quinta-feira, 10 de julho de 2014

[7150] - COMENTÁRIO AO POST Nº 7146...



Na minha interpretação, a Mocidade Portuguesa tinha objectivos de marcada afirmação nacionalista antes de qualquer “intuito colonial”. O que se poderá dizer é que este último, quanto muito, viria por arrasto.
É preciso contextualizar o momento em que é criada a Mocidade Portuguesa. Aparece numa altura em que despontam na Europa os movimentos nacionalistas de índole fascista e nacional-socialista, e precisamente quando Salazar lança na terra as sementes do Estado Novo, que é, por toda a sua enformação doutrinária, um Estado de intenção, não diria fascista, com a carga excessiva que o termo pode conter, mas fascizante. E qual é a diferença? Direi que a diferença existiria no grau e no modo materializados entre dois pólos. Num, estaria Salazar e a sua sagacidade mas também o tempero de uma certa moderação que de algum modo espelhava a idiossincrasia portuguesa. Noutro, estaria Francisco Rolão Preto e a sua admiração pela Itália fascista e pela Alemanha nacional-socialista, ainda que seja bastante controverso o pensamento de Rolão Preto. A verdade é que Salazar o exilou por causa dos seus excessos, talvez por temer que o “nacional-sindicalismo” proclamado por Rolão Preto fosse evoluir para realidades extremistas similares às que levou à desgraça a Alemanha e a Itália.
Contudo, é um facto que a Mocidade Portuguesa tinha na sua génese os mesmos elementos de inspiração ideológica que caracterizavam a Juventude Hitleriana e a sua congénere italiana. Basta reler as afirmações dos seus fundadores, como Marcelo Caetano. Uns dirão que tudo resultava da sedução por fórmulas políticas em voga que se propunham como única solução depois do estrondoso falhanço da I República (democracia parlamentar). Outros sentenciarão sem apelo nem agravo a ditadura salazarista e todas as suas criações como a PIDE, a Legião Portuguesa e até a Mocidade Portuguesa, embora nesta a inocência juvenil dos seus membros pudesse ser o que mais aflorava na espuma da sua existência.
Em contraponto, os Sokols eram uma organização eminentemente cívica, sem qualquer intenção política, qualquer que fosse o horizonte dos seus objectivos. Diria que se nasceu em S. Vicente é porque na ilha havia um caldo de cultura, a que não era estranha a influência estrangeira, que tornou propícia a sua criação e a sua projecção no espaço do território. Não creio que por trás da organização houvesse qualquer intenção de “reivindicar o reconhecimento do crioulo como “civilizado”, digno de participar do Império português nos mesmos patamares que aqueles nascidos na metrópole”. Prefiro pensar que tudo nasceu da espontaneidade e do espírito que caracterizou o mindelense na primeira década do século XX. Mas, enfim, todas as interpretações são aceites.
 
Adriano Miranda Lima

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