terça-feira, 27 de janeiro de 2015

[7729] - SOBREVOANDO O CEPTICISMO...

PIRRO
Gosto de escrever para o meu público (cabo-verdiano) que aprecia os conteúdos da minha escrita, e tenho podido contribuir para transmitir informações pertinentes de Medicina, Política, Religião e História que promovem conhecimento e reflexão. Aprendi a pensar de forma científica, incluindo como fazê-lo relativamente à política e religião, o que não agrada a alguns poucos leitores avessos ao uso do raciocínio e do cepticismo, um tipo de pensamento que está na base do método científico.
A dúvida metódica defendida por Descartes ajuda-nos a não enfiar todos os barretes, a não ingerir gato por lebre, e é por isso que certas “verdades”, mesmo as apodícticas, ou não me impressionam ou passam ao lado. O cepticismo desafia as instituições estabelecidas, pelo que é considerado perigoso, por poder levar as pessoas a adquirirem o hábito de pensar de forma céptica, talvez a começar a fazer perguntas incómodas sobre assuntos da gestão política e pública, económicos, sociais ou religiosos, desafiando as opiniões daqueles que se encontram no poder. O mal é o cepticismo ser considerado indelicado, a Ciência aborrecida e o pensamento rigoroso enfadonho e inadequado. Realmente, um homem culto é um homem mais livre que entende que o dever de um cidadão é a sua participação na política, o que o regime político deveria promover mas o sistema eleitoral não faz nem facilita.
Em escritos publicados anteriormente debrucei-me detidamente sobre os Jónios, da Antiguidade Grega, abordando os pré-socráticos. Foram eles os primeiros, de que temos conhecimento, a afirmar, de forma sistemática, que são as leis e as forças da Natureza, e não os deuses de vários povos, os responsáveis pela ordem e mesmo pela existência do mundo. Esta abordagem dos pré-socráticos foi, mais ou menos, por volta do sec. IV a.C., abafada por Platão, Aristóteles e, seguidamente, pelos teólogos cristãos.
Em religião encontrei em Bertrand Russell o que me fazia duvidar da existência divina, que se consolidou com o andar do tempo e o conhecimento do Mito Babilónico (Enuma Elish) da criação, dos finais do terceiro milénio antes de Cristo:

Quando lá no alto ainda o céu não tinha nome,
Nem a terra firme cá em baixo nome tinha…
Nenhuma cabana de colmo havia sido entrançada
Nem pântano aparecido, 
Quando deus nenhum havia ainda sido criado,
Nem chamado pelo nome, nem o seu destino determinado,
Foi então que os deuses foram criados

O Mito Babilónico corrobora a suspeita do amigo do bispo Agostinho (futuro Santo Agostinho) que, após ter ouvido o teólogo descrever, numa roda de amigos, as fases da criação do mundo por Deus, lhe atirou a pergunta: que fazia Deus antes da criação do Universo? Entalado com a pergunta, religiosamente incorrecta, respondeu-lhe que estaria a construir o Inferno para as pessoas que faziam perguntas do tipo da feita pelo amigo…
Thomas Hobbes escreveu em Leviatã que “o medo das coisas invisíveis é a semente natural daquilo a que todos nós, no nosso íntimo, chamamos religião.”
A minha descrença na política e nos políticos é de data mais recente, com a prática destes e de alguns amigos do peito que viraram políticos e governantes. Prática mesmo ruim, viciosa, com minguada relação com os ideais defendidos. Nunca tive vocação para o exercício da política, pelo que jamais me bati por, nem aceitei cargos políticos. Para se ser político é necessário ser-se feroz, como dizia Mitterrand. A minha ferocidade é civilista e não defendo verdades. Creio que foi Gramsci – alguns atribuem isso a Lenine - quem disse que “só a verdade é revolucionária”. Um outro comunista esclarecido rectificava: “tudo depende. A verdade só é revolucionária se for a verdade do nosso partido”. Entramos, assim, na órbita da partidocracia e da metamorfose da obediência em disciplina partidária, sem nenhum respeito pela democracia defendida porque nesta não pode haver obediência, simplesmente acordo. Da disciplina, claro, somente a consentida, o que não existe em política.
Quando se envereda pela política, deixa de haver amizades, simples interesses. Conta Franco Nogueira, ministro dos negócios estrangeiros e confidente de Salazar, nas suas memórias, que, encarregado pelo ditador a uma determinada diligência negativa junto de alguém, lhe respondeu que não podia levar isso a cabo por ser amigo íntimo dessa pessoa. Atalhou-lhe Salazar que em política não havia amigos, e que ele próprio não tinha amigos, isso dito por um bodona da ronha política.
Prefiro ser cidadão interveniente e de alma aberta da sociedade civil. Isso torna-me suspeito do poder? Certamente que sim, porque ainda não se descobriu a fórmula de ser insuspeito e empenhado ao mesmo tempo.
Não participar, por exemplo, na pressão sobre o Governo para a criação de uma comissão para o estudo da descentralização e regionalização de Cabo Verde proposta, há mais de dois anos, por um grupo de individualidades nacionais, em que me incluo, virar a cara para o lado, é uma forma de cumplicidade à indiferença, prepotência e mesmo violência não física. Aceito haver gente com os nossos ideais que se cala, por receio ou medo, gerador de submissões e menoridade, em que se instalou a covardia sob a máscara de prudência, que ainda hoje está alojada na consciência das populações que saíram de largas décadas do fascismo e passaram pelo regime de partido único do Estado-Partido. Mas a geração que não viveu isso, ou viveu somente uma parte, que espera para se fazer ouvir? Preferirá receber favores, mendigar aquilo a que tem direito em vez de o exigir? Suspeito, como pediatra, que este grupo da população, independentemente da sua idade, ainda está no período juvenil, na puberdade sensual, ignorante, ociosa e na cristianíssima resignação, esta a ser contestada pelo Papa Francisco. Mas, que raio!, há que sair dele!
Como disse, venho contribuindo com algumas ideias que não contêm certezas mas propostas de abertura e diálogo entre os dirigentes políticos e elementos da sociedade civil renitente à obediência cega programada. Presumo ter alguma razão nas propostas que defendo, por vezes, com alguma ironia, a qual, para ser eficaz, envolve, por vezes, certa caricatura. A vantagem da dialéctica defendida é mostrar claramente, como escreveu o meu mestre Henrique Carmona da Mota, duas perspectivas da mesma realidade, de forma a permitir uma imagem integral da mesma.
Falando de ironia e caricatura, aflora-me à mente O Triunfo dos Porcos (Animal Farm) de George Orwell, fábula publicada em 1945, que até pode ser uma sátira mas sem visados específicos, que não perdeu actualidade. O seu alvo é a sociedade, lato sensu. Presumo que F.C Fonseca se inspirou nele, ou pelo menos pensou no seu título, ao compor Porcos em Delírio, que releio, como terapêutica, nos momentos de má disposição para temperar o humor. Revisitando a apresentação do livro pelo malogrado colega e amigo João Vário, topo com as quatro figuras do quotidiano relacional utilitário, os discutidores da merdinha enfeitada, os matadores do burrinho do bispo, os passadores de pau – que deu o título de um dos meus livros – e os carochinheiros, cujas leituras recomendo vivamente aos meus leitores como desopilantes e premonitórios políticos, por serem figuras malignas, como nos adverte o autor, que se encontram em crescente e descarada proliferação, sobretudo no topo da nossa sociedade.
Após a aposentação, a minha posição tem sido puramente intelectual, idealista, e, na minha idade, de testemunho, que há pessoas, como eu, que aceitam mal e não o escondem, este estado de coisas – a falta de diálogo e a rejeição de colaboração franca daqueles que não pertencem à mesma cor política do Governo ou não aprovam todas as nuances por que têm passado essa cor – e se disponibilizam, de certa forma, para lutar contra a corrente, por não se conformarem com uma governação que se tornou autista e discriminatória.

Lisboa, Maio de 2014                                                            Arsénio Fermino de Pina
                                                                                      (Pediatra e sócio honorário da Adeco

2 comentários:

  1. O que se passa com o Arsénio faz-me lembrar certos países africanos que, quando tomaram a independência sacrificaram os craques por serem os melhores. Hoje cito os dois primeiros sacrificados: Sir Tafeva Baleva (Nigéria) e Sylvanus Olimpyus (Daomé).
    Muitos outros Quadros mais capacitados (em qualquer matéria) que o líder apareciam e logo desapareciam misteriosamente.
    Felizmente isso não é corrente na nossa terra e o Arsénio, vivinho da costa, é um dos meus patricios contemporâneos que mais admiro e de quem falo amiúde com outro craque da pena que é o nosso comum amigo Adriano.
    Força, Arsénio !!!

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  2. Este artigo não é extenso mas é denso de ideias, conceitos e princípios, pelo que é uma das cartilhas cívicas que o amigo Arsénio nos vem pondo à disposição desde temos que já têm barba. Mas quantos patrícios tiram verdadeiro proveito disto tudo?
    Obrigado, Val, mas este teu amigo não é craque de coisa alguma, a não ser da boa vontade de ouvir e valorizar a palavra e o ensinamento de quem sabe.

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