sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

[7718] - CRÓNICAS DESAFORADAS...


A propósito da referencia feita no blogue "Esquina do Tempo", de Brito-Semedo,  à cerimónia do lançamento do livro de João Branco, em S. Vicente, o amigo Adriano Miranda Lima comentou:

Excelente, excelente apresentação do Brito Semedo, um cidadão igual a si próprio em tudo o que faz ou em tudo em que se posiciona ou se manifesta: senhor da verdade e do afrontamento de peito descoberto quando a vê atropelada ou mascarada, enfim, um mindelense que “não leva  desaforo para casa”, como tantas vezes no-lo tem demonstrado neste blogue. Diria que o(s) apresentador(es) não podiam ter sido mais judiciosamente  escolhidos, um e outro em sincera sintonia psicológica com o autor, esse outro mindelense,  que é um “cabo-verdiano de sinal contrário, porque era o que queria ficar apesar de poder partir”- o João Branco. 
Mesmo sem  ler ainda o livro, o prevejo excelente, porque verdadeiro e certeiro no “desaforo” das suas denúncias. Basta atentar nos pequenos excertos recortados pelo Brito Semedo para crer que as “Crónicas Desaforadas” têm de mexer com as nossas consciências adormecidas ou convenientemente anestesiadas perante certa realidade que nos devia interpelar e incomodar. É imperativo que mexam, que nos sacudam violentamente! É que estas crónicas são um alerta bem vindo e um despertador cujas cordas têm de ser continuamente rodadas para que a campainha não cesse de retinir enquanto não acordarmos da nossa letargia.  A Praça Nova, um dos excertos mencionados, é bem uma evidência, porventura a mais paradigmática, do estado de degradação da sociedade mindelense.  É uma evidência que choca mais ainda porque ela é hoje um indesejável proscénio das nossas misérias e das nossas dores quando antes o era das nossas momentâneas alegrias e presumidas vaidades. Hoje,  os mindelenses que podiam (re)agir passam e fingem que nada vêem, nada mesmo, a caminho do seu conforto doméstico, dos seus whiskeys velhos e dos seus almoços.  É esta a sociedade que nos trouxe a independência política? É para isso que tantos sonharam?
Recorto estas palavras aqui ditas: “Por alguma razão uma criatura como o João Vário faz hoje tanta falta a Cabo Verde”. Sim, o João Vário, aquele  que foi proscrito porque sentiu a tensão existencial que lhe permitia lobrigar o que os seus pares não viam, que tinha essa visão de medianeiro entre a consciência individual e a universal. Conforta-me pensar que o João Vário possa estar latente na nossa consciência e que o sinal que dão mindelenses como o João Branco, o Brito Semedo e outros possa ser o tão necessário catalisador da “revolução” que urge empreender nos espíritos das gentes da nossa querida ilha do Mindelo.

Um bem-haja  a todos!    

2 comentários:

  1. O comentário do Adriano é muito bem-vindo e oportuno, por algumas razões que passo a enumerar

    1 - Antes de mais são bem merecidas as palavras dirigidas ao meu colega e amigo Brito Semedo. As apresentações são sempre cultas, esclarecedoras e bem humoradas... ou não fosse ele bom mindelense!?
    2- Chamou a minha atenção o facto de ter recordado a propósito, o poeta João Vário. Porquê o "proscrito"? Terá sido?...
    A escrita dele, tanto a prosa como a poesia tem admiradores por estas bandas. Talvez pese nele, ou melhor, nos temas que criou, algum "desvio" criativo e inovador, de que na altura, nos cânones literários cabo-verdianos de então, não se estaria à espera?...Uma voz original? à-parte? Possivelmente Vário foi tudo isto e não deixa de ser um dos grandes poetas de sempre, da geração a que pertenceu.

    Abraços
    Ondina

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  2. Ondina, é possível que eu tenha utilizado a palavra "proscrito" algo descuidadamente. E não serei a pessoa mais indicada para me pronunciar a esse respeito por falta de conhecimento literário suficiente e mais directo. Mas o que eu quis dizer não se refere propriamente à sua criação estética mas à sua personalidade e mentalidade e no que isso possa ter colidido com o pensamento político dominante. O que é verdade é que sou um adepto da sua poesia e um admirador da pessoa.

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