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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

(6355) - SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DE CABO VERDE - 2ª PARTE...


2ª parte- Do fim da sociedade escravocrata à eclosão do Cabo Verde moderno no Mindelo

In ‘Quando a Inglaterra Achou/Redescobriu S. Vicente: fim da sociedade escravocrata e início do Cabo Verde moderno’
 
-Fim da sociedade escravocrata

Cabo Verde, Brasil e outros países da América Central e do Sul constituem do ponto de vista humano experiências “sui generis”, em laboratório real e à escala global, de recriação de novos povos e populações, dando assim ao Mundo novos mundos. Não deixam assim de ser, portanto, casos atípicos de povoamento e colonização, quando comparados com situações clássicas de colonialismo em África. Foram laboratórios humanos em que o processo de cruzamento de populações se deu em larga escala e durou séculos, formando novos povos e raças. Neste sentido, Cabo Verde se singulariza assim no contexto das restantes colónias africanas de Portugal, denominadas PALOP’s, como Angola, Moçambique e Guiné. Difere também da Madeira e dos Açores, na medida em que nos seus povoamentos houve uma contribuição significativa de colonos europeus, nomeadamente portugueses (1,2).
No caso de Cabo Verde e do Brasil, o tráfico de escravos foi determinante no seu povoamento, levando a uma contribuição maioritária de populações de origem africana na formação do povo cabo-verdiano de cada uma das ilhas. Cabo Verde situava-se num ponto privilegiado da rota esclavagista, face à sua proximidade do continente africano, mas estava consideravelmente afastado da metrópole para merecer uma atenção particularizada, similar à dispensada aos seus outros arquipélagos atlânticos. Para além disso, estava sujeito ao rigor e às vicissitudes climáticas típicos da sua localização geográfica, condições pouco atractivas à fixação de populações naquela época, pelo que a presença europeia foi sempre mitigada, extremamente dependente da volatilidade das conjunturas mundiais, o que dificultou a instalação de famílias tipicamente portuguesas, como aconteceu na Madeira e nos Açores. Mesmo assim, por razões óbvias, a presença masculina portuguesa foi determinante na definição da população do arquipélago, na medida em que tal situação predispôs ao cruzamento étnico de que resultou o nascimento da futura nação crioula cabo-verdiana, gerada no cruzamento de continentes e povos diferentes. Dotada de características humanas sui generis, na fronteira entre vários mundos, a génese da nação cabo-verdiana foi algo sem paralelo nas outras possessões continentais africanas, onde os colonos e os autóctones coabitavam, mas muito mais raramente se cruzavam. Todavia, esta realidade histórico-social não é exclusiva de Cabo Verde como muitos pretendem hoje.
É, portanto, a conjugação do isolamento induzido pela insularidade com o afastamento das principais metrópoles humanas, mais a evolução e a extinção da sociedade escravocrata cabo-verdiana e a consequente perda de importância estratégica do arquipélago, que levam as populações ali residentes a um lento processo de autonomização histórica, económica e sociocultural. Ali se integraram de maneira sincrética os valores civilizacionais oriundos da África e da Europa. O processo de aculturação, miscigenação e crioulização das populações, desenvolvido ao longo dos séculos, encontrou em Cabo Verde terreno fértil para uma experimentação histórica bem-sucedida. Para além disso, na forja em que se moldou o povo cabo-verdiano entrou o aço temperado das sucessivas crises que vitimaram o arquipélago.
A evolução da sociedade cabo-verdiana a partir dos meados do século XIX poderia ser a de um banal arquipélago perdido no oceano, saído lentamente e dificilmente do período escravocrata. Situar-se-ia do ponto de vista cultural e civilizacional muito aquém de uma qualquer ilha tropical caribenha, ou pior, poderia ter um destino bem triste, sem nenhum interesse económico nem estratégico, fechado inexoravelmente em torno do seu umbigo ou totalmente dependente da assistência da metrópole. Ascenderia talvez à independência em 1975, mas a sua história poderia ser tão conflituosa como a de qualquer país africano.
Mas no século XIX o mundo já tinha sido varrido pela avassaladora influência das revoluções francesa e americana e entrava na era da revolução industrial inglesa, caracterizada por ideias liberais e por um capitalismo mercantil sob a égide do imperialismo britânico, que tentava a todo o custo reforçar o seu poderio mundial em detrimento das outras potências rivais, ganhando posições geoestratégicas para assegurar a comunicação e a circulação dos bens essenciais entre os diversos pontos do seu império.

 - O início do Cabo Verde moderno no Mindelo

É neste contexto de afirmação do imperialismo britânico que S. Vicente/Mindelo surge na cena de Cabo Verde e do Mundo, num momento histórico não muito distante da abolição da escravatura no arquipélago (3,4,5,6).
A história da presença inglesa em Cabo Verde é longa no tempo, e decorre da dependência de Portugal da Inglaterra. Esta esteve de resto em vias de ocupar Cabo Verde quando, no início de século XVIII, a lha de Sº Antão então na posse dos Marqueses de Gouveia, seus donatários desde o final dos quinhentos, quase que passou para o domínio inglês devido às dificuldades financeiras por que passou seu donatário D. João Mascarenhas em 1724, quando se encontrava na Inglaterra, tendo arrendado a ilha a um grupo de mercadores ingleses por um período de 27 anos (7). Os novos donos tinham um projecto de colonização inglesa da ilha de S. Antão, assim como da vizinha ilha de S. Vicente (então praticamente deserta e anexada a S. Antão), assim como a expansão do domínio inglês para todo o Barlavento, projecto que falhou devido à vigorosa e rápida reacção portuguesa (7). Uma nova ameaça de ocupação militar pura e simples do arquipélago pelos ingleses foi objecto de preocupação do governo português durante a 2ª Guerra Mundial (8,9,10).
A Inglaterra redescobriu portanto Cabo Verde e achou S. Vicente no início do século XIX, construiu Mindelo no momento em que Cabo Verde e Portugal entravam numa encruzilhada histórica, e em que era necessário redefinir uma vocação e um novo conceito estratégico para o arquipélago. Toda a história de Cabo Verde mudou a partir de 1838 quando a companhia inglesa East India implantou-se em S. Vicente, ou melhor, quando a Royal Mail Steam Packet iniciou a instalação de depósitos de carvão para o abastecimento da navegação que ali passa com destino ao Atlântico Sul, a partir de 1850 (3,4,5,6). Com a criação de um ponto de fixação do império britânico em S. Vicente e no meio do Atlântico, a Inglaterra conquistou um ponto estratégico para as comunicações e o serviço ultramarinos, Cabo Verde voltou à luz da ribalta, ganhando uma importância geoestratégica perdida, pelo efeito induzido pela própria presença da principal potência mundial. Este evento teve um impacto socio-económico revolucionário no arquipélago, marcou a ruptura com a antiga sociedade, estruturalmente tradicional, rural, que ainda vigorava nas ilhas mais povoadas, em especial Santiago. Nelas, as relações económicas semi-feudais e uma hierarquia estritamente rácica baseada na cor da pele decorrentes da história escravocrata era a característica principal. Cabo Verde feudal foi assim bruscamente catapultado para a modernidade pelo simples jogo da presença inglesa, pelo importante movimento de populações interno provocado pela ‘industrialização’ de S. Vicente e a eclosão de novas relações de produção no arquipélago. Foi assim um acto libertador, de ruptura com o passado. Marcou o fim inexorável de uma época muito marcada pela ilha de Santiago, e o início da sua progressiva marginalização e esquecimento. Nascia um novo Cabo Verde e consagrava-se a nova estrela do arquipélago, a nova ‘capital’ Mindelo (razão porque a Metrópole tentou transferir, em vão, para S. Vicente a capital de Cabo Verde para dar um novo ímpeto socio-económico à colónia (5,6)). Mindelo era cidade livre das teias do passado, cosmopolita, aberta ao mundo, centro intelectual, cultural e económica do país.
A presença inglesa em S. Vicente tornou-o um ponto de passagem obrigatória entre a Europa e a África, e uma porta de entrada para o Mundo para os cabo-verdianos. A cidade do Mindelo constituiu o ponto de fractura e de conflito entre o Cabo Verde colonial e o pós-colonial, entre o passado e o futuro, o mundo rural e o urbano, o progresso e a conservação, o moderno e a tradição, e passou a ser o rosto do conformismo, da irreverência e da contestação. Doravante Cabo Verde passou a estar dividido em dois mundos: o urbano, laico, operário, liberal progressista, centrado na ilha de S. Vicente, e o Cabo Verde profundo, rural, retrógrado, conservador, profundamente, católico, localizado das restantes ilhas do arquipélago. Quanto maior era a situação de interioridade de uma ilha pior era o caso, situação que até hoje perdura.
Um novo Mundo abria-se assim em S. Vicente aos cabo-verdianos, o Eldorado ou Terra Prometida, o sonho cabo-verdiano.
Vão confluir para a ilha milhares de crioulos de todos os estratos sociais e de todos os pontos do arquipélago (5), que irão formar os germes desta nova sociedade cabo-verdiana liberta dos grilhões e das sequelas do passado, formando os germes da futura nação crioula que um dia poderia nascer.
Juntam-se nesta aventura emigrantes de vários pontos do mundo, alguns judeus, portugueses, ingleses, italianos, alemães, indianos, árabes. S. Vicente nasce, assim, ilha mundializada, liberal, nobre, ecléctica, cosmopolita, onde floresceram múltiplas actividades liberais. Nela os cabo-verdianos adoptarão um estilo de vida citadino, matizado por valores europeus, nomeadamente portugueses e ingleses. O impacto destas transformações constitui uma autêntica revolução em Cabo Verde. A alavancagem para um Cabo Verde moderno e contemporâneo deu-se portanto a partir de S. Vicente.
Estavam assim postas em causa as bases ideológicas e sociais sobre as quais assentava a tradicional sociedade escravocrata ancorada em Santiago, e um novo conceito de Cabo-Verde estava a nascer onde poderiam conviver todas as raças, brancos, pretos, amarelos e mestiços, independentemente da condição socio-económica.
Estavam criadas as condições para que os próprios cabo-verdianos impulsionados pela dinâmica e a ousadia mindelenses, revigorada na revolução do 25 de Abril de 1974 e na nova ordem mundial nascente, redescobrissem Cabo Verde e ousassem contra todos as probabilidades desafiar o destino e sonhar um país. Uma nova e extraordinária aventura, mas com riscos e lágrimas para a S. Vicente e a sua população (mas não para uma certa elite frívola mindelense que se mudou com armas e bagagens para o novo eldorado), iria recomeçar em Cabo Verde. A Ilha apostou, jogou dignamente o seu papel, colocou todas as cartas na mesa, mas perdeu no fim. Uma revolução social e política que aí tinha começado foi mais uma vez subvertida e só podia tê-la sido por razões que veremos. Tornou-se aos olhos da sua própria elite, paradoxalmente e ironicamente num envergonhado problema pós-colonial, artificialmente re-inventado para a nova ideologia, quando por ironia do destino mudaram-se os tempos e as vontades em seu desfavor. Este artigo que aqui termina é pois o pano de fundo para novo e próximo:

Quando o PAIGC Achou/Redescobriu S. Vicente:
1ª Parte Revisitando a história de Cabo Verde no período que precede a independência
2ª Parte-A decadência de S. Vicente e Cabo Verde: o triunfo da ruralidade, o retorno ao passado, a crise de valores e o lento apagamento do farol civilizacional do arquipélago.

José Fortes Lopes

2-http://www.mixedracestudies.org/wordpress/?tag=peter-mark
3-Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade de Mindelo, 1984, Praia, Ministério da Habitação e Obras Públicas, ed. do Fundo de Desenvolvimento Nacional - Ministério da Economia e das Finanças.
4- http://www.buala.org/pt/cidade/mindelo-entre-a-ficcao-e-a-realidade
5-Maria da Luz Mello, A Cidade do Mindelo: Identidade Cultural e Linguística ( 1850 – 1975)   http://repositorio-aberto.up.pt/bitstream/10216/55924/2/tesemestmariamello000127575.pdf3-
6-http://pt.wikipedia.org/wiki/Mindelo_(Cabo_Verde)
7-http://www.casadasafricas.org.br/wp/wp-content/uploads/2011/08/Santo-Antao-De-Cabo-Verde-1724-1732-Da-ocupacao-inglesa-a-criacao-do-regime-municipal.pdf
8-http://mindelosempre.blogspot.pt/2011/03/em-breve-espioes-alemaes-nas-aguas-de.html
9-http://www.infopedia.pt/$portugal-e-a-segunda-guerra-mundial;jsessionid=ngXPfAIMP684A-ktSggePA__
10- http://neh.no.sapo.pt/documentos/portugal_na_II%20guerra%20mundial.htm

1 comentário:

  1. Artigo de qualidade e que faz uma síntese correcta sobre a história de Cabo Verde.

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