cidade do Mindelo, graças a um histórico concurso de circunstâncias e a conjugação de factores externos e endógenos, jogou um papel fundamental na génese do Cabo Verde moderno, na passagem à modernidade, após o que foi considerado uma longa noite colonial, quando o arquipélago deixou de ter a importância estratégica no seio do império português e mergulhou no marasmo. É ainda nesta cidade que se criam as condições políticas em 1974 para a existência do Cabo Verde que se conhece hoje, ou seja, um país independente, uma situação criada por um evento inesperado, extraordinário, que foi o 25 de Abril. Se houve luta política e social no arquipélago, no período colonial recente, antes do 25 de Abril, ela ocorreu essencialmente em S. Vicente, a ilha onde, entre outros, os cabo-verdianos ‘aprendiam a ser gente’, cultivavam-se através do acesso à cultura e melhor se inteiravam do que se passava mundo, transformando-se, assim,  em cidadãos cabo-verdianos. E não podia ser de outra maneira, pois tirando os dois principais burgos do arquipélago, Mindelo e Praia, o resto de Cabo Verde ‘era paisagem’, a tal ‘pasmaceira’, com inúmeras localidades/aldeias abandonadas a elas mesmas. Inclusivamente acredita-se que uma parte da consciencialização política e cidadã de Amilcar Cabral (e de vários dirigentes de Cabo Verde) foi adquirida na cidade do Mindelo, numa altura da sua formação liceal e humana (anos 30), onde aí fervilhavam actividades intelectuais e socio-culturais. Lá porque esta ilha/cidade hoje nem sombra do seu glorioso passado é, pretender rebaixar o seu papel na História moderna/contemporânea de Cabo Verde e valorizar artificialmente outros, não fica bem. 
 Foi precisamente em S. Vicente, nos meados do século XIX, que dava à luz o novo Cabo Verde e surgia um autêntico homem novo cabo-verdiano, que rompia com a vida rural, semi-feudal do fim da escravatura, para abraçar uma vida urbana livre, sob impulso do capitalismo mercantilista britânico, que estabeleceu os seus arraiais em torno da Baia do Porto Grande, com o intuito de controlar para o seu império, a importante rota do Atlântico Médio, que já tinha sido exclusiva do império português. 
S. Vicente encarnava para o cabo-verdiano, fechado no horizonte montanhoso da sua ilha natal, um El Dorado, a liberdade, o trabalho, o mundo e sobretudo a perspectiva da emigração. A conjugação da massa crítica social, a existência do porto associado à atractividade que exercia a presença britânica no mesmo, e as condições socioeconómicas liberais assim proporcionadas forjaram na ilha um espírito de abertura ao mundo e uma identidade peculiar. Esta identidade nascida do urbanismo, e a industrialização, seria o molde, o substrato para a identidade cabo-verdiana moderna, que iria, como estudiosos defendem, potenciar as aspirações para a formação da nação Cabo Verdiana do século XX e mesmo o estado independente.
Sobre este ponto, a relação entre a identidade cabo-verdiana moderna e a cidade do Mindelo, Ondina Ferreira (1)  escreve: Aproveitaria esta oportunidade para transcrever excertos de um texto que retirei do “blogue” «Arrozcatum» de Zito Azevedo “ (…) “na segunda metade do séc. XIX, Mindelo torna-se um pólo de atracção para camponeses sem terra, que fogem da fome e da miséria, para famílias de importantes proprietários agrícolas ou comerciantes que aqui encontram melhores oportunidades de negócio e também para aqueles que, por serem mais escolarizados, podem encontrar bons empregos na Administração e Serviços. Vêm principalmente das ilhas de Santo Antão e São Nicolau, mas ao longo dos tempos é todo o arquipélago que aqui se cruza. No dizer de Onésimo Silveira, S. Vicente é a única ilha povoada por cabo-verdianos.”In: «Arrozcatum» blogspot.com, Zito Azevedo, “A Formação da Sociedade Mindelense“. Esta asserção a negritos da tese de Onésimo Silveira – e é aí que a transcrição tem sentido para este escrito – relativamente ao povoamento inicial da ilha de S. Vicente, com algumas tentativas conhecidas a partir do século XVIII, vem ao encontro da tese da identidade já completamente formada, cujos sujeitos povoadores, vindos de outras ilhas, maioritariamente, de Santo Antão e de S. Nicolau aportaram a S. Vicente – a última a ser povoada – O que só exalta o papel do mestiço, isto é, do filho das ilhas que pôde inclusivamente, povoar uma das ilhas do arquipélago cabo-verdiano. Adriano Lima acrescenta interrogações pertinentes sobre esta temática: para quê tanta preocupação com a nossa questão identitária?. O povoamento da ilha de S. Vicente gerou um cabo-verdiano liberto de complexos étnicos e culturais e é por isso que a mentalidade e as inclinações idiossincráticas do homem do Mindelo são as mesmas, sem distinção de cor de pele ou estrato social ou cultural. Não é que eu queira fazer a apologia do perfil humano do mindelense, até porque a sua mentalidade tem aspectos passíveis de censura, mas se há processo de mestiçagem a merecer curiosidade histórica é o que ocorreu em S. Vicente. E note-se que o processo não se circunscreveu à ilha do Porto Grande, propagou-se e influenciou o cabo-verdiano de outras ilhas, momente no Grupo Barlavento, e é isso que os “ascentralistas” não aceitam por denegar os pressupostos da sua  abordagem política do tema". 
Com a independência, nasce um novo paradigma baseado na ideologia reinante dos anos 60/70. A visão de desenvolvimento que imperava então, era a revolucionária e justicialista, eivada de um certo maniqueísmo, que consistia na ruptura com o passado, uma tentativa de mudar o mundo e libertar os Homens corrompidos espiritualmente pelo colonialismo. Na realidade, segundo os ideólogos, os países recém-nascidos da descolonização deviam fazer uma ruptura com o passado colonial, mudar 180º o rumo, marginalizar aquilo que os colonialistas privilegiaram e priorizar aquilo que foi marginalizado e oprimido, numa tentativa de vingar as injustiças, e de extirpar as sequelas do colonialismo. Uma tal política, segundo eles, libertaria definitivamente o país, ao romper com o passado. O drama destas teses, bem-intencionadas, em que se tenta aplicar a justiça linearmente e mecanicamente, é que os seus resultados podem ter efeitos contraproducentes ou nefastos. Acontece que, segundo alguns ideólogos fundamentalistas, S. Vicente, pela forte presença ocidental e colonial, era precisamente a ilha filha legítima do colonialismo, a sua aliada dilecta. Opções tomadas num prisma  exclusivamente ideológico, como aconteceu em 1975,  não poderiam, pois, eleger, logo à partida, a ilha como motor do desenvolvimento de Cabo Verde, e redundariam a longo prazo no nivelamento por baixo do arquipélago e na queda vertiginosa da ilha. Onde tudo ficou mais complicado é que na ausência de projecto credível para Cabo Verde, o investimento no interior do país não se saldou no desenvolvimento da agricultura que pudesse gerar uma auto-suficiência alimentar e uma nova economia. Sem agricultura, indústria e turismo, não havia motores de desenvolvimento, as perspectivas para o país tornaram-se sombrias: sem fonte de receitas, Cabo Verde transformava-se num eterno assistido da comunidade internacional. 
Janeiro de 2015

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

[7716] - ERA UMA VEZ, ANGOLA - (48)...


Permitam-me, entretanto, fazer aqui um pequeno desvio do percurso narrativo, par recordar esse feliz acontecimento que foi o mais que casual reencontro com o Administrador Estaca...
Era um homem de forte compleição física ou não tivesse jogado "rugby" quando estudante de Direito na Universidade de Coimbra, onde não passou, no entanto, do terceiro ano... Transitado para o Instituto de Ciências Sociais e Politica Ultramarina, daí saiu com os galões de Chefe-de-Posto com emprego desde logo garantido em Angola...Quanto cheguei a Cazombo, sede da Circunscrição Administrativa do Alto Zambeze, em 1957, já ele era Administrador de Circunscrição há 10 anos, fustigado por uma média de um processo disciplinar por ano, graças à sua visão da política ultramarina um pouco desviada dos manuais...Segundo afirmava, Luanda e Lisboa, jamais permitiriam que ele viesse a ser Administrador de Concelho o que o condenava, desde logo, a uma vida profissional deambulando pelas Circunscrições do interior profundo daquele território imenso, as mais afastadas dos grandes centros populacionais, como as capitais de Província e de Distrito. Mais de três anos de convívio profissional e social cimentaram uma amizade que muito me envaidecia, pois o Administrador Estaca, que tinha idade para ser meu pai e era o meu mais alto superior hierárquico, nunca me tratou com sobranceria ou desrespeito e, segundo consegui saber, tecia-me os maiores louvores nas Informações Anuais remetidas à Sede da Província, em Vila Luso, hoje, Moxico...
Despedira-me dele com aquele aperto no coração que nos agride quando estamos na iminência de uma separação dolorosa, por isso, rejubilei quando, numa tarde quente e húmida de Julho, de 1965 (?) recebi um telegrama, de bordo de um paquete da Companhia Colonial de Navegação (não me lembro qual...), assinado por Marques Estaca que dizia, mais ou menos isto: "Estou a bordo...Passarei amanhã...Gostaria de vê-lo..." 
Todo o mundo já sabia que o paquete da linha de Angola ia aportar ao Porto Grande com um pequena avaria mas, nunca me teria passado pela cabeça que o Administrador Estaca estivesse a bordo...
Fui dos primeiros a subir a escada de portaló no alto da qual o meu amigo me esperava, de braços abertos e o mais rasgado sorriso no rosto de pele curtida pelo inclemente sol de Angola que eu, durante alguns anos, havia partilhado com ele, num passado não muito distante...
Quando, em 1977 , me recambiaram para Portugal, ainda tentei localizar o Administrador Estaca, sem sucesso e, só há meia dúzia de meses consegui uma informação que me colocou em contacto com a sua residência, em Lisboa...Atendeu-me um irmão com a noticia de que o José Eduardo já falecera há muito, em 2005... Com um agradecimento em surdina, desliguei o telefone, enquanto uma lágrima furtiva me rolava pela face...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

[7715] - SINALEIRO, PRECISA-SE...


[7714] - DE CABEÇA PERDIDA...




CABO VERDE - 1908

QUE CABEÇA PARA ESTE CORPO?!

(Colab. A.Mendes)

[7713] - R E C A D O ....


Meus queridos amigos, o blogue Coral Vermelho, da Ondina Ferreira, é um espaço onde a autora publica de onde em onde o seu pensamento sobre a situação social e política cabo-verdiana. Não é um blogue de grande frequência e prolixidade editorial, pelo que não dá muito trabalho comentar o que nele se publica. De resto, o que nele se publica tem qualidade e aborda assuntos momentosos ou temáticos, o que justifica que se comente, tanto mais que a autora é pessoa que intervém frequentemente no ARROZCATUM e merece, por isso, a nossa solidariedade. Desde que, há 2 meses, descobri o blogue, tenho comentado, mas seria bom que não fosse o único.
Não me levem a mal a lembrança.
Rijo abraço
ADRIANO M. LIMA

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

[7712] - ERA UMA VEZ, ANGOLA - (47)...


Claro que o aparecimento daquela malta, em cuecas, acabou por atrasar a nossa partida: há sempre mais uma palavra, mais um abraço, mais uma recomendação...Tudo isto torna a separação mais dolorosa, antecipa as saudades e coloca-nos um nó na garganta enquanto intimamente nos interrogamos porque razão, afinal, vamos partir, se tanto nos agradaria ficar!
Infelizmente, a vida é feita de pequenas e grandes renuncias e creio que faz parte da construção do nosso "eu" integral essa faculdade de nos darmos à vida com o equilíbrio, nem sempre fácil, entre o sonho e a realidade, entre o desejo e a obrigação entre o lazer e a profissão...Os muitos quilómetros que percorremos na primeira etapa da minha viagem para um novo desconhecido, no mais completo silêncio, denunciavam isso mesmo: o turbilhão de dúvidas que, qual rio caudaloso, me inundava a mente e me corroía as entranhas numa espécie de remorso por ter deixado para trás um punhado de pessoas com quem tinha partilhado as minhas emoções durante tempos inolvidáveis, mas que eu sabia que jamais haveria de rever...
Estava, porem, enganado pois, escassos anos mais tarde, já de regresso ao Mindelo, quis o destino que eu voltasse a estar com com o meu Administrador e amigo, José Eduardo Marques Estaca, infelizmente já falecido...Foi uma feliz coincidência que oportunamente relatarei...

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

[7711] - REGRESSO...

Apenas umas linhas para dar conta do contentamento da família pelo regresso de Maiúca a casa...
Debeladas as causas do seu último internamento vamos, agora, prosseguir o processo de físio-terapia que lhe devolva a mobilidade afectada pela fractura do fémur e o seu pleno ingresso nas tarefas do dia-a-dia...
Uma vez mais aqui desejamos deixar expressa a nossa gratidão pelas muitas provas de carinho e palavras de incentivo com que os nossos amigos nos brindaram ao longo destas penosas semanas de dor e sofrimento...Que a saúde e a paz vos acompanhe a todos!

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

[7708] - BOLETIM CLINICO...

PACIENTE:
Maria do Carmo Feijóo Leitão de Azevedo
PATOLOGIA:
Fractura do úmero direito e colo do fémur esquerdo...
Infecção urinária com agravamento da função renal por desidratação generalizada...
ESTADO GERAL:
Infecção urinária estabilizada e função renal em recuperação assinalável pelo  nivelamento dos teores de potássio...Primeiros exercícios de físio-terapia com resposta positiva dos tecidos musculares...
GENERALIDADES: 
Recuperação do apetite, nivelamento da tensão arterial e valores aceitáveis da glicémia, sem necessidade de recurso à insulina...
NOTA FINAL:
Maiúca agradece a quantos - e são bastantes,  graças a Deus! - têm dado testemunho do seu carinho e preocupação pelo seu estado de saúde...
A Gerência, claro está, faz-se eco de tais agradecimentos por todas as razões e mais uma...BEM HAJAM!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

[7707] - ASSALTO ÀS TRÊS DA TARDE - CENA II ...


Estávamos, esta tarde, no Amadora-Sintra, de visita à Maiúca, quando meu irmão se lembrou que, tendo eu Via-Verde, poderia ver na minha conta se o desaparecido Saxo havia transitado por alguma portagem o que, eventualmente, facilitaria as buscas...
Em vez de consultar a conta, resolvi telefonar à P.J. e dei ao graduado de serviço o número do meu identificador da Via Verde, "para os devidos efeitos"...Perguntou-me, de volta, o meu nome o numero de matricula da viatura e, à minha resposta, comentou: "Esteja descansado porque o seu carro já apareceu!"...Explodi de contentamento!
Passada a primeira emoção fiquei a saber que o meu velho Saxo havia sido encontrado, nas imediações do assalto ao Banco, cerca de 48 horas depois dos acontecimentos do dia 31.12.2014 e parecia em perfeitas condições, mas que só me será entregue na próxima segunda-feira, pois vai ser necessário fazer peritagens em busca de indícios encriminatórios, etc e tal...Do mal, o menos, claro!
Ultrapassado o susto e sofrida a dor da perda, começa o ano com algo de positivo que, e desejo-o ardentemente, se venha a provar premonitório... 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

[7706] - ASSALTO ÀS TRÊS DA TARDE...


Várias vezes, nestas últimas semanas, tenho dado comigo a conferir os meus actos, atitudes e pensamentos mais ou menos recentes, na vã convicção de encontrar o porquê dos sucessivos malefícios que têm infernizado a vida da minha família, fruto das infelicidades de saúde da Maiúca...
Ontem, cerca das três da tarde, tinha estacionado o carro frente a uma pequena retrosaria, na chamada Rua Sete, de Queluz, onde costumo abastecer-me daqueles bons lenços de bolso da marca Poker, que uso há mais de sessenta anos...
Para desanuviar um pouco o excesso de calor provocado pelo aquecimentos do carro, abri o vidro e, segundos depois, senti - mais do que ouvi - uma voz que segredava ao meu ouvido esquerdo: "Isto é um assalto...Sai do carro, devagar e deixa as chaves no lugar"...De soslaio, vislumbrei um fulano de tez morena, de  faces regulares, impecavelmente barbeadas, gorro e luvas e que, agachado contra o carro, me apontava uma arma de fogo à têmpora esquerda...Consegui manter a calma e protelar o mais possível a saída do carro, na esperança que  a passagem de alguém colocasse o assaltante em fuga, sem êxito, no entanto, pois a rua mantinha-se deserta como se tudo tivesse sido previamente preparado...Em menos de dois  minutos - calculo - fiquei apeado...O 112 levou outro minuto, ou mais, a atender a minha chamada e a Policia levou mais dois a chegar ao pé de mim mas mandou-me esperar e seguiu caminho em grande alarido pois, como depois vim a saber, o "meu" assaltante servira-se do meu Saxo, entretanto,  para novo assalto, deste vez, a um balcão do Banco BCP, frente à Estação da CP de Queluz...
Continuo, pois, alimentando a dolorosa dúvida sobre que mal terei eu feito aos deuses...