sábado, 12 de julho de 2014

[7162] - ECOS VALIOSOS ...

...SOBRE O POST Nº 7157, DEDICADO A
ANTÓNIO AURÉLIO GONÇALVES...

Adriano Miranda Lina
 
Aurélio Gonçalves é daqueles mestres que nos marcam para sempre. Uma recordação para mim inolvidável reporta-se a uma aula de História dada por ele num daqueles dias ventosos que às vezes aconteciam por alturas de Fevereiro e Março. Lembro-me de que era sobre o Império Bizantino. As palavras saiam-lhe com uma fluência serena e compassada, livres de qualquer esquema prévio de lição, parecendo que transcendiam os limites do próprio programa oficial. Tinham a arte de nos colocar dentro dos palácios de mármore onde se congeminavam as intrigas e traições, ou na garupa dos cavalos das hordas invasoras. O vento uivava nas frinchas das janelas e confundia-se com o sopro da própria História que ele nos relatava com os seus olhos tipicamente semicerrados, como se fosse um feiticeiro a decifrar os signos que regem as nossas vidas desde tempos imemoriais.
Diferente de Baltasar Lopes, outro mestre inesquecível, Aurélio Gonçalves tinha a virtude de não pressionar o aluno, desmistificando o ar demasiado solene da aula, com isso libertando a mente do aluno que quisesse também desprender-se da página fria da lição.
Releio com alguma frequência os seus livros, porque com eles me sinto inteiramente devolvido às peculiaridades do Mindelo e das suas gentes. Impossível esquecer nhô Roque. Que privilégio tê-lo tido como mestre!
 

Ondina Ferreira
 
Com efeito, ler Aurélio Gonçalves é mergulhar na vida e nos destinos de mulheres de um tempo, de uma ilha particular e bem retratada, a ilha de S. Vicente, ou melhor dito, de uma cidade e dos seus arredores, Mindelo. Cidade portuária, cosmpolita, em que as tentações citadinas, mas também a miséria urbana por vezes andaram de mãos dadas. De facto, através das personagens femininas que o autor eternizou numa galeria novelísitca, o neo-realismo e o fantástico cruzam-se, interlaçam-se de uma forma que o leitor maravilhado não lhes reconhece fronteiras. Elas, "nha Ludovina, Joana, Xandinha" e muitas outras, são retratadas com uma verosimilhança que só mesmo a pena de um grande escritor como Aurélio Gonçalves pôde captar-lhes a alma...
...oooOooo...

A Gerência agradece a estes dois distintos plumitivos a admirável colaboração...

 

 

3 comentários:

  1. Bom seria que mais intervenções houvesse sempre que evocadas pessoas da estirpe de um Aurélio Gonçalves, de um Baltasar Lopes, de um Adriano Duarte Silva e de tantos outros que constituíram a plêiade de notáveis que fazem o orgulho de Cabo Verde.

    ResponderEliminar
  2. E, se outros motivos não houvesse para deles se falar, bastaria a necessidade de preservar a sua memória...É um dever daqueles que, de uma forma ou de outra, com eles conviveram, e já serão bem poucos...

    ResponderEliminar
  3. Passar e não dar uma palavrinha de apreço não é correcto mas paradoxalmente hà vezes em que eu prefiro calar e saborear a riqueza de uma escrita ou a oportunidade de certas publicações. Por este aqui, por exemplo, passei mais de uma vez procurando com curiosidade as reacções, pois o texto fala de um grande Professor (que foi meu), da insigne escrita de um grande amigo e... com a intervenção de uma pessoa (Ondina Ferreira) que lamento nunca ter tido o prazer de dizer pessoalmente "a senhora é bodona".
    Por isso tudo obrigado ao AcA.

    ResponderEliminar