sexta-feira, 15 de agosto de 2014

[7282] - POEIRA DOS TEMPOS...


S. VICENTE -- O MONOPÓLIO DO CARVÃO…
(excerto)

A “ROCEGA”

” Há, porém, outro monopólio que o Governo da Colónia entregou aos inglezes. Parece-me ser injusto e ilegal. Desde que começou a vender em S. Vicente, há muitíssimos anos, criou-se uma pequena indústria conhecida por “ROCEGA”, tendo os indivíduos, que se entregavam a esse mister, adquirido pequenos botes e s utensílios necessários com que pescavam o carvão que caía ao mar, quando era metido a bordo dos vapores.
Pois, os monopolistas conseguiram, não sei com que fundamento, que o Governo da Colónia proibisse a “rocega” àqueles que exerciam, havia muitos anos, dando direito exclusivo aos inglezes!
Porventura o fundo do Porto Grande de S. Vicente pertence aos inglezes? O fundo do porto de uma terra portuguesa? Então nesse fundo não podem os humildes portugueses pescar carvão?
Em que Lei se fundaram para tirar os portugueses o direito que têm?
Chamo a atenção do Governador de Cabo Verde e do Ministro das Colónias, porque essa resolução teve a antipática consequência de deixar sem pão umas poucas de famílias.
Creio que a ansia de ser agradável aos inglezes não deixou que meditassem na ilegalidade cometida, porque afigura-se-me que não podia dar o exclusivo do fundo de um porto.
Os botes, que pertenciam à “ROCEGA”, ficam agora nas praias até que deles se faça lenha para substituir o carvão que antes pescavam, e os respectivos donos e suas famílias, em casa, entregues à miséria!
Consta que um homem chamado Martinho que vivia da rocega, teve um desânimo que está de cama e à morte…
Agora vejam os leitores este belo porto, colocado justamente no centro do caminho da Europa, América do Sul e África… Diga se não é um autêntico crime continuar-se deixá-lo desamparado à mercê dos interesses das três casas carvoeiras que constituem em um insofismável monopólio? 
Não, não pode ser!...
O Governo Português não pode, não deve, de sacrificar o seu povo; nem o Governo Inglês, correcto e humanitário como é, exige da sua Aliada o martírio de uma ilha e consequentes reflexos sobre um Arquipélago inteiro, desde que se compromete de que não é justo nem digno proteger três monopolistas em detrimento de uma população de 160.000 almas.
Em tempos, que já lá vão, a média diária era de dez vapores, muitos deles com bastantes passageiros, enquanto que os de agora nenhum é de passageiros!
Assim, pois, novamente me ofereço o todo o nacional ou estrangeiro que queira estabelecer depósitos de carvão e óleos, para, sem interesse algum para mim, indicar muitos terrenos que existem, para esse fim, e tratar junto do Governo Português, da respectiva concessão.
Quem quiser procurar-me, pode faze-lo no Palácio do Congresso da República, em Lisboa, para onde vou partir este mês.
S. Vicente, 18 de Junho de 1925
AUGUSTO VERA CRUZ
Senador por Cabo Verde
…………………………………….

REPOUSO DOS BOTES

Os botes são os restos postergados
Da faina tumultuosa de outros tempos.
Sobram, avulsos, ensimesmados,
Na vasta enseada materna
Onde encalham sonhos.
Uns insepultos , não desesperam
De uma anunciada ressurreição.
Outros, mais desatinados contra o destino,
Aguardam o som do apito longínquo,
Já refeitos do eco enganoso do mar,
Para rumarem ao costado da fortuna.
O lume que alimenta seu sonho
Crepita entre destroços queimados
Da resignação da última espera.

Adriano Miranda Lima

Pesquisa de A.Mendes




5 comentários:

  1. Bela adenda do coronel ao texto do senador que pode ser lido integralmente no Pd'B, em
    http://mindelosempre.blogspot.pt/2014/07/0956-ainda-o-senador-vera-cruz.html

    Braça senatorial,
    Djack

    ResponderEliminar
  2. Boas fotos, porque raras, referentes ao carvão e à pequena linha de caminho-de-ferro que existiu na cidade para facilitar a chegada e escoamento da "pedra" negra.

    Braça com a cara suja de escuro,
    Djack

    ResponderEliminar
  3. Poeira de carvão, restos de carvão no fundo do mar, homens que sobrevivem rocegando-os. Tão pouca coisa para a pobreza e mesmo assim cortam-lhe essa minguada possibilidade.
    Agradeço a lembrança do poema e só peço correcção da gralha em "aguardam" e "custado".

    ResponderEliminar
  4. Como se diz:-- Este texto é um excerto d'uma crónica alargada do Senador, contra o monopólio do "comercio" de carvão das três companhias inglesas instaladas em CV... O Senador defendia a tese de que as "ditas cujas" intencional ou não, foram as "culpadas" do declínio do Porto Grande, dado que elas começaram a comercializar o carvão e oleos mais baratos nos portos de Dacar e Canarias, não obstante o PG oferecer muito melhores condições de ancoradouro e de rota...

    Peço desculpas ao Poeta pelas gralhas...

    Por justiça e obrigação, cumpre-me informar, que as fotos e o poema foram recolhidas de uma das excelentes crónicas crioulas do Zezin Figueira, esta precisamente sobre o tema "Rocega".

    Mantenha

    ResponderEliminar
  5. As tomadas de posição sobre estes e outros assuntos que diziam respeito os interesses de Cabo Verde e da sua humilde população da parte do Senador Vera- Cruz foram extremamente corajosas o que demonstram o perfil deste grande caboverdiano exímio defensor dos interesses da sua terra, atitude similar tomada por Adriano Duarte Silva décadas mais. Estes homens têm que ser um dia convenientemente dignificados pois a realidade vem demonstrar contrariamente aquilo que o discurso oficial pretende sempre houve em Cabo Verde pessoas a defender os interesses desta terra . José F Lopes

    ResponderEliminar