domingo, 6 de julho de 2014

[7129] - S.VICENTE - EVOLUÇÃO SOCIAL (5)...

                                       OS FALCÕES
O primeiro núcleo dos Falcões em Cabo Verde foi formado em Mindelo em 1932, em concorrida cerimónia realizada no Eden Park. O líder da iniciativa foi Júlio Bento de Oliveira, importante personagem da história cabo-verdiana. O movimento logo se espraiou pelo arquipélago; em 1934 chegou à Praia. Estima-se que só em S. Vicente a instituição chegou a ter dois mil membros.
Os Falcões eram um movimento muito hierárquico e com forte base moral e disciplinar. Seus lideres dividiam-se em: oficias (de 1ª, 2ª e 3ª classes), suboficiais de (de 1ª e 2ª classes) chefes (de 1ª e 2ª classes) e juniores. Para ascender, o candidato devia fazer provas de comando, tática, ginástica, desporto, exercício com armas, além de ser submetido a uma análise de sua vida social e moral; para postos mais altos, havia também testes sobre os principais problemas de Cabo Verde. Os associados eram divididos de acordo com a faixa etária: 7-12 anos (4ª Cla.) – Formigas; 13-15 anos (3ª Cla.) – Cigarras; 16 a 20 (2ª Cla.) – Falcões; 21-40 anos (1ªCla.) Falcões.
Os que aderissem ao movimento deveriam aprender a marchar, a manejar armas, a fazer uso da telegrafia, a velejar e a assumir o compromisso de praticar actividades físicas. Para tanto, encontravam-se usualmente na praia da Matiota, na ocasião chamada de STEP, em função de um trampolim instalado em 1908.
Segundo os memorialistas, naquele momento, o balneário já não era tão procurado pela população, uma vez que ali se tornara comum a presença de tubarões, atraídos pelos dejetos jogados no mar pelos navios que atracavam no Porto Grande (Ramos 2003) Diante desse problema, os membros do grupo teriam confecionado e instalado na entrada da baía uma rede de arame de aço que impedia a chegada dos animais, o que tornou possível a volta dos banhos de mar e da prática da natação. Com o apoio da Câmara Municipal, por lá construíram uma sede, em 1937.
Não surpreende que aquela parte do litoral tenha ficado conhecida com a praia dos Falcões. Depois que a entidade por lá se instalou, a antiga Matiota tornou-se espaço constante de exibições atléticas, jogos desportivos e espetáculos. As paradas públicas e as demonstrações de ginástica do movimento, aliás, eram muito apreciadas pela população e sempre exaltadas pelos jornais:
“ Nada realmente mais belo do que uma parada de ginástica, os corpos musculosos movendo-se em ritmica cadência, os braços em harmoniosos movimentos e o perfeito alinhamento de fileiras, formam um conjunto maravilhoso, soberbo, digno de admiração (Noticiário), 5 Ag. 1933 P.2).
O movimento teve ainda um grupo de teatro, liderado por António Bandeira, que se apresentava com frequência no Eden Park. Suas exibições, que faziam uso de actividades ginásticas, eram muito organizadas e eram um acontecimento bastante a aguardado na ilha de S. Vicente (Branco, 2004). Branco avalia que ainda só tenham produzido cerca de quatro ou cinco peças, elas foram fundamentais para despertar o gosto da população e estimular a organização de outros grupos cénicos.
Apesar do sucesso, os rumos da política determinaram, em 1939, o fim dos Falcões em Cabo Verde. O governo metropolitano os extinguiu quando compulsivamente introduziu no arquipélago outra organização: a Mocidade Portuguesa, criada em 1939, em pleno Estado Novo, com o intuito de promover amor à pátria por meio do desenvolvimento das capacidades morais e físicas dos jovens. Tal decisão desagradou profundamente tanto os membros do grupo quanto as lideranças locais, ocasionando até mesmo uma resistência inicial à entidade que vinha da metrópole
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Continua
In- U. Rio de Janeiro/ estudos Sociais
Colab. A,Mendes

2 comentários:

  1. Importante dar a conhecer isto.
    Pela abrangência da sua actividade, vê-se bem que aquilo era coisa séria. E com uma diferença em relação à Mocidade Portuguesa. É que se aderia aos Sokols de forma livre e entusiástica ao passo que à Mocidade Portuguesa por imposição. Eu nunca pertenci à Mocidade Portuguesa senão no último ano do liceu, em que fui obrigado a frequentar a chamada Milícia, sob pena de perder o ano por faltas. Mas devo dizer que gostei de ter estado esse ano na Milícia porque aquilo tinha um carácter mais militar(izado) e a conversa com o responsável (tenente Santiago Maia) derivava para coisas que pouco ou nada tinham a ver com a MP. Aprendi a marchar e a fazer manejo de arma.

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