quinta-feira, 16 de outubro de 2014

[7530] - MINDELO: FICÇÃO E REALIDDE...(7)

 
 
 
Crises, epidemias, fomes e desemprego

Como já foi referido, é a partir de 1840 que começa a ser significativo o número de vapores entrados, mas só em 1850 se instala um segundo depósito de carvão. Contudo, logo em 1851, há falta de trabalho devido a excesso de trabalhadores vindos das outras ilhas, o que provoca desordens e a necessidade de enviar arroz para ser distribuído entre a população. A situação foi agravada com o aparecimento de febres epidémicas e palustres que, por falta de médico e de medicamentos eram tratadas com chás, essência de terebentina, tintura de mostarda e hóstias.30
 Em 1855 houve a primeira greve em Mindelo. “os trabalhadores se recusavam ao trabalho porque não aceitavam o salário todo a dinheiro, exigindo parte em mantimentos visto que com o dinheiro os não podiam obter.”31
 Em 1856 a ilha é atingida pela epidemia de cólera que desde o ano anterior grassava no arquipélago. Cerca de metade da população morreu, pois dos 1400 habitantes restaram 705 almas. Nos anos seguintes a cidade progrediu e cresceu mas em 1864, uma grave crise alimentícia, trava de novo o seu crescimento. Em 1869 com a abertura do canal de Suez muitos barcos deixaram de cruzar estas águas.
 Entre 1875 e o fim do século, o Porto Grande viveu aquele que é considerado o seu período áureo, mas mesmo assim com grandes irregularidades no movimento de navios entrados, o que estava relacionado com as frequentes quarentenas declaradas, devido a epidemias, (só em 1888, houve por exemplo três surtos de varíola) mas sobretudo devido ao facto do preço do carvão ser mais elevado que o praticado nos portos das Canárias e Dakar. O já citado Albert Picquié, que por aqui passou cerca de 1881, considera que se o Porto Grande não se desenvolve é devido à rotina e desinteresse da administração portuguesa, pouco dada a adoptar modelos espanhóis, pelo que se tem recusado a transformá-lo em porto franco, como a Espanha fez com as Canárias em 1852.
 Em 1890 cerca de 2000 trabalhadores são despedidos pelas carvoeiras o que aliado à humilhação causada pelo ultimato inglês, que exigia a retirada imediata de uma expedição militar portuguesa de uma zona da África Oriental protegida pelos britânicos, aumenta a hostilidade e desconfiança relativamente às companhias inglesas. A situação foi agravada pela presença, durante alguns dias, do couraçado inglês Australia no Porto Grande de S. Vicente, até o governo português ter aceite o referido ultimato, facto que, felizmente, não provocou “alterações no sossego público, que apesar do descontentamento geral, pôde ser mantido”32. A crise instala-se e um ano depois, em Abril de 1891 há uma manifestação de mais de duas mil pessoas que invadem os Paços do Conselho, reclamando medidas para acabar com a fome. São abertos trabalhos públicos que consistem fundamentalmente no calcetamento de ruas. Em 1892, uma nova política de impostos e taxas e a autorização para se instalar uma companhia nacional de carvão, fazem baixar o preço deste e revertem a situação.
 Se a segunda metade do século XIX é feita de altos e baixos, a partir de 1900, ano em que há um novo pico de movimento devido à guerra com os Boers no Transval, o movimento de navios no Porto Grande entra em gradual e definitivo decréscimo. As referências a fome e crises de falta de trabalho, nas Actas da Câmara Municipal, são cada vez mais frequentes. Entre 1900-1904 há uma das piores fomes em Cabo Verde. A população reduziu-se outra vez só tendo atingido os valores de 1900 em 1909. Em 1908 aparece na Câmara, um grande número de trabalhadores do carvão a pedir trabalho. Em 1912 mais de 4000 trabalhadores ocuparam o edifício da Câmara e a Praça, devido à seca e à falta de trabalho no Porto. Em 1913 há fome. A proibição nesse ano, de entrada na América a emigrantes analfabetos, é também um duro golpe para desempregados e camponeses sem terras. Em 1914, a crise que Cabo Verde e Mindelo atravessam, é novamente objecto de debate na Câmara.
 Em Março de 1917 volta a referir-se a falta de trabalho na ilha e no mês seguinte a Câmara reúne-se em sessão extraordinária para avaliar a situação de fome. De 1920 a 24 grassa, mais uma vez, a fome em Cabo Verde. Em 1921 há nova sessão na Câmara, que praticamente é invadida pelo povo que clama fome e falta de trabalho. Em 1924 há uma greve dos trabalhadores do carvão.
 1926 é um ano de grande instabilidade social pois há população a mais em Mindelo, tanto no que se refere a emprego como no que se refere a falta de habitações e de água potável. A Associação de Socorros Mútuos dos Operários de Cabo Verde, criada em 1921, teve as suas actividades fiscalizadas e censuradas pelo facto de tentar interferir na administração das companhias de carvão e pelo facto de suprimir parte do nome apresentando-se como Associação Operária Caboverdeana.
 Em 1927 volta a aparecer nas Actas da Câmara referência a nova crise económica e financeira que a cidade atravessa. A grande depressão económica nos EUA em 1929-30, teve um impacto negativo em S. Vicente tanto pela diminuição de navios entrados, como pela diminuição de remessas dos emigrantes. Em 24 e 25 de Janeiro de 1929 houve manifestações e protestos de que resultaram alguns feridos. A Associação Operária foi considerada responsável e, em consequência, dissolvida.
 Em 1931-33 há novo período de seca em Cabo Verde. Se em Mindelo não houve falta de géneros houve sim falta de dinheiro devido ao desemprego. Abrem-se trabalhos públicos em 1934, mas são insuficientes e mal pagos. Em 7 de Junho de 1934 estala a revolta nas ruas de Mindelo. Um grupo de operários sai de Monte Sossego e vai buscar o carpinteiro Ambrósio para chefiar a manifestação. Quando chegam ao centro da cidade já são um enorme grupo e arrombam a Alfândega e diversas casas comerciais que são saqueadas. Há um morto e vários feridos e só depois de António Augusto Martins, Baltasar Lopes da Silva e Augusto Miranda, terem usado da palavra, comprometendo-se a fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para defender a causa do povo trabalhador, a manifestação se desfaz.
 Depois de 1935 a situação melhorou, pois a conjuntura de pré-guerra que então se vivia, provocou um aumento de movimentação de navios mas, na década de quarenta, o bloqueio dos aliados e as fomes de 41/43 e 47/48 criaram grandes dificuldades. Em Mindelo as consequências destas fomes foram amortecidas pelo facto de aqui se ter vindo instalar, entre 1940-45, a Força Expedicionária Portuguesa pois o aumento do movimento de navios e o impacto, em termos de emprego, provocado pela vinda de milhares de homens, salvaram muita gente desta ilha de morrer à fome.


 Mindelo - c. 1910

2 comentários:

  1. O Ac'A ataca em força, prestes a iniciar a paragem forçada para limpeza de teias de aranha, preenchimento de fissuras de tecto e paredes e posterior pintura. Preparem-se os leitores, pois o que aí vem será de espantar. Quando surgir o novo título, com luzes de néon, a acender e a apagar, o mundo ficará boquiaberto. "Arrozc'lagosta", com um crustáceo de cada lado, será o novo nome do blogue, conforme a nossa secreta já descobriu. Sabe-se também que o novo "Arriozc'lagosta" se prepara para oferecer uma (vinda directamente da Congel que reabriu agora propositadamente para o efeito) a cada comentador que perfizer 10 comentários por semana. Claro que o pobre "Praia de Bote" nunca mais vai ter ninguém a comentar, mas que se há-de fazer? É a vida...

    Braça com lagosta suada,
    Djack

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  2. É como se disse antes: o passado da ilha é mais uma sucessão de crises do que os tão festejados tempos de "Caniquinha". Mas como a pobreza se contenta com pouco...

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