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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

(6247) - SALVEM O ÉDEN-PARK...


MAIS UMA VEZ, SALVEM O EDEN PARK!

 O problema do Eden Park foi recentemente espoletado no arcabuz de uma reportagem do jornal Notícias do Norte, que mostrava o estado de calamitosa e imparável degradação em que se encontra aquele antigo edifício de cinema. A reportagem foi um tiro certeiro e teve o condão de interromper o sono comatoso dos mindelenses, tal o impacto emocional provocado, levando uma deputada nacional por S. Vicente a reagir como lhe competia na sua qualidade de representante do povo, o que, por sua vez, suscitou a discordância virulenta de um advogado que parece situar-se nos antípodas dos anseios do povo da nossa ilha. Claro que é perfeitamente legítima a divergência de opiniões sobre este deplorável caso, mas, quanto a mim, completamente errada em alguns dos seus juízos e fundamentos foi a atitude do advogado.

O que ele afirma é de uma leviandade tão risível e de uma ignorância tão rasteira que nem merece que se gastem muitas palavras para opor às suas diatribes. Que dizer quando para ele o Eden Park é exactamente como qualquer das outras casas antigas e abandonadas em S. Vicente? Que pensar quando parece causar-lhe engulhos a afirmação de que o edifício de cinema é um património da nossa ilha? Como julgá-lo quando supõe o valor do dinheiro prevalecente, e inapelavelmente, sobre tudo o resto?

Pois, para mim, se o edifício do Eden Park não é um património material devia já ter-se inscrito no respectivo cardápio, atendendo à sua antiguidade, à zona urbana da sua inserção e, sobretudo, ao seu estilo arquitectónico (“art déco”), de que deve ser exemplar único em S. Vicente se não mesmo no país. Contudo, mais importante ainda que a condição material intrínseca a um eventual crivo classificativo dessa ordem, é o estatuto de património imaterial que se lhe cola e se fundamenta no poderoso “mantra” que originou, sustentou e trancou no espírito dos cidadãos do Mindelo. Muito se tem escrito sobre a influência que o cinema Eden Park exerceu na população da ilha como veículo de informação, de cultura e entretenimento. Numa época em que o cinema comercial estava ainda nos primórdios em todo o mundo, o Eden Park foi precursor nessa inovação em Cabo Verde, com uma importância tal que se pode até considerá-la sobredimensionada ao meio a que então pertencia. Os mindelenses não tinham mãos a medir quando queriam acertar o passo com o progresso e a civilização. Tanto valeu para que a população da ilha se julgasse num oásis de alma quando traspunha o portão do cinema e se sentava na sua sala para se deliciar com os filmes que lhe traziam as “mantenhas” de terras distantes e o contacto com culturas estranhas, histórias antigas ou contemporâneas de povos e civilizações de outros quadrantes geográficos, desde a Roma antiga à selva africana do Tarzan e ao rebuliço de grandes metrópoles como Nova Iorque, Londres e Paris, passando pelos famosos e empolgantes “westerns” que deixavam os mais jovens em estado de quase catalepsia.

Como tem afirmado o Luiz Silva, e é uma verdade irrefutável, foi no Eden Park que a nossa gente abriu os olhos ao mundo exterior, à luta pelos direitos cívicos universais e à sagração da causa da justiça contra as torpezas e malfeitorias humanas. Mas note-se que não foi só o povo da ilha de S. Vicente o beneficiário das virtudes do Eden Park, foram todos os cabo-verdianos que demandaram S. Vicente em passagens ocasionais ou estadas mais duradouras. Igualmente, a nata da juventude de Santiago que frequentou até certa altura o liceu Gil Eanes teve ocasião de comungar com os colegas mindelenses o mesmo deslumbramento pelas primícias de um cinema enriquecedor dos espíritos, a mesma reflexão sobre os valores universais que ele transportava aos destinos mais diversos. Repetindo o que disse há dias, o Eden Park funcionou como um instrumento de transfusão civilizacional para todos os receptores que o quisessem, igualando na mesma bancada ou poltrona ilhéus de todas as origens, pessoas de todas as classes sociais e idades.

Portanto, parte significativa do imaginário mindelense (e porque não cabo-verdiano?) tem muito do contributo do cinema Eden Park, a ponto de não ser despropositado considerar que ele ajudou a moldar a nossa fisionomia humana, emprestando-lhe marcas distintivas que não queremos de modo algum alienar. Assim sendo, não é lícito associar o Eden Park a um património imaterial? Esta é uma utopia muito cara ao povo do Mindelo, e é um crime de lesa memória deixar perder o instrumento material que o corporiza e imortaliza.
Mais uma vez, salvem o Eden Park!

Tomar, Dezembro de 2013
Adriano Miranda Lima

 

4 comentários:

  1. Que mais dizer? Com este texto Adriano praticamente arruma o debate sobre o valor patrimonial do Eden Park. Maldito sejam os que o consideram um pardieiro sem interesse, a abater na calada da noite, pois se as paredes gravam algum marco dos espíritos que passaram por este edifício, então o clamor chegará aos céus e talvez os espíritos superiores que passaram por esta ilha comungarão connosco estas dores que sentimos pelo estado desta nossa ilha e intercederão por nós junto do PAI.

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  2. Sinto-me honrado e confortado por poder dar guarida a estes textos e comentários que me colocam do lado da razão no exercício de um poder de cidadania - o da indignação!
    JUNTOS, VENCEREMOS!!!

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  3. Muito me regozija o conteudo do texto e agradeço o autor e o jornal pela contribuição dado para a salvaguarda da nossa "Universidade Popular".
    Como a maioria de todos nôs tenho lembranças inesqueciveis desse lugar onde estive de um lado e do outro.
    Que uma solução decente seja enontrada e - também importante - que o nome do seu fundador, César Marques da Silva, seja para sempre lembrado.

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