sexta-feira, 3 de abril de 2015

[7960] - FALANDO, A GENTE SE ENTENDE...(2)

José Fortes Lopes
A Problemática da Diglossia e a fuga em frente na Oficialização do Crioulo

In AS QUESTÕES DA OFICIALIZAÇÃO DO CRIOULO E DO BILINGUISMO (2ª Parte): 

No artigo precedente (1), terminámos questionando se em 2030 os cabo-verdianos ainda se expressariam em português, a língua que, para o bem e para o mal, queira-se ou não se queira, constitui hoje, a par do Crioulo, um legado, uma herança histórica e também um património de Cabo Verde, a ser preservado e qualificado por um país que se orgulha de fazer parte da comunidade lusófona, hoje reunida na CPLP, a comunidade de povos de Língua Portuguesa. Parece-me evidente que, para os cabo-verdianos serem considerados nesta organização terão que, no mínimo, saber exprimir as suas ideias e conceitos num português fluente, pois, caso contrário, estarão ao mesmo nível linguístico do neófito membro que é a Guiné Equatorial!!

Face às ambiguidades e às contradições dos propósitos da oficialização, subsistem muitas dúvidas e incógnitas, pelo que assiste-nos o direito de exprimir as nossas reservas e preocupações, assim como manifestar as nossas dúvidas sobre o processo todo. Reconhece-se que houve um esforço de consensualização e algumas concessões, com um discurso dos proponentes da reforma (revolução) notoriamente mais aberto, menos radical: acabaram por aceitar o facto de que ambas as línguas em questão são património de Cabo Verde, o que para mim sempre foi uma evidência. Pela primeira vez, abre-se, teoricamente, a perspectiva da instauração do bilinguismo social e efectivo das duas línguas de Cabo Verde. Mesmo considerando este novo espírito de abertura, uma reforma como esta, que implica uma revolução nos espíritos das pessoas, não pode ser feita de ânimo leve, exige a clarificação dos propósitos e a transparência total do processo. Resta, todavia, saber se a mudança de discurso é puro tacticismo político.
 Antes de avançar, convinha esclarecer que não tenho nenhum interesse, profissional ou empresarial, na defesa da língua portuguesa nem em apoucar o Crioulo, a minha querida língua materna, ao não ser um fervoroso adepto da sua oficialização. Tenho simplesmente exprimido o meu direito de opinião e oposição à maneira atabalhoada como a agenda da oficialização tem sido levada a cabo, pois estou convencido de que não compete à nossa geração oficializar o Crioulo, na medida em que há ainda problemas muito graves para se resolver em Cabo Verde e não se pode onerar o erário público com mais um problema que acarreta custos que podem ser elevadíssimos para o país. Para além disso, as minhas reservas prendem-se com razões de ordem intelectual, política e metodológica relativas à gestão do processo. Por outro lado, seria o ultimo a pretender fazer lobby ou uma defesa conservadora da língua portuguesa em Cabo Verde, pois quem me conhece sabe que em matéria de língua defenderia o reforço da língua francesa e da inglesa em Cabo Verde, mas nunca em detrimento da língua portuguesa. Pois, a questão que me perpassa e me enche de perplexidade, é saber ‘por que raio’, estando o mundo dividido em áreas de influências linguísticas, anglófonas, francófonas, hispanófonas e lusófonas, se propõe Cabo Verde um retorno ao seu umbigo, o fecho no Crioulo, uma menor valência na língua portuguesa? Por que esta corrida para uma língua que nos restringe o horizonte, dos nossos literários, universitários, cientistas, leitores, comerciais, empresários, emigrantes, etc, quando o mundo caminha no sentido inverso com a globalização, onde a integração e as sinergias linguísticas são um factor decisivo, jogando um papel económico e cultural determinante? Com a língua portuguesa, falada por milhões, temos economia de escala que não temos com o Crioulo, a exposição dos cabo-verdianos ao Mundo ultrapassa a mundi-vivência do arquipélago para tomar uma outra dimensão e escala no espaço lusófono ou mesmo planetário, pelo menos potencialmente ou numa perspectiva de longo prazo com a emergência de uma classe média ou de pessoas com maior poder de compra, com mais aspiração à cultura global. É tão simples como isso, e esta é uma das  principais razões para a minha recriminação. Ou estaremos mesmo em Cabo Verde numa aposta de nacionalismo tacanho de base étnica para enganar os incautos? 

Como sabemos, em Cabo Verde, a língua portuguesa e o crioulo não gozam do mesmo estatuto. Enquanto que a primeira tem o estatuto de língua oficial, língua preferencialmente usada nas situações formais, ensinada formalmente, nas escolas, e o único meio oficial de comunicação, ela todavia não tem praticamente lugar em nenhuma circunstância do quotidiano informal cabo-verdiano. Nesta área, o crioulo desempenha o papel de língua de comunicação oral e de expressão dos afectos. Esta situação engendra aquilo que se designa cientificamente por Diglossia, situação em que a língua portuguesa em Cabo Verde é a oficial mas não é falada pela maioria das pessoas, e mesmo entre os estratos mais escolarizados o seu domínio é insuficiente. A Diglossia terá prosperado com o analfabetismo, que sempre grassou o arquipélago, num tempo em que as pessoas eram obrigadas a lidar com a língua portuguesa, sem todavia poder dominar a sua estrutura lexical nem gramatical. A situação prolongou-se e agravou-se mesmo com a independência, com o abandalhamento do sistema educativo do país, quando deixou de ser necessário exprimir-se minimamente naquela língua, tornando por isso a Diglossia num verdadeiro problema nacional: uma situação em que pessoas enfrentam dificuldades crescentes em perceber os conteúdos em língua portuguesa e em exprimirem-se correctamente nesta língua. Como actual situação de Diglossia se transformou efectivamente num problema, a que não é alheio as políticas do país, ela é uma das principais razões que fundamentam a oficialização do Crioulo. Embora esta situação linguística seja herdada de um passado em que a prática do crioulo era reprimida, hoje é um facto que se criou irresponsavelmente em Cabo Verde um complexo e um sentimento negativo em relação à língua portuguesa, tratada como língua colonial por alguns sectores radicais, apoiados pelo silêncio ou mesmo pela conivência do Sistema. O povo é mesmo incitado a não usar a língua e a rejeitá-la veementemente, como forma de mostrar reacção e resistência linguística, convencendo-o, erradamente, que lhe basta o crioulo. Esta postura oficial ou oficiosa tem efeitos psicológicos negativos, levando os cabo-verdianos a privarem-se do uso e cultivo de uma ferramenta de comunicação e de ligação ao Mundo lusófono que é útil para os seus filhos e netos.

A questão que se coloca é se o problema da Diglossia constitui condição necessária e suficiente para a implementação desta Reforma, ou se existem outras razões que não estão explicitadas. Por outro lado, a grande incógnita é saber se a dita reforma vai resolver os problemas linguísticos de Cabo Verde ou engendrar outros ainda mais graves. Para além disso, uma grande questão subsiste, que é a de se interrogar se não existem outros modelos educativos para resolver a questão da Diglossia. Pois, a meu ver, para solucionar este problema, na presente situação e contexto cabo-verdianos, teríamos que fazer opções: eliminar por completo a língua portuguesa ou a sua oficialização total. Pelo que tenho lido, parece-me que a abordagem proposta pelos oficializadores para solucionar este problema apontaria a generalização do uso do Crioulo, o que implica que a língua portuguesa em Cabo Verde terá os seus dias contados. De resto, já estaríamos nesta situação, se não fosse o ensino nas escolas, e ainda o que resta da comunicação nas rádios na televisão, onde ainda se pratica, embora timidamente, a língua portuguesa. Actualmente, o divórcio da população escolarizada, e sobretudo não escolarizada, com a língua portuguesa, que já parece tão estranha como qualquer outra língua estrangeira, é evidente, e poderá ser total num futuro próximo. Hoje em dia, uma pessoa em Cabo Verde que se exprima na língua portuguesa é   censurada sarcasticamente, mal vista, acusada de mania e de cometer um crime político de lesa-língua. São, por conseguinte, políticas irresponsáveis/incompetentes que terão condenado a população a uma situação de Diglossia aprofundada e catastrófica para justificar a marginalização programada da língua portuguesa em Cabo Verde e a passagem prematuramente aventureira ao Crioulo.

Convenhamos que só pode ignorar os factores de ordem geopolítica, que valorizam as competências plurilingues e pluriculturais, um povo convencido da sua auto-suficiência a todos os níveis e que, por isso, entende não precisar da língua dos outros. Mais ainda se certa língua lhe traz indesejáveis reminiscências “colonialistas”. Só que esta perspectiva isolacionista/nacionalista  está longe, muito longe mesmo, de dispensar a ajuda dos outros para a sobrevivência desse povo.

A língua portuguesa torna-se assim a língua das elites ‘guetizados’ nos novos “grémios” intelectuais, longe dos pés descalços. Elas exibem perante estes a sua erudição e as suas ciências, nos show-offs televisivos e das conferências, onde atestam o domínio língua portuguesa, que hipocritamente relegaram para a clandestinidade dos grémios, ao mesmo tempo que a exorcizaram do convívio dos pés descalços.
  
O bilinguismo, que nunca existiu em Cabo Verde, talvez tirando situações pontuais e localizadas, é, pois, hoje, na realidade, uma miragem, uma ficção, pois não é possível falar uma língua que não se cultiva e não se pratica. Convém realçar que a política de fecho no Crioulo, conjugado com os problemas específicos ao Ensino em Cabo Verde, já tem os seus primeiros resultados concretos com o nível avançado de degradação da língua portuguesa (e obviamente de outras disciplinas), que já atinge patamares perigosos. É por demais evidente que, hoje, os cabo-verdianos, são, no geral, os palopianos que se exprimem pior na língua de Camões, chegando à infâmia de os estudantes universitários cabo-verdianos no Brasil, e qualquer dia o será em Portugal, terem que ser submetidos a testes, provas e formações nesta língua, para a poderem dominar minimamente nos seus cursos, situação sui generis, quando se sabe que no passado os cabo-verdianos escolarizados eram dos que melhor se exprimiam nesta língua e tinham aproveitamentos acima da média. Isto é mais outro   atestado de incompetência ao actual sistema ensino cabo-verdiano. Quando em Cabo Verde a tendência é para um fraco domínio da língua portuguesa, constatamos que em sentido oposto outros países lusófonos têm adoptado políticas para a sua valorização como ferramenta operacional e de comunicação, para além de ser já o cimento da sua unidade nacional. E é um facto notório que os angolanos, os santomenses, os guineenses escolarizados parecem ter hoje um domínio bastante razoável da língua portuguesa. Se talvez tenha existido no passado alguma tensão nestes países, hoje parece não haver ostracização irresponsável da língua portuguesa, nem complexos relativos à língua oficial herança do colonialismo. A língua portuguesa foi completamente adoptada por esses países, sendo hoje tanto um património como uma ferramenta de trabalho: ela é hoje apolítica e independente do regime e da raça. Realce-se o facto de que é hoje de Angola que se defende oficialmente a língua portuguesa na sua pureza contra o atabalhoado e confuso Acordo Ortográfico.

Assim, ao mesmo tempo que o poder acena com uma nova bandeira linguística para Cabo Verde, o bilinguismo, mantém de pé todos os pressuposto da oficialização do crioulo anunciados há anos. Embora hoje mais ou menos disfarçados, subsiste a intenção de eliminar a possibilidade de um aprofundamento do bilinguismo real em Cabo Verde. O regime, com este novo discurso, fica agora colocado perante um dilema, face às expectativas muito altas criadas à sua ala radical, no ímpeto de campanhas políticas. As orientações políticas dadas pelo actual regime não enganam a ninguém, tendem para a total substituição da língua portuguesa pelo Crioulo, esvaziando totalmente o papel daquela, sem nenhuma garantia de eficácia, pois não existem condições materiais para a concretização deste desiderato nacional, havendo notoriamente pontos obscuros, dissimulações, excesso de ideologia e preconceitos. Para além disso, existem custos exorbitantes na oficialização do Crioulo (e na hipotética instauração do bilinguismo) escondidos dos cabo-verdianos. Ou será que mais uma vez estarão convencidos que a cooperação, a bondade e a caridade internacionais pagarão estes custos? Neste caso, então, tudo é possível em Cabo Verde, o céu é o limite: Boa Viagem!!! Assim, nestas condições, prometer um bilinguismo oficial em Cabo Verde, numa situação em que tudo aponta para o seu oposto, o unilinguismo, releva de uma falácia ou mesmo descarada impostura. Na vida não se pode enganar todos, todo o tempo. Mas atenção, poderemos estar a abrir a perfeita caixa de Pandora !!!! 
Março de 2015
José Fortes Lopes

1.Desmistificando as questões da oficialização do crioulo e do bilinguismo. Considerações gerais (1ª Parte).
http://noticiasdonorte.publ.cv/32049/desmistificando-as-questoes-da-oficializacao-do-crioulo-e-do-bilinguismo/#comments; http://arrozcatum.blogspot.pt/2015/03/7827-falando-gente-se-entende.html

4 comentários:

  1. De mãos dadas, vamos denunciando esta insensatez que mora na cabeça de alguns nossos patrícios. Ainda há bocado, estive a ler um projecto de diploma e dei por a imaginar como seria esse documento escrito em crioulo. Um disparate rematado que não me entra na cabeça.

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  2. Há que bater o ferro enquanto estiver quente. Não podemos cruzar os braços e ouvir baboseiras ou tolerar as brincadeiras de complexados que pretendem arranjar adeptos com exemplos nada signiificativos.
    Está sendo fomentada uma animosidade que nunca existiu na nossa terra, mesmo quando nos impediam de exprimir nos nossos falares. E muitas vezes os intransigentes acabavam por adoptar a nossa maneira de ser e de ver.
    Crioulo, sim, mas português também, cada um ocupando o lugar que sempre foi o seu desde os primórdios

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  3. Veladimir Cruz
    13:57 - 08.04.2015
    Isto da oficialização do Crioulo da maneira atabalhoada e
    tendenciosamente arrumada à maneira dalguns; vai dar problemas,
    prejudicar a própria aprendizagem.
    Em temos tive oportunidade de falar c| Manuel Veiga, ainda na posição
    de ministro da coisa... e pedi-lhe p| repensar o processo; dps, talvez
    pudesse organizar em CV um seminário onde fossem convidados vários
    linguistas. Nunca o fez, o resultado está à vista... uma enorme
    salganhada... ora, ñ é assim que se trata uma língua, ainda mais qdo
    esta é a nossa... Triste, esta gente...! Para onde foi tanto
    estudo...?
    Dia feliz
    V\\

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  4. De acordo meu caro. Tenho escrito algo sobre a matéria na mesma onda de sintonia. Os que nos contestam estão dessintonizados. Tu e o Adriano Lima têm contribuído com bons argumentos, os tais argumentos incontestáveis.

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