2ª parte- Do fim da sociedade escravocrata à
eclosão do Cabo Verde moderno no Mindelo
In ‘Quando a Inglaterra Achou/Redescobriu S.
Vicente: fim da sociedade escravocrata e início do Cabo Verde moderno’
Cabo Verde,
Brasil e outros países da América Central e do Sul constituem do ponto de vista
humano experiências “sui generis”, em laboratório real e à escala global, de
recriação de novos povos e populações, dando assim ao Mundo novos mundos. Não
deixam assim de ser, portanto, casos atípicos de povoamento e colonização,
quando comparados com situações clássicas de colonialismo em África. Foram
laboratórios humanos em que o processo de cruzamento de populações se deu em
larga escala e durou séculos, formando novos povos e raças. Neste sentido, Cabo
Verde se singulariza assim no contexto das restantes colónias africanas de
Portugal, denominadas PALOP’s, como Angola, Moçambique e Guiné. Difere também
da Madeira e dos Açores, na medida em que nos seus povoamentos houve uma
contribuição significativa de colonos europeus, nomeadamente portugueses (1,2).
No caso de Cabo Verde e do Brasil, o tráfico
de escravos foi determinante no seu povoamento, levando a uma contribuição maioritária
de populações de origem africana na formação do povo cabo-verdiano de cada uma
das ilhas. Cabo Verde situava-se num ponto privilegiado da rota esclavagista, face
à sua proximidade do continente africano, mas estava consideravelmente afastado
da metrópole para merecer uma atenção particularizada, similar à dispensada aos
seus outros arquipélagos atlânticos. Para além disso, estava sujeito ao rigor e
às vicissitudes climáticas típicos da sua localização geográfica, condições pouco
atractivas à fixação de populações naquela época, pelo que a presença europeia
foi sempre mitigada, extremamente dependente da volatilidade das conjunturas
mundiais, o que dificultou a instalação de famílias tipicamente portuguesas,
como aconteceu na Madeira e nos Açores. Mesmo assim, por razões óbvias, a
presença masculina portuguesa foi determinante na definição da população do
arquipélago, na medida em que tal situação predispôs ao cruzamento étnico de
que resultou o nascimento da futura nação crioula cabo-verdiana, gerada no cruzamento
de continentes e povos diferentes. Dotada de características humanas sui
generis, na fronteira entre vários mundos, a génese da nação cabo-verdiana foi
algo sem paralelo nas outras possessões continentais africanas, onde os colonos
e os autóctones coabitavam, mas muito mais raramente se cruzavam. Todavia, esta
realidade histórico-social não é exclusiva de Cabo Verde como muitos pretendem
hoje.
É, portanto,
a conjugação do isolamento induzido pela insularidade com o afastamento das
principais metrópoles humanas, mais a evolução e a extinção da sociedade
escravocrata cabo-verdiana e a consequente perda de importância estratégica do
arquipélago, que levam as populações ali residentes a um lento processo de
autonomização histórica, económica e sociocultural. Ali se integraram de
maneira sincrética os valores civilizacionais oriundos da África e da Europa. O
processo de aculturação, miscigenação e crioulização das populações,
desenvolvido ao longo dos séculos, encontrou em Cabo Verde terreno fértil para uma
experimentação histórica bem-sucedida. Para além disso, na forja em que se
moldou o povo cabo-verdiano entrou o aço temperado das sucessivas crises que
vitimaram o arquipélago.
A evolução
da sociedade cabo-verdiana a partir dos meados do século XIX poderia ser a de
um banal arquipélago perdido no oceano, saído lentamente e dificilmente do
período escravocrata. Situar-se-ia do ponto de vista cultural e civilizacional
muito aquém de uma qualquer ilha tropical caribenha, ou pior, poderia ter um
destino bem triste, sem nenhum interesse económico nem estratégico, fechado
inexoravelmente em torno do seu umbigo ou totalmente dependente da assistência
da metrópole. Ascenderia talvez à independência em 1975, mas a sua história
poderia ser tão conflituosa como a de qualquer país africano.
Mas no
século XIX o mundo já tinha sido varrido pela avassaladora influência das
revoluções francesa e americana e entrava na era da revolução industrial
inglesa, caracterizada por ideias liberais e por um capitalismo mercantil sob a
égide do imperialismo britânico, que tentava a todo o custo reforçar o seu
poderio mundial em detrimento das outras potências rivais, ganhando posições geoestratégicas
para assegurar a comunicação e a circulação dos bens essenciais entre os
diversos pontos do seu império.
É neste
contexto de afirmação do imperialismo britânico que S. Vicente/Mindelo surge na
cena de Cabo Verde e do Mundo, num momento histórico não muito distante da abolição
da escravatura no arquipélago (3,4,5,6).
A história
da presença inglesa em Cabo Verde é longa no tempo, e decorre da dependência de Portugal da Inglaterra. Esta esteve
de resto em vias de ocupar Cabo Verde quando, no início de século XVIII, a lha
de Sº Antão então na posse dos Marqueses de Gouveia, seus donatários desde o
final dos quinhentos, quase que passou para o domínio inglês devido às
dificuldades financeiras por que passou seu donatário D. João Mascarenhas em
1724, quando se encontrava na Inglaterra, tendo arrendado a ilha a um grupo de
mercadores ingleses por um período de 27 anos (7). Os novos donos tinham um
projecto de colonização inglesa da ilha de S. Antão, assim como da vizinha ilha
de S. Vicente (então praticamente deserta e anexada a S. Antão), assim como a expansão
do domínio inglês para todo o Barlavento, projecto que falhou devido à vigorosa
e rápida reacção portuguesa (7). Uma nova ameaça de ocupação militar pura e
simples do arquipélago pelos ingleses foi objecto de preocupação do governo
português durante a 2ª Guerra Mundial (8,9,10).
A Inglaterra
redescobriu portanto Cabo Verde e achou S. Vicente no início do século XIX, construiu
Mindelo no momento em que Cabo Verde e Portugal entravam numa encruzilhada
histórica, e em que era necessário redefinir uma vocação e um novo conceito
estratégico para o arquipélago. Toda a história de Cabo Verde mudou a partir de
1838 quando a companhia inglesa East India implantou-se em S. Vicente, ou melhor,
quando a Royal Mail Steam Packet iniciou a instalação de depósitos de carvão para
o abastecimento da navegação que ali passa com destino ao Atlântico Sul, a partir de 1850 (3,4,5,6). Com a criação de um ponto de fixação do império
britânico em S. Vicente e no meio do Atlântico, a Inglaterra conquistou um
ponto estratégico para as comunicações e o serviço ultramarinos, Cabo Verde
voltou à luz da ribalta, ganhando uma importância geoestratégica perdida, pelo
efeito induzido pela própria presença da principal potência mundial. Este evento teve um impacto socio-económico
revolucionário no arquipélago, marcou a ruptura
com a antiga sociedade, estruturalmente tradicional, rural, que ainda vigorava nas ilhas
mais povoadas, em especial Santiago. Nelas, as relações económicas semi-feudais
e uma hierarquia estritamente rácica baseada na cor da pele decorrentes da
história escravocrata era a característica principal. Cabo Verde feudal foi
assim bruscamente catapultado para a modernidade pelo simples jogo da presença
inglesa, pelo importante movimento de populações interno provocado pela
‘industrialização’ de S. Vicente e a eclosão de novas relações de produção no
arquipélago. Foi assim um acto libertador, de ruptura com o passado. Marcou o
fim inexorável de uma época muito marcada pela ilha de Santiago, e o início da sua
progressiva marginalização e esquecimento. Nascia um novo Cabo Verde e consagrava-se a nova estrela do arquipélago,
a nova ‘capital’ Mindelo (razão porque a Metrópole
tentou transferir, em vão, para S. Vicente a capital de Cabo Verde para dar um
novo ímpeto socio-económico à colónia (5,6)). Mindelo era cidade livre das
teias do passado, cosmopolita, aberta ao mundo, centro intelectual, cultural e
económica do país.
A presença
inglesa em S. Vicente tornou-o um ponto de passagem obrigatória entre a Europa
e a África, e uma porta de entrada para o Mundo para os cabo-verdianos. A cidade
do Mindelo constituiu o ponto de fractura e de conflito entre o Cabo Verde
colonial e o pós-colonial, entre o passado e o futuro, o mundo rural e o
urbano, o progresso e a conservação, o moderno e a tradição, e passou a ser o rosto
do conformismo, da irreverência e da contestação. Doravante Cabo Verde passou a
estar dividido em dois mundos: o urbano, laico, operário, liberal progressista,
centrado na ilha de S. Vicente, e o Cabo Verde profundo, rural, retrógrado, conservador,
profundamente, católico, localizado das restantes ilhas do arquipélago. Quanto
maior era a situação de interioridade de uma ilha pior era o caso, situação que
até hoje perdura.
Um novo
Mundo abria-se assim em S. Vicente aos cabo-verdianos, o Eldorado ou Terra
Prometida, o sonho cabo-verdiano.
Vão confluir para a ilha milhares de crioulos
de todos os estratos sociais e de todos os pontos do arquipélago (5), que irão
formar os germes desta nova sociedade cabo-verdiana liberta dos grilhões e das
sequelas do passado, formando os germes da futura nação crioula que um dia
poderia nascer.
Juntam-se nesta
aventura emigrantes de vários pontos do mundo, alguns judeus, portugueses,
ingleses, italianos, alemães, indianos, árabes. S. Vicente nasce, assim, ilha mundializada,
liberal, nobre, ecléctica, cosmopolita, onde floresceram múltiplas actividades
liberais. Nela os cabo-verdianos adoptarão um estilo de vida citadino, matizado
por valores europeus, nomeadamente portugueses e ingleses. O impacto destas
transformações constitui uma autêntica revolução em Cabo Verde. A alavancagem
para um Cabo Verde moderno e contemporâneo deu-se portanto a partir de S. Vicente.
Estavam
assim postas em causa as bases ideológicas e sociais sobre as quais assentava a
tradicional sociedade escravocrata ancorada em Santiago, e um novo conceito de
Cabo-Verde estava a nascer onde poderiam conviver todas as raças, brancos,
pretos, amarelos e mestiços, independentemente da condição socio-económica.
Estavam criadas
as condições para que os próprios cabo-verdianos impulsionados pela dinâmica e
a ousadia mindelenses, revigorada na revolução do 25 de Abril de 1974 e na nova
ordem mundial nascente, redescobrissem Cabo Verde e ousassem contra todos as
probabilidades desafiar o destino e sonhar um país. Uma nova e extraordinária aventura,
mas com riscos e lágrimas para a S. Vicente e a sua população (mas não para uma
certa elite frívola mindelense que se mudou com armas e bagagens para o novo eldorado),
iria recomeçar em Cabo Verde. A Ilha apostou, jogou dignamente o seu papel, colocou
todas as cartas na mesa, mas perdeu no fim. Uma revolução social e política que
aí tinha começado foi mais uma vez subvertida e só podia tê-la sido por razões
que veremos. Tornou-se aos olhos da sua própria elite, paradoxalmente e
ironicamente num envergonhado problema pós-colonial, artificialmente re-inventado
para a nova ideologia, quando por ironia do destino mudaram-se os tempos e as
vontades em seu desfavor. Este artigo que aqui termina é pois o pano de fundo
para novo e próximo:
Quando o PAIGC Achou/Redescobriu S. Vicente:
1ª Parte
Revisitando a história de Cabo Verde no período que precede a independência2ª Parte-A decadência de S. Vicente e Cabo Verde: o triunfo da ruralidade, o retorno ao passado, a crise de valores e o lento apagamento do farol civilizacional do arquipélago.
José
Fortes Lopes
2-http://www.mixedracestudies.org/wordpress/?tag=peter-mark
3-Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade de Mindelo, 1984, Praia, Ministério da Habitação e Obras Públicas, ed. do Fundo de Desenvolvimento Nacional - Ministério da Economia e das Finanças.
4- http://www.buala.org/pt/cidade/mindelo-entre-a-ficcao-e-a-realidade
5-Maria da Luz Mello, A Cidade do Mindelo: Identidade Cultural e Linguística ( 1850 – 1975) http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/55924/2/tesemestmariamello000127575.pdf3-
6-http://pt.wikipedia.org/wiki/Mindelo_(Cabo_Verde)
7-http://www.casadasafricas.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/Santo-Antao-De-Cabo-Verde-1724-1732-Da-ocupacao-inglesa-a-criacao-do-regime-municipal.pdf
8-http://mindelosempre.blogspot.pt/2011/03/em-breve-espioes-alemaes-nas-aguas-de.html
9-http://www.infopedia.pt/$portugal-e-a-segunda-guerra-mundial;jsessionid=ngXPfAIMP684A-ktSggePA__
10- http://neh.no.sapo.pt/documentos/portugal_na_II%20guerra%20mundial.htm

Artigo de qualidade e que faz uma síntese correcta sobre a história de Cabo Verde.
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