quarta-feira, 15 de outubro de 2014

[7523] - MINDELO: ENTRE A FICÇÃO E REALIDADE - (6)...

 
 
 
 
A nostalgia do Mindelo dourado

 É este Mindelo em profunda crise, que sonha com o regresso de um passado de bem-estar e riqueza, que encontramos em muitas mornas e coladeiras e em praticamente toda a literatura cabo-verdiana. De acordo com Manuel Lopes, em 1936, com a revista Claridade, nasceu uma “literatura de expressão ou motivos caboverdianos …que exprime a sensibilidade e a idiossincrasia do povo deste arquipélago”25 pelo que, essa literatura naturalmente espelha a profunda decadência do Porto Grande. O que causa alguma estranheza é a persistente e recorrente reminiscência dum passado de grande bem-estar, riqueza e até luxo.
 Baltasar Lopes em Chiquinho, refere o tempo dos ingleses quando as libras corriam e a província vivia dos rendimentos do Porto Grande. Manuel Lopes em Galo Cantou na Baía pela boca de Jul’ Antone diz que “Não compreendia, achava esquisito, este porto sem nenhum vapor. Para que serviam os portos se não era para terem vapores dentro? Já houve tempo que não faltava dinheiro aos que viviam na ourela da baía. Tinha tanta maneira, antigamente, de um vivente viver folgado.”26
 Aurélio Gonçalves passeia numa ruela que lhe traz “à lembrança cenas de um Mindelo de há muitos anos, com um porto animado de um movimento tumultuoso, insuflando vida a uma população atarefada e variada de trabalhadores da baía, delirando em bailes a pau-e-corda, oferecendo ligações fáceis, consumindo vidas…” 27.
 Em O Meu Poeta, Germano Almeida, pela boca do secretário-narrador fala da necessidade de “perpetuar para as gerações futuras esta cidade grandiosa por onde muito dinheiro e muito luxo já correu”28.
 Teixeira de Sousa conta que “antigamente as vagonetas não paravam, nas vinte e quatro horas do dia, em qualquer das companhias abastecedoras. Bons tempos esses, que até os gatos de Manel Jon eram engordados com gemada, segundo brejeiramente se cantava.”29. Somos aqui remetidos para o texto mais emblemático e popular desta saudade dos tempos dourados de Mindelo, a morna Tempe de Caniquinha, em que Sérgio Frusoni fala da alegria e abundância em que a cidade vivia, com o porto cheio de vapores, as ruas cheias de estrangeiros e o gato de Manel Jon a ser alimentado com gemadas.
 Seriam inúmeras as citações possíveis mas curioso é que, se formos à procura desta época dourada de Mindelo, dificilmente a encontramos. Deparamo-nos sim, com uma sucessiva, e quase ininterrupta, série de crises.

4 comentários:

  1. Sublinho esta conclusão do texto: " Seriam inúmeras as citações possíveis mas curioso é que, se formos à procura desta época dourada de Mindelo, dificilmente a encontramos. Deparamo-nos sim, com uma sucessiva, e quase ininterrupta, série de crises."
    Isto é pura verdade e não sei se deve ser escamoteada com pinceladas literárias. Mesmo no auge do Porto Grande, se tempos dourados houve consistiram apenas na garantia de trabalho para os braços e no adiamento do flagelo da fome. Algum luxo ou abastança seriam naturalmente para as classes que lucravam com os grandes negócios, nomeadamente a comunidade britânica e a burguesia comercial local.
    Contudo, é extraordinário como o nosso povo se contenta com pouco, com a simples possibilidade de ter um ganha pão, por modesto e transitório que seja. A incerteza sobre o amanhã não lhe consumia o ânimo enquanto houvesse uns tostões para o grogue e a bafa e um violão para dar largas à fantasia. Eis um retrato fiel do povo cabo-verdiano, retrato que infelizmente se mantém imune à corrosão do tempo. Bom povo, sim senhor, povo de coração amigo, mas isso não chega quando os desafios da vida exigem uma atitude mais dinâmica, mais empenhada e mais participativa na resolução dos problemas colectivos.

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  2. Mindelo foi como se algo de mágico e de semblante dourado despontasse em terra inerte. E de facto não será exagerada essa ilustração fantástica se nos lembrarmos de que as ilhas, incluindo a que acolhia a capital, estavam completamente paradas no tempo, ruminando o seu atraso secular, sem nenhum vislumbre de esperança.
    Graças aos ingleses, foi S. Vicente a ilha escolhida para levar por diante os benefícios da 2ª Revolução Industrial. O proveito foi para todo o território mas o autor da transformação foi S. Vicente, que se de alguma coisa pode ufanar-se é ter dado a mão às ilhas irmãs. Mais tarde, a ilha perderia o comboio porque o governo central não apetrechou o seu porto, respondendo aos desafios da competitividade.
    No entanto, o progresso instalou-se em S. Vicente e deixou raízes profundas, com reflexo no desenvolvimento social e cultural, reafirme-se, com proveito para todo o território. De ilha desabitada, tornou-se a segunda mais povoada e a mais infraestruturada. Os alicerces que nela foram construídos jamais perderão a sua importância e serão sempre uma base para o relançamento futuro, mesmo que a política do Estado o ignore ou aponte em sentido diferente, na sua ânsia de tudo apostar na ilha da capital do país. Cabe aos mindelenses não desistir de lutar e de exigir o que lhes é devido. Não há motivo para deixarem os seus pergaminhos esquecidos no sótão das memórias.

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  3. Os mindelenses reclamam e exaltam, com razão, o importante património que a sua ilha e cidade representam tanto no plano material como imaterial, porque ambas estas suas vertentes compõem um honroso legado construído pela dinâmica natural e espontânea da sociedade civil. Não será exagero admitir que esse legado justificou plenamente que a capital do território pudesse ter sido transferida de Santiago para S. Vicente. A capital de um país resulta do cúmulo de contribuições de ordem social, económica e cultural que uma pólis oferece ao conjunto humano-geográfico a que pertence de modo a justificar a liderança político-administrativa. No século XIX, essa transferência de capital esteve alinhavada e em vias de se concretizar e só não aconteceu pela pressão da burguesia rural da ilha de Santiago. Depois, a inércia política acabou por deixar tudo como estava, apesar de dinâmicas posteriores puderem ter justificado que a questão se recolocasse. A partir do momento em que a urbe do Mindelo ganhou projecção social e importância cosmopolita, calculo o que deveria sentir o governador da colónia quando desembarcava no Mindelo vindo da Praia.
    Com a independência, houve o firme propósito de asfixiar a ilha de S. Vicente enquanto todo o Estado era concentrado na Praia, que, por efeito sinérgico, passou a absorver a maior parte do investimento do Estado e, mais tarde, privado. Consumou-se assim o que alguns consideram ser o ressarcimento político da cidade capital por um suposto privilégio que Mindelo terá tido no passado. Mas quem assim decidiu esqueceu-se de que se a cidade capital cresceu repentina e desmesuradamente foi por decisão política e não por impulso natural da História. A ilha de S. Vicente foi em grande parte obra da sociedade civil, e é por isso que na sua genética permanecem imutáveis todas as condições para o seu ressurgimento futuro, plena das suas capacidades. Além do mais, nunca se esqueça de que a democracia verdadeira só frutifica se for plantada no húmus social que resulta das iniciativas e acções entrecruzadas dos membros da sociedade civil. Portanto, há organismos sociais hibernados no chão hoje inerte do Mindelo mas que a toda a hora podem despertar. Assim queiram os filhos da cidade.

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  4. Estes 3 texto são brilhantes, como sempre nos habituou o nosso amigo Adriano. Não vou comentar mais nada pois não diria nada de novo e tudo o que podia dizer obscurecia a beleza dos textos. Eu juntava tudo e publicava. Se o amigo Adriano assim bem entender, pois uma vez< publicados, ponho depois a circular no facebook

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