quinta-feira, 3 de julho de 2014

[7117] - CABO VERDE E A LÍNGUA PORTUGUESA...

No dia 27 de Junho comemoram-se os 800 anos da língua portuguesa. O marco histórico de referência nestas celebrações é o testamento do Rei D. Afonso II, o primeiro documento oficial escrito em português. Hoje a língua portuguesa tem centenas de milhões de falantes em todos os continentes, suporta uma literatura vasta e rica e é tida, a par com o inglês, o francês e o espanhol como uma das línguas do mundo. Cabo Verde, juntamente com Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, integra a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que tem na agenda a promoção do português no seu espaço nacional e a sua adopção, em instâncias internacionais, designadamente na ONU, como língua de trabalho.
O uso da língua portuguesa nas ex-colónias sofreu uma franca expansão na sequência da sua adopção como língua oficial e com os esforços redobrados na escolarização da população. O rápido desenvolvimento da comunicação social, em especial a rádio e a televisão, tem sido instrumental em envolver as pessoas fora do circuito escolar e em aproximar as crianças mais cedo da língua. Em consequência, o português progressivamente ganha sobre as outras línguas faladas mesmo no trato informal e familiar. O fenómeno verifica-se em maior ou menor grau em todos os países da CPLP com uma excepção clara, Cabo Verde.
Em Cabo Verde, não obstante uma taxa de alfabetização de quase 100 por cento e uma escolarização elevada nos níveis básico e secundário, o uso do português restringe-se a momentos formais de interacção com os poderes públicos, à escrita e ao ensino. Mesmo nestas “cidadelas” notam-se sinais de retracção à medida que se torna corriqueiro o uso do crioulo no Parlamento, em declarações de políticos na comunicação social e mesmo em comunicações de carácter oficial de dirigentes da administração pública na rádio e televisão. No sistema educativo, o governo não se tem poupado a esforços para introduzir o crioulo como língua de ensino, apesar da oposição de muitos e da controvérsia que vem acompanhando o processo de adopção do ALUPEC como alfabeto oficial para a escrita da língua cabo-verdiana. Os meios utilizados parecem algo enviesados, porquanto não têm respaldo na Constituição que ainda consagra o português como língua oficial. E curiosamente em 2010, em sede de revisão constitucional ninguém propôs alterações que poderiam dar suporte ao rumo actualmente adoptado.
 A percepção generalizada é que o uso do próprio português enquanto língua oficial tem sofrido extraordinariamente com todos esses desenvolvimentos. Agravam isso outros factores. Por exemplo, na rádio e na televisão ouve-se um português pontuado por pronúncias e sotaques diversos. As crianças vêm das escolas imitando a pronúncia de professores a quem no curso de formação não se exigiu que aprendessem a forma correcta ou “standard” de pronunciar o português. O resultado é que as pessoas enquanto cidadãs, utentes de serviços públicos, trabalhadores e prestadores de serviços internacionais não deixarão de ficar afectadas negativamente pelas dificuldades progressivas em se exprimirem na língua portuguesa.
Os desafios particulares que a língua portuguesa encontra em Cabo Verde deveriam merecer das autoridades uma atenção especial. A realidade histórica é que há muito que o crioulo substituiu o português como língua materna. Diferentemente de outras partes do mundo, com génese similar após a expansão europeia do século XV, em Cabo Verde nem mesmo as classes sociais altas e letradas conseguiram subtrair-se à atracção do crioulo popular. O sentido de pertença à nação cabo-verdiana deve ter acompanhado a apropriação generalizada da língua em todas as suas variantes nas ilhas. No pós- independência o português continuou como língua oficial, mas a apropriação do crioulo, que já então estava completa, foi vista na época em círculos próximos do poder estabelecido como parte do esforço de reafricanização dos espíritos.
O elemento ideológico antagonístico entre as duas línguas que então foi introduzido provavelmente criou um problema que persiste até hoje e que testemunhos diversos afirmam que está a piorar. O português continua como língua oficial, mas nota-se que é cada vez mais difícil adquirir a competência adequada no seu uso. O crioulo mesmo que fôr declarado língua oficial dificilmente a curto e médio prazo poderá substituir o português na plenitude das suas funções oficiais. O conflito ideológico subjacente não deixa que se faça um esforço concertado para levar o português o mais cedo possível às crianças, por exemplo, no pré-escolar. Paralelamente, reconhecendo as dificuldades com o português que as crianças chegam à escola, pretende-se iniciar a escolarização com o crioulo e adiar para mais tarde a iniciação ao português.
 As consequências desta abordagem são evidentes. Quando em todo o mundo se procura propiciar as crianças a possibilidade de aprender as principais línguas o mais cedo possível, em Cabo Verde a tendência é oposta. Refugia-se num paroquialismo cada vez mais estreito que ameaça a cidadania, promove a desigualdade social e retira competitividade ao país e ao trabalhador cabo-verdiano. Com isso arrisca-se a seguir um caminho que vai no sentido inverso de todos os outros países da CPLP isolando o país dentro da comunidade e diminuindo as possibilidades de aproveitar as oportunidades que a facilidade de comunicação e cultura podem facultar.
 É evidente que não é uma opção inteligente. Em particular, mostra-se de todo apropriado que nesta data memorável dos 800 anos de uma língua com história e com alcance mundial e que também é repositória de tudo o que fomos sejamos capazes de a transformar num instrumental fundamental para a nossa afirmação, proveito e desenvolvimento nesta nova era da globalização.
Publicado em Opinião
Expresso das Ilhas
Sugestão de Joséd F. Lopes

4 comentários:

  1. Assino em baixo, concordando não só com a abordagem do tema como com as extrapolações feitas. Temo que os cabo-verdianos se enfiem num pequeno reduto linguístico se nada se fizer de sério, substancial e abrangente para alterar o actual panorama linguístico no país. Temo que fiquem atrás dos parceiros PALOP quando tiverem de competir em toda a esfera da economia e do mercado de trabalho, ainda que em igualdade de circunstância possam ter melhor formação técnica e académica. Temo, enfim, que a estupidez e a tacanhez mental de uns auto-convencidos intelectuais venham a contribuir para a nossa gente ficar preso num autêntico gueto. Gueto não só linguístico mas no sentido mais amplo da palavra porque a ferramenta linguística é aquela que constrói as engrenagens de todo o processo das relações sociais formatadoras da globalidade da vida humana.

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  2. COMO DIRIA SALAZAR - ORGULHOSAMENTE SÓS...

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  3. Os artigos sobre a problemática do Crioulo e a questão da Língua Portuguesa estão bem abordados no livro: Cabo Verde Os caminhos da Regionalização.Fátima Lopes escreveu na página 392
    OS CRIOULOS DE CABO VERDE – ESTATUTO MENOR OU
    MORTE LENTA
    '....A propósito desta problemática, o escritor Germano Almeida em tempos afirmou que o Crioulo não estava ameaçado de extinção em Cabo Verde, mas sim a língua portuguesa (1). Esta afirmação deveria preocupar muita gente, nomeadamente os responsáveis políticos, pois a oficialização do crioulo não pode ser vista como uma escapatória à presumível impossibilidade de o cabo-verdiano exprimir-se correctamente na língua portuguesa ou noutras línguas.'
    na página 287 10. A IMPORTÂNCIA DA LÍNGUA NOS DESAFIOS DO MUNDO GLOBAL
    José Fortes Lopes esccrevi
    'É neste contexto que são bem oportunas as seguintes e recentes declarações de duas figuras do mundo lusófono: Xanana Gusmão, ex-Presidente do Timor, ao jornal Correio da Manhã (1): “Temos orgulho em falar português. A Língua Portuguesa é um dos nossos grandes factores de independência e afirmação, neste contexto asiático e com vizinhos tão poderosos. Por isso, pretendemos reforçar o ensino do português”; Pedro Pires ex-Presidente Cabo Verde, ao jornal A Nação (2): “é necessário que exista um esforço da comunidade académica, da sociedade civil e dos governos dos países lusófonos para elevar o estatuto da língua portuguesa no campo da pesquisa. Para além de uma língua de cultura, o português deverá ser uma língua de tecnologia e caberá aos países mais avançados e mais populosos como Brasil, Portugal, Angola e Moçambique trabalharem para fazer da língua portuguesa uma língua de cultura, mas sobretudo uma língua de ciência e tecnologia. As investigações nos mais diversos domínios vão precisar de ser em língua portuguesa. É um esforço que deve ser feito”. É assim que, olhando o problema numa perspectiva global e de longo prazo, querer forçar os cabo-verdianos a numa experimentação aventureira afastando-os do bilinguismo só pode levar a concluir que quem dirige os destinos de Cabo Verde traz o passo desacertado com a realidade e a história.'

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  4. Estamos todos preocupados- os que sabem e conhecem o tesouro que é a Língua portuguesa para o desenvolvimento de Cabo Verde - com o futuro da nossa língua comum nas ilhas, sobretudo na valência: comunicação. Isto é, a sua oralidade está a perigar, se se continuar com a demagogia linguística encetada há uns anitos a esta parte. Oxalá! o bom senso e o interesse do País prevaleçam sobre interesses outros, que eu aqui escuso-me de mencionar...
    Um abraço Zito da:
    Ondina

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