domingo, 12 de outubro de 2014

[7518] - MINDELO: FICÇÃO E REALIDADE - (5)...



O valor da cultura e do ensino

Apesar da fome e da insegurança que nunca deixaram de acompanhar a vida destas gentes, sempre valorizaram de forma extraordinária a escola e a instrução o que é uma característica que, vinda do séc. XIX, atravessa todo o séc. XX e chega aos nossos dias. É evidente que tal se deve ao facto de ser através dos estudos que se consegue um emprego capaz de garantir a subsistência a cada final de mês e a promoção na escala social. Mas também é verdade que não se trata apenas de atingir o bem-estar económico e social, pois o enriquecimento através do comércio ou da emigração, sendo um caminho possível, habitual e muito apetecido pelos filhos das ilhas, não é tão valorizado como o caminho da instrução. Há algo mais, que Mesquitela Lima, num estudo sobre Sérgio Frusoni realça: “A maior parte do mindelense, mesmo o menos dotado, tem o culto da cultura, conhece os seus poetas e escritores, cita os seus nomes, possivelmente sem os ter lido. As salas de conferências enchem-se e nelas vê-se muito pé-descalço. Nos bailes nacionais de Bia de Djacó ou de João Tolentino, há indivíduos que fazem discursos com pretensões eruditas, o mesmo sucedendo em certos clubes populares como o Castilho, o Derby e Amarante”23.
Desde os últimos anos do séc. XIX que, nesta cidade, se criaram associações recreativas e culturais onde as elites conseguiam acesso a livros e revistas mas também organizavam récitas, espectáculos teatrais e musicais, bailes e festas. O povo, embora tivesse as suas festas populares, trazidas de todo o arquipélago, não estava completamente afastado da vida cultural da cidade. Pires Laranjeira refere que os muitos jornais e revistas culturais cabo-verdianos que com grande irregularidade circularam em Mindelo no séc. XIX e XX, não eram com certeza lidos por toda a população, mas o eco das lutas políticas e culturais que os atravessaram chegou sem dúvida a todos os cantos desta pequena cidade, e os cidadãos e intelectuais que neles mais colaboraram eram de todos conhecidos. O facto de aqui se encontrarem as maiores empresas e casas comerciais do arquipélago, bem como importantes serviços administrativos e o Liceu, atraiu a esta ilha um número significativo de quadros que naturalmente propiciaram uma vida cultural excepcionalmente rica.
Sem dúvida que primeiro o Seminário-Liceu de S. Nicolau e, a partir de 1917, o Liceu de Mindelo, contribuíram para reforçar esta extraordinária apetência pelo estudo e pela cultura. Ao abrirem as suas portas a filhos de famílias modestas, sem posses para custearem estudos em Portugal, e a mestiços, (o que só veio a acontecer nas outras colónias muito mais tarde, pois os liceus destinavam-se aos filhos dos colonos) permitiram que um grande número de naturais destas ilhas estudasse e ocupasse postos importantes na administração e no comércio, conduzindo assim a uma certa democratização da sociedade.
Nos anos 20 e 30 do século passado, dão-se em Cabo Verde profundas mudanças sociais e económicas. A crise interna na agricultura, a grande crise económica mundial dos anos trinta e a consequente diminuição de movimento no Porto Grande faz com que as famílias brancas mais ricas percam poder económico e acabem por emigrar para a metrópole, procurando empregos compatíveis com a sua situação social. De acordo com as estatísticas oficiais da época, o número de brancos em Cabo Verde aumenta de 1900 até finais da década de trinta, tendo atingido então o número máximo de 5.580, e a partir daí começa a decrescer ao contrário do que acontece com o número de mestiços que aumentam regularmente24. Como já tínhamos visto, a instalação do liceu em Mindelo, em 1917, permitiu que os filhos e filhas de gente modesta e de poucas posses, independentemente da cor da pele, pudessem fazer estudos secundários. Este facto, aliado à saída das famílias brancas, permitiu uma ascenção dos mulatos tanto no campo económico, como cultural e social e se os preconceitos sociais não deixaram de existir, pelo menos os preconceitos raciais atenuaram-se substancialmente.
Mesquitela Lima caracteriza assim a sociedade mindelense da primeira metade do séc. XX: uma elite formada por médicos, advogados, comerciantes e proprietários abastados, funcionários e quadros superiores, ingleses e oficiais do Exército português que eram membros do Grémio, o clube mais importante e exclusivo da cidade. Havia depois um grupo mais modesto formado por pequenos comerciantes, mestres artífices, empregados de boas firmas, pequenos funcionários que frequentavam o Rádio-Club e finalmente havia o povo. O espaço urbano que estas classes podiam ocupar estava perfeitamente delimitado e definido só se misturando em ocasiões ou festas especiais. Aparentemente, e segundo o mesmo autor, esta separação era perfeitamente aceite, pelo menos sem contestações visíveis. Emblemático desta situação era o passeio na Praça Nova em que a elite se sentava nos bancos ou no quiosque, a classe modesta passeava na parte superior da praça e o povo limitava-se a circular no passeio que a circundava.
No pós-guerra acentua-se o declínio do Porto Grande. Aumenta o recrutamento de mão-de-obra para S. Tomé e Príncipe. A emigração será a solução para o desemprego e diminuição da actividade agrícola, provocada por ciclos de seca cada vez mais prolongados. Calcula-se que só entre 1940 e início dos anos setenta, tenham emigrado mais de 200.000 cabo-verdianos. Em 1958 as companhias carvoeiras abandonam definitivamente S. Vicente, deixando um grande número de funcionários administrativos no desemprego. A telegrafia sem fios faz diminuir o interesse por S. Vicente e, em consequência, as actividades do telégrafo inglês começam a diminuir até ao encerramento definitivo em 1973-74.
Apesar das companhias inglesas terem tentado acompanhar a evolução tecnológica em termos de navegação, tendo a Miller & Cory , logo em 1919, e de seguida a Shell, instalado depósitos de óleos o facto é que a inexistência de um cais acostável, que só veio a ser inaugurado em 1961, foi determinante na perda de competitividade com os outros portos da região. Se estes e outros investimentos, feitos já depois da independência, impediram o descalabro total do Porto Grande não conseguiram restituir-lhe a importância de outros tempos.
 ...Continua...

1 comentário:

  1. Enfim, Mindelo foi o centro da inteligência e da cultura cabo-verdiana e hoje está como está para gáudio dos que apostaram na criação de um Estado etnocêntrico e tudo vão fazendo para apagar da memória o que devia orgulhar todo o país.

    ResponderEliminar