segunda-feira, 17 de novembro de 2014

[7630] - OS SOBREVIVENTES DAS ROÇAS...


A situação de precariedade por que passam muitos cabo-verdianos e seus descendentes em São Tomé e Príncipe não é uma novidadfe para as autoridades dos dois países. Nos anos 70, numa das suas primeiras deslocações a São Tomé e Príncipe, o então Presidente de Cabo Verde, Aristides Pereira, fez questão de se inteirar da vida dos cabo-verdianos que tinham sido levados como contratados para trabalhar nas roças de café e cacau naquele arquipélago. Nessa altura, Aristides Pereira encontrou um quadro difícil e tomou uma decisão: todo aquele que estivesse interessado em regressar a Cabo Verde teria o apoio financeiro do então Ministério da Saúde e dos Assuntos Sociais.
Esses cabo-verdianos viviam e ainda vivem na extrema pobreza, muitos deles doentes e idosos, sem quaisquer meios de subsistência. Nos últimos anos, o Governo do primeiro-ministro José Maria Neves atribuiu uma pensão de 50 euros a alguns deles. O próprio primeiro-ministro, numa das suas deslocações a São Tomé e Príncipe, comoveu-se durante uma visita à comunidade, o que criou um certo mal-estar entre os dois governos. Trata-se, nas palavras de José Maria Neves, de “uma matéria muito sensível”.

Comunidades isoladas

“Ainda há muita precariedade, a situação é de extrema pobreza, há situações de indignidade”, enumera o primeiro-ministro de Cabo Verde, referindo-se a algumas das situações que os investigadores cabo-verdianos Nardi Sousa e Elias Moniz encontraram em São Tomé e Príncipe.
No estudo que estão a preparar, intitulado “Direitos Humanos e Cidadania dos Imigrantes em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe: um estudo comparado (1992-2014)”, os especialistas dizem que os cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe não têm rendimento que lhes permita viver dignamente, inclusive uma nutrição equilibrada.
De acordo com o professor Nardi Sousa, o resultado da investigação demonstra que existem comunidades de cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe encravadas no meio do mato, nas roças, a maioria sem energia eléctrica, água potável ou cuidados de saúde.
“O que nos preocupa é como é que estas pessoas podem acompanhar o salto que São Tomé e Príncipe poderá vir a dar”, explica Nardi Sousa.

Governo garante solução

 Emigrantes cabo-verdianos vivem na precariedade em São Tomé e Príncipe
O investigador considera que é preciso muita inteligência por parte das autoridades de Cabo Verde para resolver o problema dos cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe, lembrando que “há pouco tempo o Governo são-tomense lançou uma campanha internacional de desenvolvimento do turismo rural, em que as antigas roças poderão vir a ser privatizadas ou concedidas para exploração do turismo”. A questão que se coloca, segundo o especialista, é “até que ponto os investidores vão assumir o problema dessas comunidades”. “Caso as instituições cabo-verdianas não ajam de forma inteligente, estas pessoas poderão ficar fora desses empreendimentos”, alerta.
Com este estudo, diz Nardi Sousa, pretende-se despoletar um debate no seio da sociedade civil, uma vez que “a questão de São Tomé e Príncipe continua ainda muito actual” e os próprios investigadores sentem “uma certa responsabilidade e preocupação”.
O objectivo já foi conseguido. O primeiro-ministro, José Maria Neves, garantiu que o seu Governo está atento à situação dos cabo-verdianos em São Tomé e Príncipe e, na medida das suas possibilidades, o Executivo vai procurar resolver os seus problemas. “É algo extraordinariamente complexo. Esta questão não foi devidamente acautelada no momento das independências. É preciso continuar a trabalhar, envolvendo os dois governos e o Governo de Portugal”, afirma José Maria Neves.
A emigração dos cabo-verdianos para São Tomé e Príncipe começou em 1903, para trabalhar como mão-de-obra nas roças são-tomenses. Não há número exacto, mas pensa-se, por exemplo, que na ilha do Príncipe 80% da população seja constituída por cabo-verdianos e seus descendentes.

Nélio dos Santos
in Deutsche Welle (Online)

4 comentários:

  1. Uma situação delicada e que exige planejamento de ações a curto e médio prazo. Os programas de cooperação internacional podem aportar recursos. Cabe um proposta/Projeto bem estrturado para captação de recursos.
    Se precisarem de mim, cá estou!

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  2. este é um assunto que devera estar na agenda de Portugal S. Tomé e Cabo Verde, de modo a encontrar um fundo para que esses cabodescendentes sejam melhor integrados em S Tomé, na medida em que se o problema estava na agenda dos negociadores da independência e foi ‘baclé’ há responsabilidades partilhadas para esta situação. Senão era tudo propaganda.

    Eu quando nasci já não havia este comercio e vou caminhar para os 60. Portanto há dois casos os que foram contratados e que já devem estar perto dos 70-80 e os seus descendentes. Quanto a estes julgo que o tratamento deverá ser diferenciado, pois já deveriam ter em S Tomé o mesmo tratamento que os santomenses e se isso não é o caso CV devia intervir. M
    Espero ter contribuído para o debate

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  3. Este é um problema que devia ter sido cabalmente resolvido durante a negociação da independência, envolvendo Portugal e os dois novos países. Não estou suficientemente informado para saber o que falhou e quem falhou, mas o que não parece admissível é o descaso em que tudo parece ter caído. Talvez certas mentes exaltadas no auge do período revolucionário tenham perdido a devida lucidez na formulação das prioridades, e as vítimas foram os coitados desses contratados, que por lá ficaram sem pátria, sem pão e sem justiça. EIS UM ASSUNTO EM QUE PORTUGAL TEM A RESPONSABILIDADE PRIMÁRIA DE DAR UM PASSO EM FRENTE.

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  4. para Nouredini
    Sobre o assunto, que lhe mereceu um comentário e oferta de ajuda, gostaria de ter, da sua parte, um texto que o Arrozcatum publicaria como "post", contendo a sua opinião profissional sobre os caminhos a seguir para conseguir que organismos internacionais possam suportar a resolução deste autentico flagelo, em que milhares de pessoas se encontram entregues a si próprias, tantos anos depois de seus antepassados recentes terem embarcado numa espécie de Eldorado com promessas que não vieram a ser cumpridas. mínimamente...Esses trabalhadores enganados eram, à data do seu contrato, cidadãos portugueses...Hoje, não se sabe o que são, por incuria de três países: Portugal, Cabo Verde e S.Tomé e Principe...Urge que se devolva a essa gente um pouco da dignidade de que foram espoliados!
    Aceite as nossas melhores saudações.
    Zito

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