sexta-feira, 10 de outubro de 2014

[7514] - MINDELO: ENTRE A FICÇÃO E A REALIDADE - (4)...

 
O direito a folgar e a ser livre
 
Se, de uma maneira geral, o povo cabo-verdiano é um povo alegre que gosta de festas e se entrega à dança com paixão, em Mindelo adquiriu este povo alma de cigarra que não cuida da chegada do inverno nem precisa de lições de moral das formigas laboriosas e previdentes pois assume inteiramente que “Nôs vida é ganhá, gastá / Sem pensá na dia de amanhã”. Albert Picquié, que ao serviço da marinha francesa aportou a estas ilhas por volta de 1881, escreveu que “os cabo-verdianos são indolentes, doces, pacíficos, sem preocupações, vivendo sob o lema: “Para hoje há, para amanhã Deus dará” e acrescentou que “esta preguiça optimista é o seu estado predilecto.”17
 Em Virgens Loucas de António Aurélio Gonçalves o comerciante Léla de Memente invectiva as jovens que vão comprar petróleo a desoras com a desculpa de que o dinheiro era pouco. “toda a gente sabe que coisa é essa de dinheirinho que é pouco. Mas quando é para um piquenique na Matiota ou para um bailinho no Morrinho-de-Cavalo… ele é pouco, mas ele sempre aparece. Domingas, como das outras vezes, foi a mais pronta a advogar a sua causa:
- A gente tem de fugir à tristeza da vida. Você compreende nhô Léla . Você quer que a gente morra mais depressa, sempre metida com as preocupações? Hom’! Uma vivente há-de tomar uma coisinha de ar de quando em quando. Uma pessoa há-de folgar.”18
 É ainda António Aurélio Gonçalves que, em Pródiga, ilustra bem este apelo profundo pela vida de cigarra, descuidada, e alegre. Xandinha entre a miséria de um quartinho de terra batida, coberto de telha de madeira esburacada mas com uma “Vida de pândega, de mornas ao violão, de fome,…mas também,… deliberdade.” e a casa da mãe, com uma “vida de humildade, de obediência” garantia dos poucos tostões de cada dia, sabe que mais tarde ou mais cedo terá que ceder ao apelo da liberdade 19.
 O povo, constituído por carregadores, catraeiros, serventes, pequenos artífices, cicerones, prostitutas, etc. não vivia na cidade mas sim em pequenos povoados periféricos que com o tempo se transformaram em bairros de Mindelo. Com as companhias carvoeiras, tinham os trabalhadores braçais um vínculo laboral precário, pelo que era com muita dificuldade, que conseguiam garantir a única refeição quente diária, o jantar. Quem de facto lhes garantia o sustento eram os vapores que chegavam ao porto. Do estado nunca receberam nada e as companhias para as quais trabalhavam, às vezes durante anos e anos, viravam-lhes as costas em tempos de crise. A sobrevivência sempre lhes veio de fora, do imprevisível curso da história e da chegada dos navios. Escreve Manuel Lopes em Galo Cantou na Baía: “… é o porto e não o Governo quem sustenta a pobreza desta ilha” 20.
 Há, talvez por isso, neste povo, uma saudável e altiva insubmissão relativamente ao poder, sem agressividade, mas com humor e ironia. E não resisto a ilustrar esta afirmação com um episódio do livro de Teixeira de Sousa, Capitão de Mar e Terra. Conta ele que na sequência de um levantamento popular numa das muitas crises que esta cidade viveu, foi decretado o estado de sítio e proibida a circulação de pessoas a partir das nove da noite com excepção de funcionários e trabalhadores do porto e das mulheres que, de latas à cabeça, iam fazer despejos no caisinho, pois ainda não havia rede de esgotos. Todos eles teriam que ter um salvo-conduto. “Houve apenas um incidente, ocorrido com Nhá Constançona. Ela não trazia salvo-conduto mas trazia uma lata à cabeça. Foi interceptada por um guarda da Segurança Pública, que lhe exigiu o papel.
 - Qual papel?
 - Papel para andar na rua a estas horas.
 - Desde quando é preciso passaporte para carregar merda?
 O agente acompanhou-a ao caisinho para despejar o conteúdo da lata… e levou-a para a esquadra.”21
 De acordo com Germano Almeida “este povo, mais inconsciente que conscientemente, aprendeu à sua custa que o amanhã ou não lhe pertence ou pode ser bem pior que o hoje … é esse desencanto na esperança de uma vida de felicidade que faz do homem de S. Vicente um ser livre quase até à soberba, que aprendeu a viver de expedientes diversos, quer seja do jogo, quer seja do empréstimo, quer das pequenas trapaças que lhe vão garantindo o dia-a-dia.”22
 

 
- CONTINUA -
 

3 comentários:

  1. Lendo esta “ continuação”, vejo que me antecipei quando fiz, no post anterior sobre este tema, comentários sobre a natureza folgazã e imprevidente do homem do Mindelo. Aurélio Gonçalves, Manuel Lopes e Teixeira de Sousa, nas passagens aqui transcritas de obras suas, ilustram bem o perfil psicológico do nosso homem, pelo que pouco mais se me oferece agora.
    Nasci e criei-me na “tchom de Soncent”, onde vivi até ao fim da adolescência. Posso dizer que as minhas vivências sociais no Mindelo foram poucas e esparsas, sem projecção exterior, mas no entanto muito sentidas no plano interior. Tanto que passados mais de cinquenta anos, é como se o meu coração não tivesse saído da ilha. Portanto, conheço e percebo bem o imaginário do homem da minha ilha, o que não quer dizer que aprove a sua imprevidência perante a vida, esse modo de ser que é deixar-se ir alegremente no caudal da vida. A vida também precisa disso, é certo, mas ela não é só isso. E por assim ser é que eu e outros temos tentado espicaçar a nossa gente no sentido de ela sair da sua letargia cívica. Não encher as ruas só quando há festivais de música ou cavala, mas enchê-las na plenitude quando há que fazer chegar a voz do povo aos palácios do poder ou às urnas dos actos eleitorais.

    ResponderEliminar
  2. A natureza humana em toda a plenitude da sua capacidade de dar a volta ao destino, nem que seja por breves instantes...Depôz de sabe, morrê câ nada!!!

    ResponderEliminar
  3. Embora concorde com o que escreveu Adriano Lima, sobre o défice real de alor cívico da nossa gente para coisas importantes e fundamentais que comandam a vida; embora concordando, não deixei de soltar uma boa gargalhada ao recordar (lendo)esta passagem do diálogo da "Nhá Constançona" e o agente policial! Bem apanhado! E muito mindelense! Ah! Ah! Ah! ...
    Abraços

    ResponderEliminar