sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

[7774] -A MORTE DO GENERAL SEM MEDO...


1958 - PORTO - PRAÇA CARLOS ALBERTO...

Completam-se, hoje, 50 anos sobre a data de 13 de Fevereiro de 1965, o dia em que, culminando uma cilada arquitectada pela polícia politica do Estado Novo, foi assassinado o General Humberto Delgado que, anos antes, tinha ganho, nas ruas do País, as eleições para a Presidência da Republica, mas que viria a ser espoliado nas urnas, manipuladas pelo regime...
Como seria, hoje, Portugal, se este homem tivesse levado avante o seu propósito eleitoral?!

[7773] - A M I Z A D E S ...


Esta noite, a insónia, que raramente me visita, lembrou-se de mim e fez-me companhia durante largas e intermináveis horas de vigília...
Não é do meu feitio enervar-me com o inevitável e, oitenta anos passados, já aprendi que a melhor forma de enfrentar a insónia é, pura e simplesmente, aguardar que se vá...Entretanto, convém aproveitar o tempo e, desta feita, dei comigo a divagar sob o conceito de amizade.
Primeiro, achei que as chamadas "falsas amizades" são uma utopia pois, se são falsas, não são amizades e, se são amizades, não podem ser falsas...Talvez fingidas mas, mesmo assim, tenho as minhas dúvidas...
Depois, interroguei-me sobre se a amizade é um sentimento - ou estado de alma - que exija presença, contacto, visualização, abraços e outras efusões do género, duas bebidas e um "tchim-tchim",  partilha de emoções, cumplicidade completa e totalmente isenta de egoísmos, fruto do intercâmbio dos mais íntimos segredos e, claro, do mútuo respeito, livre e inconscientemente aceite...
Cheguei à conclusão, já com algum peso nas pálpebras, que é possível cultivar amizades à distância, com o conhecimento apenas superficial do aspecto físico do outro - ou da outra - mas com a assimilação interessada do conteúdo dos escritos que se intercambiam e reflectem o pensamento e o espírito dos intervenientes, sem clivagens ou amarras preconceituosas e onde as almas bem formadas se encontram e se geminam nos ideais que partilham e respeitam as diferenças que, afinal, fazem de cada um de nós peças únicas na babel cósmica a que chamamos Humanidade...
É, assim, que eu tenho o privilégio de, graças a este veículo, ter encontrado amigos que jamais vi mas, que, ainda assim, fazem parte de um acervo mental inestimável que preservo como tesouro precioso, único, insubstituível!

[7772] - CABO VERDE - NAVIOS E MARINHEIROS - (2)...

Do Jornal "Voz de Cabo Verde" - 1911

(Amendes)

N.E. - Chama-se a isto "matar a fome com a vontade de comer"!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

[7771] - VISÃO PERIFÉRICA...


Este é o "pano de fundo" do blogue "Visão Periférica" que inaugurei em 25 de Outubro de 2010 e que vai em cerca de 100.000 visualizações...Isto, apesar de me ter distraído um pouco nestes dois últimos anos...
Recentemente, e face à receptividade registada na visualização de cada postagem, resolvi retomar as actividades e venho, por isso, convidar os amigos que gostem de "encher os olhos" perante boas imagens do nosso tão diverso mundo, a visitar o "Visão Periférica"...Recordo aqui o que escrevi, aquando da "inauguração" do blogue:

A IMAGEM E A PALAVRA...
É vulgar dizer-se que uma boa imagem vale mais do que mil palavras...Como todas as sentenças esta é, também, contornável...
Existem belas imagens, de belas paisagens, de belas pessoas, de belas coisas ou de coisa nenhuma...Mas gente houve, e voltará a haver, que escreveu coisas admiráveis em palavras belas como pérolas, dignas da mais bela de todas as mais belas imagens...Claro que são diversas as sensações pois diversos são os registos que captam as belezas de uma e de outras, mas comum o percurso que nos leva à emoção e ao êxtase que a beleza é capaz de provocar em todos nós...Felizmente!
Zito Azevedo

25.Outubro.2010.

[7770] - SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO...


Não se pode pressionar os filhos nesta coisa das profissões!...
Quando o Joãozinho era pequenino, queria ser bailarino e os seus pais desencorajaram-no, porque  isso era coisa para maricas...
Logo depois, o Joãozinho quis ser cabeleireiro, mas os seus pais não deixaram porque era coisa de invertidos...
Passado algum tempo quis ser estilista, mas os seus pais não permitiram porque era coisa de gays...
Agora, o Joãozinho cresceu, é maricas e não sabe fazer nada!!!
(Tuta Azevedo)

N.E. - É caso para perguntar: quantas vocações terão sido afogadas pelo preconceito na História da Humanidade?!
                                                                                                                  

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

[7769] - SOLUÇÃO DISCUTIVEL...


Esta foto reproduz a saudosa Cesária Évora cujo nome, como se sabe, foi dado ao Aeroporto de S.Pedro, em S.Vicente de Cabo Verde, local onde o monumento foi erigido...
O Amendes, que enviou a foto, não gostou, inclusive do enquadramento, que também não conseguimos entender em toda a sua extensão, se é que existe alguma simbologia neste conjunto...
Desde o início que demos conta da nossa discordância, de dar a um Aeroporto o nome de uma figura que nada tem a ver com a estrutura que baptisa salvo, quiçá o facto de ter sido sua utilizadora frequente...
Por esse mundo fora, normalmente, os Aeroportos levam os nomes de figuras políticas de relevo (JFK - USA) ou que, de uma forma ou de outra, tenham a ver com as actividades aeronáuticas (Santos Dumont - Brasil)...
Por exemplo, alguém se lembra de Joaquim Avelino Ribeiro (Quinquim Ribeiro), grande entusiasta da criação do Aeroclube de Cabo Verde, percursor dos TACV? E, por exemplo, o nome do primeiro piloto-aviador cabo-verdiano? Ou o do Eng. Humberto Duarte Fonseca, com trabalhos premiados internacionalmente, no domínio da segurança das pistas de aterragem? E, tantos outros...
Não está, aqui, em causa o merecimento da artista, cuja estátua, aliás, nos parece de muita qualidade estética, apenas duvidamos que a causa se ajuste ao efeito...Aliás, quando, amanhã, o Mindelo tiver, finalmente, uma casa de espectáculos digna, que nome lhe darão?

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

[7768] - A IDADE NÃO PERDÔA...

(Tuta Azevedo)
UMA MERA QUESTÃO DE PERSPECTIVA...

[7767] - VOZ DE CABO VERDE - 1911...


(Amendes)

N.E. - Não deixa de ser significativo que, a julgar pelo teor deste anúncio, pelo menos, em 1911, tenha havido larga abundância de cebolas em S. Vicente...Mato Inglês? Ribeira de Julião? Onde se cultivariam cebolas às toneladas? E já repararam no preço? Nesse mesmo ano, cada 1.000  reais passaram a valer 1 escudo, dos quais, descontando a inflação e a correcção monetária, são necessários 200, para fazer 1 Euro...Portanto, a cebola estava, na altura, a € 0.22,5...cada tonelada! Salvo êrro, claro!
Chega a parecer anedota que, nos anos sessenta (se bem me lembro) houve tanta falta de cebola em S.Vicente, quer importada quer produzida localmente, que o Djô de Lino, na Baía-das-Gatas, inventou, para o seu célebre caldo de peixe, um refogado à base de couve lombarda, muito fininha, a substituir a esquiva cebola...Durante largo tempo, ninguém notou a diferença!

[7766] - A ARTE DO AUTISTA PATRICK NOTLEY




MAIS FOTOS DE P. NOTLEY NO BLOGUE
"VISÃO PERIFÉRICA"

(Tuta Azevedo)


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

[7765] - I N Q U A L I F I C Á V E L !!!



ESTAS FOTOS FORAM CONSEGUIDAS NO BLOGUE "ESQUINA DO TEMPO", ONDE O AMIGO BRITO-SEMEDO, ELEGANTEMENTE, COMO É SEU TIMBRE, DIZ QUE A ESCOLA DA PRAÇA NOVA ESTÁ "CARNAVALADA"...TRATA-SE, DECERTO, DE INSPIRAÇÃO SAZONAL, DADA A PROXIMIDADE DO ENTRUDO...NÓS, ENTRETANTO, ACHAMOS QUE ISTO É INQUALIFICÁVEL, COM UMA CONSTRUÇÃO DOS ANOS 50 DO SÉCULO XX, MAIS SE ASSEMELHANDO A RUÍNAS ROMANAS DA ERA IMPERIAL...
ISTO, MEUS AMIGOS, ATÉ ENVERGONHARIA A SANTA ENGRÁCIA...

[7764] - CABO VERDE - NAVIOS E MARINHEIROS (1)...


~~
CABO VERDE - 1911

(Amendes)

[7763] - O "NOSSO" ZITO...


Foi de propósito que me emoldurei a ouro, pois é como me sinto quando a gentilíssima Ondina se refere à minha pessoa como "o nosso Zito"...
Eu tenho um coração de manteiga no Verão e já minha mãe dizia que, como ela, eu tinha sempre a lágrima e espreitar no canto do olho! Por isso, estas pequenas grandes coisas têm o condão de me perturbar - no bom sentido - e sinto o ego inchar quando acontecem...
Em boa verdade, esta coisa de ser "nosso", vindo da pena de quem vem, não é coisa pouca, nem gratuita, nem circunstancial: as pessoas de bem só falam o que sentem e eu, com idade já mais do que suficiente para ter juízo, sempre que leio "nosso Zito" entro na minha cápsula do tempo imaginária e revejo-me a jogar golo-a-golo no Canal de João Bintim, a grafitar, com giz colorido, as paredes do Telégrafo, na Rua de Senador, a mirar o Palácio da janela do meu quarto, no primeiro andar do prédio do Rádio Clube, a comer uma bela duma sandes de carne assada no Bar Estrela, e a aperitivar um bom grogue de Sintantom com mancarra torrada, sob o olhar complacente de Faninha, no Café Portugal, a dar uma volta pela marginal depois do jantar, a fazer de locutor de rádio no R.C.Mindelo e na Rádio Barlavento, a cantar mornas de Jorge Pedro, B.Leza e Tatai, a namorar, às voltas na Praça Nova, ouvindo a banda no coreto, a arbitrar jogos de futebol, a apresentar a Voz de Cabo Verde no Éden-Park, a musicar os filmes do Henrique Pereira, a cumprir horário laboral na Drogaria do Leão, a fazer amigos - e amigas - e a cabular em anos de ouro,  no Liceu Gil Eanes, com Baltazar, com Nhô Roque, com Adriano, com Rendall Leite, com Chantrim e Chantrão,  com Daniel Leite e tantos outros, a beber água de Madeiral e leite de cabra, a comer cachupa, rica e pobre, midge-in-gron, bife de atum, moreia frita, doce de coco, aranha de papaia, sucrinha de mancarra, pão de trança com açucar  amarelo, e a olhar  o mar com Santo Antão ali, à mão de semear,  a mergulhar na Baía-das-Gatas e almoçar o caldo de peixe de Djô de Lino depois de um bom gin & tonic com água pela cintura, a deleitar-me com as noites do luar de Agosto, a suar numa subida ao Monte Verde, a sentir no rosto o vento perene e a tomar uns banhos de chuva, quando S.Pedro entendia...Porque, afinal, amiga Ondina, dê por onde der, eu sinto-me UM DOS VOSSOS!
Obrigado, por concordar!

[7762] - DO FOLCLORE DE CABO VERDE...


                                   Do “Folclore Caboverdeano”, de Pedro Monteiro Cardoso

Entre mãos o Folclore Caboverdeano, de Pedro Cardoso, numa edição de 1983 da Associação Solidariedade Caboverdiana de Paris, que me foi enviado pelo amigo e conterrâneo Luiz Silva, por lhe ter falado no nosso poeta foguense. A primeira edição desta obra tem a data de 1933, em vida do autor.
Conheci a poesia do sagaz e acutilante polemista de leitura de alguns dos seus poemas, de referências ao seu jornal, O Manduco, de outro foguense, já falecido, o amigo Danilo Avelino Henriques, por volta da década de cinquenta/sessenta, e através do meu pai no livro O Processo de Hermano de Pina, subsídios para a história da fome em Cabo Verde - que me encarreguei de publicar ao encontrá-lo nas suas papeladas após a morte – onde cita o amigo que definia o administrador colonial da Ilha do Fogo, Dr. Gouveia e Melo, mais conhecido na ilha sob o nome de miliciano, de grande Tartufo.
Apraz-me realçar o valor desta obra de Pedro Cardoso, mormente para a nova geração de patrícios que a desconhece, e mesmo para os menos jovens, pois eu próprio, embora sabendo da sua existência, ainda não a tinha lido. Refiro-me, particularmente à edição da Associação Solidariedade Caboverdiana de Paris, pelo interesse da bem documentada introdução do Luiz Silva e do prefácio do escritor português Alfredo Margarido, peças fundamentais para a compreensão da época e contexto em que o poeta, polemista e professor primário foguense viveu. A introdução e prefácio dão-nos um manancial de informações históricas sobre a emigração cabo-verdiana para os EUA, a África (desconhecia que, já em 1866, se enviaram para a Ilha do Príncipe 1.000 cabo-verdianos, tendo a grande maioria morrido de paludismo e doença do sono) e Europa, sobre a evolução do ensino em Cabo Verde desde a Monarquia, passando pela 1ª República e pelo chamado Estado Novo, a história da introdução da tipografia em Cabo Verde (1842) e noutras colónias, a acção dos chamados nativistas (nacionalistas de boa têmpera e cepa), a criação de sindicatos e de organizações associativas (o primeiro sindicato agrícola criado em S. Nicolau em 1917), etc.
Luiz Silva não me enviou o texto de Pedro Cardoso, por só dispor de um único exemplar e recear perdê-lo. Lembrei-me, então, do bom amigo Daniel Nunes, badio de Santa Catarina, com a sua monumental biblioteca de livros versando assuntos africanos, quarenta e tal mil volumes, alguns de data recuadíssima, além de máscaras, estatuetas de vários tipos, peças arqueológicas únicas e pinturas que transformaram a sua residência, construída sob gestão directa, num autêntico museu. Foi aí que fui encontrar o Folclore Caboverdeano de Pedro Cardoso, e ainda beneficiei de um breve briefing do Daniel sobre o seu relacionamento com Alfredo Margarido e das peripécias da sua vida até se radicar em Paris. O jornal Público de 28 de Dezembro incluiu uma longa entrevista de duas páginas com Daniel Nunes e a SIC prometeu transmitir um programa sobre a mesma biblioteca.
Estas breves linhas pretendem tão-somente chamar a atenção para a necessidade urgente de reedição desta obra com a introdução e prefácio da edição da Associação Solidariedade Caboverdiana de Paris. O texto de Pedro Cardoso é interpretado e valorizado pela citada introdução e prefácio, pela simples razão de Luiz Silva ter sido emigrante que se converteu em sociólogo e conhecer, por isso, profundamente os problemas da emigração e da sua terá natal, um lutador perseverante, de longa data, em defesa dos direitos dos emigrantes, infelizmente muito mal escutado pelo poder; Alfredo Margarido, escritor português, conhecedor da história, literatura e sociedade cabo-verdianas, cuja integridade intelectual, cultura, competência e motivações políticas o forçaram a abandonar Portugal e a radicar-se em Paris. Amigo íntimo do Luiz Silva, que o guiou na sua qualificação universitária, conheci-o em S. Vicente, aquando de uma homenagem ao Mestre Aurélio Gonçalves, João Cleofas Martins e Sérgio Frusoni, por altura de um dos seus aniversários, pela Academia de Estudos de Ciências Comparadas (AECCOM), fundada pelo professor João Manuel Varela, com colaboração minha e até participação na revista Anais da Academia.
Deixo à curiosidade de eventuais leitores a obra de Pedro Cardoso, a primeira, que se conhece abordando a etnografia de Cabo Verde. Professor primário formado no famoso Seminário-liceu de S. Nicolau, com uma formação sólida em Português, Latim e noutras matérias que lhe permitiu intervir activa e corajosamente em defesa do seu país e povo, talvez o primeiro poeta de língua portuguesa a citar Karl Marx num dos seus poemas. Um exemplo para a geração actual um tanto amolecida e amedrontada pelas sinuosidades da governação nacional. Viveu no tempo em que se lia e se escrevia, ciente de que a escrita é sempre para os outros e uma manifestação de intervenção cívica, ao contrário da actualidade em que o ideal é a televisão, as redes sociais, o SMS. Hoje habita-se o território do lugar-comum e alimenta-se, acriticamente para não cansar a cabeça, de doses fartas de telenovelas medíocres e das “reflexões“ de comentadores políticos, económicos, futebolísticos e de outros produtores do pensamento único. A figura que domina a cena social, como bem diz o poeta e escritor José Fanha, é a do analfabeto secundário, que aprendeu a ler e a escrever mas diz, com frequência, não dispor de tempo para ler por ter coisas mais importantes para fazer.
A variedade de temas versados no Folclore de Pedro Cardoso – história de Cabo Verde, variantes do crioulo, noções elementares de gramática, glossário, etc, na 1ª Parte; cancioneiro, crioulo de Santiago, batuque, cimbó, finaçon, etc. na 2ª Parte; Apêndice com letras de mornas; In-memorium: António Cortez, Eugénio Tavares, etc. – encanta qualquer leitor e até intriga pelo manancial de conhecimentos do autor numa época tão recuada e em meio acanhado.
Bom seria que a nossa embaixada em Paris, redimindo-se de pecados antigos e menos antigos por omissão, proporcionasse um patrocínio significativo para a reedição desta obra.

Lisboa, Janeiro de 2015                                                                  Arsénio Fermino de Pina

                                                                                                                (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

domingo, 8 de fevereiro de 2015

[7761] - PERCURSOS DA MEMÓRIA...

Tchalé Figueira
Sentado neste banco aqui na Praça Nova, vendo carros e pessoas passando, de repente sinto o chilrear de pardais nas acácias rubras da índia, me vem a mente, aquele dia remoto na Ribeira de Julião. A cidade do Mindelo da minha infância, nada mais era, do que uma pequena coisa com algumas ruas e becos sem luz eléctrica, com ferros espetado no alto das esquinas, onde um empregado da Câmara Municipal, após o por do sol, as seis da tarde, subia umas lanternas acesas, e acrianças hipnotizadas pela luz, gritavam a medida que o senhor içava os candeeiros – Té logo… té logo… té logo!... O porto Grande com a sua baía em semicírculo, estava sempre repleto de barcos, que vinham de todas os portos distantes, também o Mindelo com os seus grandes depósitos de carvão dos ingleses da Miller and Corys, uma faina de homens mulatos e negros cardidos de carvão, labutando nas grandes lanchas, que abasteciam vapores fundeados para abastecimento, também água e víveres, abastecidos por Shipchandlers que, com seus botes de seis remos, informados pelos telegrafistas subornados das companhias Telegraf e Italcabo, informava-lhes a chegada de barcos no Porto Grande e, toca puxar na voga, seja dia, seja noite e, o mais destro e veloz dos botes, ao chegar no costado dos barcos ainda em marcha, o fornecedor ou representante da casa dos Shipchandler, num megafone de lata, grita em vários idiomas o nome da sua firma, e lembro do meu pai contar-me que uma vez, o nosso bote e o bote de um concorrente, na disputa de um barco carvoeiro inglês, ambos levantaram o megafone em simultâneo, e, pelo júbilo de papai, o seu antagónico engasgando numa tosse que não parava, pode assim a casa Figueira anunciar os seus préstimos ao comandante do barco inglês, com os marinheiros do nosso bote morrendo de riso, do outro, que tossia e tossia sem parar.
Estranho é a mente de um ser humano, é igual a um rio que corre, de um momento a outro, pensamento vem, pensamento vai, é basta abrirmos a torneira do subconsciente, eles jorram sem parar.
Caramba! Bem remoto aquele Mindelo dos tempos em que bengala dava tiros e, de tanta fartura, diziam a pessoa, que, amarrava-se cachorros com linguiça?… ahahha, este humor de gente de São Vicente, estes cosmopolitas por excelência, Reis do Carnaval, das festas e piqueniques, bairros de proletariados explorados, tísico pelo pó de carvão, bairro do Lombo com as suas putas, seus músicos de viola e bico, bancho e tamborim, suas coladeiras sarcásticas, muitas vezes maltratando nos versos as mulheres… em fim!... Não é o Mindelo de hoje com um Carnaval completamente abrasileirado, com plumas e sambas em vez das coladeiras e bailes no cinema Eden Park com as mulheres vestidas de zorro, iam muitas vezes aquecer a sua libido, roçando em homens em bailes lascivo, e os patetas pagando-lhes pastas de chocolate e bebidas, pensando que já estava no papo, elas no final do baile, alegando ir mijar, fugiam para as suas casas e os gajos todos de colhões inchados … Outros tempos! Outros Tempos!...
Mas, não vou desviar-me, da minha aventura na Ribeira de Julião, tamanho foi o susto. Ribeira de Julião da minha infância, na minha percepção de garoto, ficava bem longe, hoje, com um táxi, chego lá em dez minutos. Naquele tempo, para lá chegar, tinha que passar pela Chã de Cemitério, sem casas, repleto de tarafes e charuteiras, arbustos que a noite, nos dias de vento, vergando, pareciam a almas de outro mundo chamando as pessoas, e há muitas histórias de bêbados e não só, que desataram a correr com medo das árvores. Hoje, há luz por todos os lados, almas penadas, canilinhas, e capotonas, desapareceram da ilha. ..
Após Chã de cemitério, tinha que passar pelo medonho cemitério dos ingleses, depois mais a frente pelo cemitério dos nativos e portugueses, mais a frente era só mato e hortas onde entrava e, sem viva alma a ver, caminhava sozinho, com centenas de pardais cantando nas árvores. Com uma fisga, feito com tiras de pneus de borracha e um pedaço de couro amarrado numa forquilha, caçava os pobres animais, coisas de jovem, naquele tempo não tínhamos a consciência que, matar os alegres pássaros era ruim… outros tempos, outras coisas.
Nesse dia, sem autorização do meu pai que andava a fornecer barcos e da minha mãe, em tarefas domésticas, saio de casa com a minha fisga debaixo da camisa, sorrateiramente vou desviando das pessoas, toda a gente me conhece todos sabem quem são os meus pais. Evito as pessoas, atravesso a Salina, num sol abrasador passo pela Chã de Cemitério, faço o sinal da cruz ao passar pelos cemitérios, sinto um suor quente caindo da minha testa, na estrada de terra vou apanhando pedrinhas que meto no bolso, servem de bala para atirar aos pardais. No matagal cerrado não penso encontrar pessoas, o silêncio é apenas quebrado pelo ruído dos pássaros e as vezes, pelo apito bem longe de um barco na baía do Porto Grande. Tirando a fisga do bolso tento caçar alguns pardais, mas a minha pontaria neste dia é desastrosa, eu que sempre tive boa pontaria. Com o sol a derreter-me, caminho dentro da grande horta dos Pereiras, de repente vejo um poço onde os pássaros nuns buracos fazem seus ninhos. Resolvo descer para apanhar ovos no abrigo das criaturas. Como diz o velho ditado Indiano, “ Diabo e crianças” nunca se sabe, o que irão fazer”. Agarrando nas pedras do poço, vou descendo com cuidado, meto os pés em buracos e pedras salientes, o poço é profundo, se cair lá em baixo, morro. Suando desço até meio caminho, encontro um ninho, segurando com uma mão uma pedra, meto a mão no ninho, tento puxar os ovos que lá estão, a coisa está difícil, puxo bruscamente, minha mão saindo do buraco, sinto que caio de costas, sei que vou morrer estatelado no fundo do poço, são fracções de segundos, parece que alguém empurra-me nas costas, regresso a onde estava, consigo agarrar nas parede do poço, com o coração a latejar desenfreadamente subo, logo, no meio de árvores e espinhos que ferem-me a pele, saio da horta, vou para a casa, em quando o diabo esfrega um olho. Não conto nada do sucedido, pois, vai o meu pai saber, era sova garantido, daquelas que um, toda a sua vida, jamais esquece.
Pensando ser senhor do meu segredo, na boquinha da noite, uma velhota vem bater a nossa porta, minha mãe abre o portão, a senhora sem cumprimentar, dispara: Vim aqui minha senhora… Por favor, não deixem o menino ir a Ribeira de Julião sozinho, ele quase que morria esta manhã num poço, na horta da família Pereira...
Minha mãe pergunta-me se é verdade, nego, a velha vai-se sem despedir, nunca mais vi a velhota, até hoje pergunto: Se não havia ninguém naquele lugar, ninguém viu-me a descer par o poço, tenho a certeza que ao cair de costas, alguém empurrou-me, consegui agarrar nas pedras e subir?… Mistério!!!!! Mistério!!!!!!

sábado, 7 de fevereiro de 2015

[7760] - PONTOS DE VISTA...

JUSTINO PINTO DE ANDRADE

"Nós, angolanos, não fomos libertados, fomos aprisionados."

[7759] - DESCRIMINAÇÃO LABORAL???...

Lemos, algures, que "...é uma vergonha nacional ter uma televisão com funcionários e participantes badios, para conspirarem contra as ilhas do norte, a Ilhas de Barlavento..."
Quem terá dados concretos sobre este assunto, principalmente no que concerne à origem dos quadros técnicos e outros, da Radiotelevisão Cabo-verdiana?!

[7758] - UM "JOÃO RATÃO" DE S.TIAGO...


DO JORNAL "VOZ DE CABO VERDE" - 1911

O Amendes interroga-se sobre se este Regulamento de 30 de julho de 1910, aínda estará em vigor..Pessoalmente, ainda nos recordamos deste açucar escurinho que, salvo erro, nos chegava da ilha do Maio...Haverá, por aí, certamente, alguem que possa opinar sobre este assunto...

Pão-de-Açucar (Japão)


[7757] - RECORDANDO W. C. ...


Creio que muito poucos dos visitantes deste blogue se recordarão ou saberão quem foi este robusto cavalheiro, de quem se celebra, hoje, o cinquentenário do falecimento...
Winston Churchill era o Primeiro Ministro britânico, aquando da II Grande Guerra Mundial (1939-1945) mas já antes se notabilizara como jornalista - reportou "in loco" a independência de Cuba, de onde lhe veio o vício pelo charuto - escritor (Prémio Nobel) e pintor de mérito - são célebres algumas das suas telas pintadas quando de uma estadia na ilha da Madeira...Lorde do Almirantado, tinha mau feitio e um sentido de humor por vezes mordaz, defensor do Império a todo o transe conseguiu, graças aos seus pronunciamentos pela rádio, manter a alto nível o moral dos civis e militares britânicos...
Após a guerra e nas negociações com Estaline, a quem odiava por ser comunista, conseguiu, graças ao sacrifício da Polónia que ficou sob a alçada soviética, manter a Grécia no "clube" do chamado "Mundo Livre"...
As malhas que a política tece!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

[7756] - NEM SEMPRE GALINHA...

Quem não conhece a expressão “nem sempre galinha nem sempre rainha”?

O que muitos não saberão é que a origem dessa expressão é atribuída ao rei D. João V, conhecido nos manuais da história pelo “Magnânimo” mas também conhecido pelo “Freirático”, por causa da sua apetência sexual por freiras.
Ficou célebre o seu tórrido romance com a Madre Paula, do mosteiro de S. Dinis em Odivelas, com quem teve vários filhos, os quais educou esmeradamente, ficando conhecidos pelos Meninos de Palhavã, porque residiam em Palhavã, no Palácio onde actualmente funciona a embaixada de Espanha em Lisboa.
A rainha era austríaca e muito feia, ao contrário do rei que era bem apessoado, e talvez por isso o rei procurava outras companhias mais agradáveis. A rainha, sentindo-se rejeitada, ter-se-à queixado ao padre seu confessor.
Um dia o padre chamou o rei à razão, e então o rei ordenou ao cozinheiro que, a partir desse dia, o padre passaria a comer todos os dias galinha. Nos primeiros dias o padre até ficou satisfeito e deliciado com o menu. Mas, passado três meses, o homem andava agoniado e magro que nem um caniço, indo-se queixar ao rei de que o cozinheiro só lhe dava galinha.
Foi quando o rei, com ar de malícia, lhe disse:
- Pois é, senhor padre! Nem sempre galinha, nem sempre rainha!

(Valdemar Pereira)

[7755] - POEIRA DOS TEMPOS...

“A VOZ DE CABO VERDE”

CORRESPONDENCIA DE S.VICENTE 
(ortografia da época)

“ S. Vicente, 4 de abril de 1911 – É curioso para quem passa, vêr o que pode a política das terras pequenas. Passava no Loanda, o governador Marinha de Campos, acompanhado e desejado por muitos, e odiado por outros, o que é em si, um facto bem natural, porque só os coitados imbecis, é que não teem inimigos.
Foi recebido a bordo e depois na ponte caes, por quase todo o funcionalismo, corpo consular, e muito, muito povo. Só lá não vimos, os médicos do quadro de saúde e pharmacêuticos. 
Do commercio estava, por assim dizer, tudo, só faltando os representantes das casas Lopes & C.ª. Limitada e Ricardo José Serradas & C.ª Limitada. Os membros do commercio fizeram uma representação ao ministro das colonias e presidente do governo provisório, em que pedem a volta do governador, que já tem o seu nome ligado a um grande numero de medidas pedidas pelo commercio local, há muito tempo e que o governador, no curto prazo de quatro mezes, despachou, como: a armazenagem para matérias inflamáveis por um anno; armazenagem para os outros artigos de importação por seis mezes; facilitar o pequeno commercio de bordo em condições melhores do que estabelecidas até aqui; mandar abrir caminhos para o interior da ilha, e attender ao injusto rigor do imposto de tonelagem que obrigava os vapores de grande lote a recusarem carga, além de cinco toneladas, pois imaginem que um transatlântico de 7.000 toneladas para receber 6 toneladas de carga na província, só de imposto de tonelagem, pagava 140$000 réis.
Enfim, pela voz geral, S. Vicente não tem a Marinha de Campos, senão benefícios e boa vontade, n’este pequeno período de administração.
Os proprietários inglezes e chefes das três importantes casas carvoeiras e os representantes das principaes potências: Inglaterra, Hespanha, França, Alemanha, etc. – apesar de não ter havido convites, espontaneamente se apresentaram na ponte caes, para receber o governador e acompanhal-o ao palácio.
A um inglez, que me informaram ser o chefe da casa Wilson, Sons & C.ª. Limitada, constou-nos que ouviram dizer “que não se intromettia na política local, mas que estimava muito vêr este governador voltar, tanto lhe agradava o feitio franco e leal de Marinha de Campos”.
A destoar esta impressão boa, uma quasi tristeza em todos, pelo receio de que o governador fique em Lisboa, preso nas teias da politiquice, há a notar, o facto de uma garotáda que se lembrou de acompanhar a sahida do Loanda -- quando, já fóra da bahia e perto do sitio da Matiota com uma foguetada, capitaneada pelo sr. Ricardo Serradas, tendo como observadores do espectáculo, o sr. Roberto Duarte Silva, cônsul do México e sócio da firma Lopes & C.ª. e o pharmacêutico Fonseca, que dentro de uns buracos que existem no sítio da Matiota, destinados a chiqueiros de porcos, deitavam as cabecinhas de fóra, rindo de satisfação ao verem estalar os foguetes. 
Muito nos admira este acto dos republicanos do celebre Centro Republicano 5 d’Outubro! E mais é de espantar, -- para nós que conhecemos o sr. Roberto Duarte Silva, como um cavalheiro, de um trato fino, e que se tem revelado em todos os seus actos, um espirito ponderado e um funccionário distinto, -- vel-o acompanhar em garotadas desta ordem, rapazelhos sem classificação social em manifestações tão baixas e tão ordinárias!
Do nosso pharmacêutico Fonseca, nada extranhamos, -- há-de ser sempre o mesmo – Lisca-te, -- ou para melhor dizer o – Archote – mas que não julgue que é prohibido aos pretos bater nos brancos quando eles merecem. 
Quanto ao sr. Ricardo Serradas nada commentamos, porque nem mesmo lhe podemos enviar o compêndio de – João Félix Pereira -- pois não sabe lêr nem mesmo assiganar o próprio nome.
Senhor Roberto Duarte Silva desejamos como amigo, -- vel-o em melhores companhias! – Quem é que lhe fez mal depois de 13 de fevereiro? N’esse dia, informaram-nos que o senhor cônsul do México e família foi uma das pessoas que acompanhou o sr. Marinha de Campos!
Faça-nos o sr. Silva o elogio e a biographia dos seus consócios do Centro 5 de Outubro que nós a publicaremos; - tomamos este compromisso.
A redacção...

Nota: O Director e Editor – Abilio Monteiro de Macedo – assume-se como intransigente republicano e “devoto” da governação e acção de Marinha de Campos.
(Amendes)


[7754] - O LUGAR DA HISTÓRIA - 2...



2- Cabo Verde 40 anos após a Independência: Do fim do contencioso Unidade Guiné-Cabo Verde ao longo e sinuoso caminho da Normalização 

In ‘Cabo Verde 40 anos após a Independência; Da  Independência à 1ª Via’ 

Como vimos no artigo anterior (1), o deficit de explicação e as contradições (“riolas,” como o amigo Arsénio de Pina o classifica) criadas pela questão da Unidade Guiné-Cabo Verde terão levado a uma completa ausência de diálogo, a um extremar de posições entre as facções que se digladiavam pelo poder em 1974, sobretudo quando uns tinham a certeza absoluta de que estavam do lado da razão e outros do lado do povo e da História. Mas a questão da unidade era, na realidade, o bode expiatória perfeito que escondia divergências de fundo, o que ampliava ainda mais o estado de crispação ambiente. A oposição, encarnada pela UDC e UPICV, discordava dos objectivos e da metodologia do PAIGC, e defendia uma outra via, em vez da Independência Total e Imediata, uma via que consistiria num processo de Autodeterminação, conduzindo a uma Autonomia alargada e progressiva de Portugal, e, até eventualmente, à Independência, mas sempre ligada à ex-potência colonial. Esta via era acusada de neocolonial!. Por outro lado, para uma oposição que queria existir e ter uma palavra a dizer nos destinos de Cabo verde, a defesa do multipartidarismo e da democracia parlamentar fazia parte do seu instinto de sobrevivência, para além de ser um sistema que teria poupado ao país o desgaste político do regime de partido único. Mas a forte oposição das alas mais radicais do PAIGC, que classificavam esta possibilidade de aberração ou luxo de pequeno-burgueses, matou no ovo esta via: o já todo-poderosos partido estava em vias de receber o poder total das mãos do povo, tencionava governar sem oposição, através de um regime de partido único, e executar integralmente o seu programa económico e socio-político. Onde terá estado o mediador, o moderador, nesta contenda? 
Por outro lado, se acreditarmos na versão oficial dos factos, a questão da Unidade Guiné-Cabo Verde terá sido a razão do Golpe de Estado de 1981 na Guiné-Bissau, que provocou uma cisão no PAIGC, criando dois ramos independentes e nacionais deste partido, pondo termo definitivamente a um processo que se iniciou com a sua fundação. Não sendo de excluir que a versão da realidade que nos é oferecida possa ser verdadeira, não obstante a possível omissão de factos relevantes contribuidores de uma melhor clarificação, fecho o introito sobre a síntese do processo revolucionário ocorrido em S. Vicente de 25 de Abril a Dezembro de 1974 e retomo o cerne da questão que ora me proponho: Cabo Verde 40 anos após a independência.
A partir da independência, em 5 de Julho de 1975, os dois países, a Guiné e Cabo Verde, divergir-se-iam inexorável e irreversivelmente da linha traçada por Amílcar Cabral. Tal desfecho era já previsível e só poderá ter surpreendido ingénuos ou incrédulos, pois os dois estados vinham denunciando indícios claros da inviabilidade do projecto utópico e contranatura, concebido por quem fez descaso, numa altura de utopias e idealismos, da distinta natureza idiossincrática entre os dois povos. De resto, consta que rivalidades no seio do partido entre cabo-verdianos e guineenses eram uma constante desde os tempos da luta armada, mas nunca seriam reveladas, insistindo mesmo o PAIGC, em pleno debate sobre a questão em 1974, em vender aos cabo-verdianos uma falsa fachada de unidade, porque ela configurava a heráldica da bandeira do partido. 
Para além do rotundo fracasso deste projecto de união orgânica dos dois países, o que mais sobra hoje do núcleo duro do pensamento de Cabral em Cabo Verde? Como conciliar o ideal de sociedade justa, sem classes e livre da exploração do homem pelo homem, com a realidade pragmática da sociedade cabo-verdiana contemporânea, quando o próprio partido que o propugnava teve que renunciar aos seus princípios para se submeter à realidade nua e crua? Nenhuma réstia desse ideário sobreviveu à estrondosa queda da utopia, e isso aconteceu em Cabo Verde e um pouco por todo o mundo. Se é certo que todos partilhamos o sonho de um mundo onde impere aquele primado de valores humanitários, a verdade é que a realidade é bem mais complexa e emaranhada do que sugere a simplicidade básica dos princípios. Basta ver como ruiu o socialismo científico na ex-URRS e na China, levando os seus líderes a converterem-se a certas formas de capitalismo ou a adoptar soluções de conciliação com as regras do mercado, muitas vezes caindo nas mais incompreensíveis incongruências.
No caso particular de Cabo Verde, depois do fracasso da ideologia prosseguida até à abertura democrática em 1990, o PAICV não teve outro remédio senão perfilhar os princípios de uma economia de mercado. Porém, o que assistimos hoje é a uma economia de mercado pervertida pelo compadrio e vícios que a transformam num capitalismo controlado pelo Estado e onde impera o clube de amigos, familiares e camaradas, com regras liberais aplicadas quando lhes convém e quase sempre em detrimento do interesse do cidadão comum, o dito povo. Nada melhor que o empresário Jorge Spencer Lima para demonstrar este paradoxo e definir a dura realidade do estado da economia cabo-verdiana: um capitalismo de Estado em vias de liberalização, sem capital e com empresas falidas (2): “O Estado diz que os privados o devem substituir. Que privados? Está tudo morto, tudo falido”.
 Com efeito, para se perpetuar no poder e adaptar-se aos novos ventos da História, o PAICV mudou, rejuvenesceu, vestiu a camisola ideológica do MPD, liberalizou-se, surfando a vaga dos novos tempos da democracia e da mundialização, e tirou assim muitos dos argumentos à oposição, que ficou sem bússola e aparentemente sem programa credível depois de perder o poder em 2000.
Quando tudo indicava que o período histórico de 1974- associado à implementação da independência e tudo o que restava da memória colonial (que bem ou mal faz parte de uma história de 500 anos, para um país com 40 anos de idade) estavam a esmorecer no arquivo da história, ou, como se diz, atirados para o lixo da história, não é que esta entra pela janela dentro? Qual não foi o espanto, o Parlamento cabo-verdiano terá votado a “Lei da Reconciliação Nacional”, no quadro do qual ‘amnistia’ ou “indulta” os protagonistas do período revolucionário, nomeadamente as vítimas, incluindo avultadas indemnizações devido às expropriações, abrindo espaço para a possibilidade de litigações. Esta Lei que muitos desconheciam apanha assim todos de surpresa. Curiosamente, a notícia, que apareceu num único jornal (A Semana), apesar da sua importância histórica, não é manchete de nenhum dos restantes principais jornais nacionais. Ela foi algo furtivo, que passou sob o silêncio da opinião pública e dos diversos fazedores de opinião, o que dá uma ideia do grau de autocensura, e de desinformação em que vive hoje a sociedade cabo-verdiana, quando se trata de assuntos quentes. Este período eufórico, libertário, mas também de excessos, é tabu sob muitos aspectos, e daí o cuidado de o cobrir com um manto de silêncio. Mas é minha opinião que os cidadãos têm o direito a serem plenamente informados, a terem acesso aos arquivos, às fontes (Cadê os jornais e os panfletos da época? Os registos dos comícios inflamados? Os arquivos da Rádio Barlavento e da Rádio Clube?), de modo a melhor estudar os factos e apurar a verdade sobre uma fase das mais críticas da história contemporânea de Cabo Verde. Não deixa de ser paradoxal e curioso que a oposição durante quase 20 anos enfatize somente os problemas ocorridos bem depois do 5 de Julho 1975, focalizando exclusivamente e precisamente a questão da Reforma Agrária, omitindo calculadamente todo o processo anterior ao 5 de Julho, assim como os que são relativos à primeira fase da Primeira República, onde a actual oposição e o partido único se davam as mãos numa suposta ‘unidade nacional’. Coincidência ou não, esta notícia da Lei da Reconciliação Nacional saiu a público no mesmo dia em que se comemorava o Dia dos Heróis Nacionais (20 de Janeiro) e em que se antevia romarias e diversos actos comemorativos dos 40 anos dos eventos protagonizados pelos simpatizantes do PAIGC em S. Vicente e liderados por alguns dos actuais combatentes (alguns pelas sua participação na Guerra da Guiné do lado do PAIGC, outros pela sua actividade clandestina a favor deste partido, e muitos nem por isso) que levariam o arquipélago à independência. É assim que o Estado se vê hoje, por ironia do destino, obrigado a responder perante advogados que representam alguns dos expropriados da independência (ou mesmo do período colonial) e talvez a pagar “avultadas indemnizações” (3). Embora este facto não devesse surpreender ninguém, pois tarde ou cedo acabaria por acontecer, não deixa de ser uma grande oportunidade para levantar o manto diáfano que cobre todo este período e esclarecer muitas dúvidas. E não podia ser de outra maneira, pois sendo hoje Cabo Verde um Estado de Direito, obrigado a respeitar as diversas leis nacionais e convenções internacionais que subscreveu, a priori, deverá assumir as suas responsabilidades e indemnizar os lesados por actos delituosos cometidos em seu nome numa época de transição ou de domínio absoluto do partido/estado no exercício da sua acção revolucionária. Ou seja, alegadas invasões de propriedade, confiscações, expropriações de bens e vandalismos. Embora, não se pode esquecer que vivíamos um quadro revolucionário, decorrente do 25 de Abril e da subsequente contestação da legalidade colonial, situação que se pode denominar de Interregno, onde impera a legalidade revolucionária!
Todavia, pela leitura da notícia (3), o que estará em causa é uma ínfima parte do universo dos potenciais queixosos, sabendo que não é qualquer cidadão que tem a capacidade de processar um Estado por eventuais delitos políticos cometidos, anteriores ao próprio Estado, e que agora lhe possam ser imputados. O assunto não deixa de ter grande interesse, pois estaremos face à reabertura de um capítulo embaraçoso da história de Cabo Verde que engloba todo o processo revolucionário iniciado em 1974, com uma longa lista de incidentes passíveis de contencioso e que inclui: saneamentos políticos na administração pública, insultos, difamações, perseguições e assédios político-psicológicos, pichagem de casas, prisões, expulsões do país, assaltos, vandalismos etc. Não poderá deixar de incluir também processos posteriores, tais como o caso de pessoas perseguidas e presas por alegadas intentonas contra-revolucionárias em 1977, em S. Vicente e por causa da Reforma Agrária em 1980. 
Numa avaliação por alto, poderão estar incluídas centenas de cidadãos, residentes ou não em Cabo Verde, um número que poderá flutuar, dependendo dos critérios utilizados, na medida em que a maior parte das alegadas vítimas desapareceu. Por outro lado, acredita-se que os descendentes, mesmo tendo a possibilidade de recorrer, poderão querer passar uma esponja sobre o passado, não desejando evidenciar-se na sociedade cabo-verdiana com um contencioso com o Estado, que pode ser mal visto pela opinião pública, para além de outros preferirem atirar para o sótão da memória os percalços sofridos pelos seus antepassados, olhando-os como uma vicissitude normal de um processo revolucionário conducente à independência. E não podemos deixar de incluir neste processo, o caso dos descendentes dos ‘condenados a trabalho forçado’ em S Tomé, as verdadeiras vítimas colaterais de uma descolonização feita à pressa, sem acautelar todas as situações, e que ficaram abandonados nessa ilha tropical aquando da Independência, após terem sido usados na propaganda política do PAIGC, com promessas falaciosas. Existem ainda outros contenciosos que envolveram situações de uma dimensão mais política, tais como o caso da expropriação da Rádio Barlavento e do Grémio, a pilhagem da Biblioteca Municipal de S. Vicente, assim como outros actos de vandalismo que alegadamente ocorreram na cidade e que poderão ficar sob a alçada desta Lei. 
Não se deve esquecer que nas tragédias ou desgraças humanas, as vítimas são de carne e osso, nunca devem ser olhadas como números. Neste caso, trata-se essencialmente de pessoas que viviam pacificamente e despreocupadamente na sua pacata terra (mas sob ocupação colonial, alegarão os nacionalistas), e que, se saiba, não cometeram nenhum crime (senão o de serem reaccionárias e ‘catchor de dos pé’), para além de terem opinião contrária à tendência dominante. 
A pergunta que se coloca na mesma linha do pensamento de Armindo Ferreira num artigo publicado há anos (4) é se no quadro da Lei da Reconciliação Nacional é lícito falar de “amnistia” e “indulto” para crimes políticos entendidos apenas na estrita perspectiva de quem exercia um poder autocrático, e, neste caso, importando saber qual a bitola e o critério para as ressarcir devidamente e na totalidade, a elas e/ou seus descendentes, da ofensa à sua dignidade e dos prejuízos materiais e morais sofridos. Isto tudo leva-nos a reflectir sobre a necessidade de uma Reconciliação plena (incluindo os partidos actuais) no quadro dos mecanismos legais actualmente disponíveis?

1-Da Independência à 1ª Via: 1974, a tomada do Poder pelo PAIGC e a fuga da Elite Cabo-verdiana.
2-http://www.expressodasilhas.sapo.cv/economia/item/43876-jorge-spencer-lima-o-estado-diz-que-os-privados-o-devem-substituir-que-privados?-esta-tudo-morto-tudo-falido
3- http://www.asemana.publ.cv/spip.php?article106666&ak=1 
4-http://www.coral-vermelho.blogspot.pt/2015/01/reconciliacao-sim-indulto-ou-amnistia.html

Janeiro de 2015
José Fortes Lopes 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

[7753] - EXPLOSÃO DE LUZ...

Foto de Filipe Conceição e Silva
Com vénia ao Blogue "Praia-de-Bote"

É extraordinária a luminosidade do Mindelo...A cidade cintila como altar de gigantesca catedral iluminada por uma miríade de círios rutilantes...Extasiante!

[7752] - O VIOLADOR JAPONÊS...


A polícia japonesa deteve um homem suspeito de ter drogado e abusado sexualmente de mais de 100 mulheres que acreditaram estar a participar num estudo médico, informaram hoje as autoridades e imprensa nipónica.

Detetives disseram que dezenas de mulheres responderam a um anúncio que procurava voluntárias para participar numa "investigação médica para medir a pressão arterial durante o sono", em novembro de 2013.

As autoridades acreditam que Hideyuki Noguchi, de 54 anos, dava sedativos às mulheres depois de as atrair para hotéis. Assim que as mulheres ficavam inconscientes, o homem violava-as e filmava o ato, disse a polícia.

As filmagens das agressões sexuais foram divulgadas na Internet ou vendidas a produtores de filmes pornográficos, negócio que rendeu a Noguchi mais de 10 milhões de ienes (75 mil euros), informaram a TBS e outras televisões.

Não é conhecida formação médica ao indivíduo, escreve a AFP.

Um porta-voz da polícia em Chiba, leste de Tóquio, disse que os agentes confirmaram pelo menos 39 vítimas entre adolescentes e mulheres com idades até aos 40 anos em Tóquio, Chiba, Osaka,Tochigi e Shizuoka. (Lusa-Noticias ao  Minuto)

[7751] - UMA LINGUA DE OITO SÉCULOS...

Arsévio F. Pina
Meus caros, no blogue "Praia de Bote" está um artigo do nosso Arsénio que vocês têm de comentar. Eu e o Valdemar já lá fomos.
Comentei assim:
"Arsénio, este texto esteve na gaveta desde Julho do ano passado, rapaz? Mas porquê? 
Soberbo, meu caro. Tem razão o Valdemar quando diz que este artigo tem de ser vertido em outros blogues e jornais, e reeditado as vezes necessárias, para  que os fundamentalistas do crioulo fiquem com a lição “prindid”. E a respeito de “prindid”, transcrevo esta tão lúcida como curiosa afirmação da mãe do miúdo perante o teu mano Viriato: “ Criol el nascê prindid; m´pol na scola pal prendê purtuguês!”. Isto é o máximo, rapaz! Pergunto como uma cidadã comum, provavelmente de poucas letras, consegue ver mais longe que alguns nossos pseudo intelectuais.
Mas quando dizes no início do texto que, “sendo a matriz do crioulo  o português, o seu aperfeiçoamento com o estudo, a aquisição de vocábulos e o tempo, fá-lo-á aproximar-se cada vez mais do português, como todos os outros crioulos da respectiva matriz, confundindo-se com esta…”, estás a cometer um verdadeiro sacrilégio aos olhos dos fundamentalistas, meu caro. E porquê? Porque o que eles querem é o contrário, que o crioulo se afaste cada vez mais da fonte poluidora, a sua língua-mãe, por incrível que pareça. Para eles, o leite materno traz um veneno qualquer que tem de ser depurado com todos os filtros possíveis, ou então traz no seu paladar indesejáveis reminiscências que têm de ser lavadas para sempre da memória colectiva. Inventaram o ALUPEC e não tardará que comecem a inventar vocábulos estapafurdiamente rebuscados numa matriz imaginária só  visível aos olhos de lunáticos ou esquizofrénicos.
Eu nunca suporia possível semelhante miopia mental da parte de alguns nossos patrícios. Claro que eles têm direito a fazer os exercícios intelectuais que entendam, mas que o façam no solidão dos seus gabinetes e vedem as portas e as janelas. 
Arsénio, foi um gosto ler este artigo. Oxalá a Dr.ª Ondina Ferreira intervenha e comente porque sabe muito mais desta matéria do que os navegantes deste blogue." (Adriano Miranda Lima)

[7750] - IMAGINAÇÃO TRIBUTÁRIA...

(Adriano M. Lima)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

[7747] - ALERTA...


Nos próximos dias estejam atentos: não abram qualquer mensagem que contenha um arquivo anexo chamado: "Atualização do Windows live" independentemente de quem o enviar.
É um vírus que queima todo o disco rígido e poderá vir de uma pessoa conhecida, que tem a tua lista de endereços.
É por isso que se deve enviar esta mensagem a todos os nossos contatos.
Se receberem alguma mensagem com o anexo "Windows Live Update", mesmo que seja enviado por um amigo, não o abram e desliguem imediatamente os computadores...
Este é o pior dos vírus, como anunciado pela CNN, e foi classificado pela Microsoft como o  mais destrutivo que já existiu. Foi descoberto ontem pela McAfee e não há possibilidade de reparação.... Ele, simplesmente, destrói o Sector Zero do disco rígido.

[7746] - A OBRA DE S. JOÃO BOSCO...

Ontem, 31 de Janeiro, foi dia de S. João Bosco, o patrono dos "Salesianos", uma instituição a que S.Vicente e Cabo Verde muito devem... O texto que se segue, publicado pelos Salesianos mindelenses, foi-nos sugerido por José Fortes Lopes, ele próprio um producto da escola salesiana...

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Os primeiros Salesianos

Os Salesianos entraram, pela primeira vez, na Ilha de São Nicolau, em 1943. Alojados no seminário, na vila de Ribeira Brava, os seis salesianos (três sacerdotes e três irmãos) dirigidos pelo Padre Francisco Leite Pereira, fundaram um Oratório Festivo, frequentado por centenas de jovens, que contribuiu para a dignificação dessa população de S. Nicolau, tornando-a mais sensível aos valores do Espírito. Em 1954, transferiram-se para a Ilha de São Vicente a pedido do Bispo da Diocese, D. Faustino Moreira dos Santos.

Início das actividades

Ocupando as instalações do antigo Hospital Militar, depois das obras de adaptação do edifício, iniciaram o primeiro ciclo e as oficinas de marcenaria, sapataria e alfaiataria para internos e externos. Com a finalidade de preparar os jovens para o futuro, tendo em vista o desenvolvimento pessoal e o progresso da ilha de S. Vicente e, como meta, oferecer formação humana e cristã aos jovens, a escola dava os primeiros passos e crescia graças ao intenso trabalho de seus fundadores.

Em 1961, a Ilha de S. Vicente foi abençoada com a inauguração da igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, solenemente inaugurada com a presença do Padre Armando Monteiro, num clima de profunda religiosidade, que terminou com um concerto de música dado pela Banda da Escola para o povo de S. Vicente.

Em 1966, foi aberto um lar para estudantes, destinado aos jovens das diversas ilhas, que por escassez de estabelecimento de ensino e por falta de recursos financeiros não podiam continuar os seus estudos nas respetivas ilhas. Do lar saíram muitos jovens, hoje bem colocados na sociedade, quer no País quer no estrangeiro.

Em 1990, a Alemanha financiou em 75% a construção e apetrechamento das oficinas destinadas à Formação Profissional. Hoje, essas oficinas estão apetrechadas com máquinas modernas, dando a muitos jovens novos caminhos de colocação na vida com dignidade.

Em 1993, o Presidente da República António Mascarenhas Monteiro, em nome dos cabo-verdianos, atribuiu a medalha de mérito de primeira classe aos Salesianos como reconhecimento pelo trabalho que têm vindo a desenvolver no campo do ensino, na educação da juventude e na evangelização. Além das atividades enumeradas, os Salesianos deram sempre muita importância à Música, ao Teatro, ao Oratório Festivo, ao Desporto, à Ocupação dos Tempos Livres, etc


Banda dos Salesianos - Anos 60

[7745] - SANGUE E MORTE NA ACHADA...


Que desgraça! Aonde vamos parar? D. Loló, a amiga de infância, a enfermeira, a fisioterapeuta, a simpatia em pessoa,  foi barbaramente assassinada, em casa, em plena luz do dia e encontrada pelo marido, tombada, morta, toda ensanguentada... Que terror para o Sr. Elísio!  Não conheço detalhes da trágica ocorrência...  Estou arrasado!  Onde mora a segurança neste Cabo Verde, que já foi país de morabeza, de brandos costumes e da não violência? Que Deus nos acuda!

Texto - Óscar A. Ribeiro
Foto - Cucas Martins