sábado, 25 de abril de 2015

[8063] - POEIRA DOS TEMPOS...

MIGUEL DA CONCEIÇÃO MOTA CARMO
O Homem, o Militar e o Administrador

CAPÍTULO IV

A têmpera realizadora do Mota Carmo

Considero muito elucidativa a entrevista relatada no capítulo anterior. Ela fornece-nos matéria para muitas ilações. Desde logo, ressalta o perfil do Administrador, mostrando-o preparado e capacitado em todos os sentidos para o desempenho das suas funções. Por outro lado, denuncia a mentalidade da sociedade local. Mas sobretudo não posso deixar de relacionar esta assinalável e louvável sensibilidade social de Mota Carmo com os factos que justificaram um louvor que lhe foi atribuído enquanto jovem alferes em serviço na GNR. O louvor, concedido pelo Comando Geral da GNR, reza o seguinte: “Louvado pelo altruísmo, generosidade e nobre intenção que demonstrou, fazendo reverter a favor de uma instituição de caridade e das praças da secção sob o seu comando, a parte da multa de 4.320$00 que num processo de açambarcamento lhe competia, gesto que lhe conquistou simpatias e homenagens da população do concelho, traduzindo-se em elevação do prestígio da corporação da GNR”. Não é despropositado referir que o jovem Mota Carmo não seria certamente pessoa abastada que pudesse prescindir de mão beijada de uma importância que àquela data era sem dúvida considerável. Com semelhante gesto, deu efectivamente provas de ser possuidor de um espírito generoso e desprendido. 
Dois anos mais tarde, voltaria a ser louvado por similar gesto, mas em que dessa feita põe em evidência o seu espírito de decisão, arrojo e destemor. Foi quando lavrou um violento incêndio na casa das máquinas de uma fábrica de descasque de arroz em Lisboa. Agiu de imediato e conduziu a acção de combate ao incêndio com tanta energia e eficácia que conseguiu dominá-lo e evitar a destruição do edifício da fábrica. 
Ora, perante estas duas situações tem de se concluir que, desde cedo, o jovem alferes Mota Carmo mostrou atributos de generosidade, solidariedade e empenho pelo bem público. Pergunte-se, por isso, se a obra de assistência que ele promoveu em S. Vicente não confirma em alto grau um fundo humanista que o marcaria indelevelmente, ainda que isso pudesse ser, em alguns casos, contraditado por aspectos controversos do seu carácter. 
A infra-estrutura de caridade construída por Mota Carmo perdurou pelo tempo fora e tornar-se-ia mais tarde o “Centro Juvenil Nhô Djunga” ou “Orfanato Nhô Djunga”. A fotografia em baixo apresenta um aspecto parcial e central da fachada do edifício construído. A imagem é dos anos sessenta.


Nhô Djunga e rapazes acolhidos no Orfanato; foto dos anos sessenta.

Embora eu não disponha de um inventário oficial das obras realizadas pelo administrador, pude recolher através da net alguns testemunhos que permitem concluir que a administração de Mota Carmo foi profícua e realizadora. É inegável que ele impulsionou uma intensa actividade em S. Vicente.
Em 1945, foi construída a escola primária situada na zona da Praça Nova a que se deu o nome de Escola João Belo.

Escola João Belo; foto obtida há cerca de 8 anos

Repare-se que, não obstante os evidentes sinais de degradação, trata-se de uma estrutura sólida de um belo edifício dotado de boas condições para o seu fim. 
A escola primária da Chã do Cemitério (na foto seguinte) foi inaugurada no ano a seguir ao termo das funções de Mota Carmo, mas ela foi projectada e iniciada no seu tempo e fez parte do mesmo plano de melhoria das infra-estruturas escolares promovido pelo Governo da Colónia e executado por Mota Carmo.

 Escola Primária da Chã do Cemitério, inaugurada em 1951; Foto de Maria Catela, Junho 2010, publicada no blogue Esquina do tempo.

O Administrador mandou construir um pequeno cais que ficava no trajecto entre a Oficina da Pontinha e a Lajinha. Desconheço qual era a finalidade concreta desse cais, mas talvez tivesse uma utilização relacionada com as Oficinas Mecânicas da Pontinha (Escola de Artes e Ofícios, dirigida pelo célebre Cunco), situadas na sua proximidade, e também com o apoio complementar à actividade portuária. Esse cais foi demolido no âmbito das obras de transformação da marginal e hoje quase ninguém já se recorda sua existência. A foto seguinte mostra um aspecto da sua estrutura de betão e piso de madeira, vendo-se ao fundo, à direita, o navio Madalan, um belo veleiro que tinha casco de ferro e fazia viagens transatlânticas. Mais à esquerda, e relativamente recuado, vê-se um veleiro de 3 mastros que parece ser o Senhor das Areias.

O antigo  Cais de Mota Carmo

Pela sua importância como testemunho da vox publica, transcrevo aqui uma intervenção do Sr. Marcos Soares, postada no blogue Praia de Bote em 20 de Outubro, a propósito de um tema nele abordado: 
“O capitão Mota, como administrador da Ilha de São Vicente, não foi no meu tempo, mas por residir numa zona onde ele mandou construir algumas infra-estruturas, tenho conhecimento, através das populações da zona, de alguns episódios com ele relacionados. Por exemplo, mandava para cadeia as moças com vestidos acima do joelho. Teve uns quantos amantes e alguns filhos mas cuidava deles.
Lembro-me do Orfanato de Mota Carmo, onde é hoje o Lar Nhô Djunga frente ao antigo campo de jogo da fontinha, hoje Estádio Adérito Sena.
Mandou construir alguns Diques de correcção torrencial, alguns com 100 metros de comprimento, na zona que vai da Rotunda da Ribeira Bote, passando pela ribeirinha, até perto do areia de Salamansa.
Foi graças a essas infra-estruturas que nasceu a tão conhecida Ribeira de Paul em São Vicente. Quem não recorda da Morna "Ribeira de Paul é um paraíso, sala de visita de Mindelo"?
Dizem as pessoas mais antigas que sempre que chovia alguns daqueles Diques rebentavam devido a força das águas, e ele, Mota Carmo, ao fazer o reconhecimento e avaliar os estragos, comentava que tinha muita confiança no Dique numero 9 pois, dizia ele, que era o mais resistente de todos. Até que um dia veio uma chuvada daquelas de transbordar os actuais diques, e levou todo o Paraíso da Ribeira para o mar. Dizem os mais velhos, que naquele dia não foi só verduras que foram para o mar; também a água invadiu casas, lojas, e até gavetas com dinheiro foram sair no mar do Praia de Bote.”
Por este relato, o Sr. Marcos Soares presta um importante depoimento, confirmado por outras fontes, em como Mota Carmo terá sido o primeiro administrador a mandar construir diques em S. Vicente para retenção das águas torrenciais provenientes das chuvas intensas que de vez em quando desabam nas nossas ilhas. A sua finalidade era não só evitar a afluência das águas às zonas baixas da cidade como também prover o seu aproveitamento para fins agrícolas. Daí a tal zona a que ele se refere chamada “Ribeira do Paul” e que terá resultado do efeito benéfico dos referidos diques. Suponho que existem ainda vestígios desses diques.
Da entrevista dada por Mota Carmo constam ainda os trabalhos de remodelação da pista de aviação e a construção de um “hangar”.
É voz corrente que o Administrador Mota Carmo procurava nada deixar ao acaso e intervinha em tudo o que no seu entender contribuía para a melhoria da cidade do Mindelo, por vezes entrando em colisão com hábitos e costumes populares e despertando reacções adversas. 
Por exemplo, entendeu que devia proibir os tambores das festas de S. João e, quem sabe, também a dança do Colá Sanjon, cujo movimento ritmado de colar as ancas sugere algo de manifestamente erótico. Desconheço se ele levou avante o seu desígnio, mas admito que não. Reafirma-se o que anteriormente se disse sobre a  hipocrisia de uma certa moralidade católica a querer impor-se sobre os costumes ancestrais das populações. Era sem dúvida um erro crasso querer anular, se é que o propósito fosse mesmo esse, um ritual profano que estava enraizado nos costumes cabo-verdianos.

Adriano Miranda Lima

(Continua)

6 comentários:

  1. Se bem me recordo, julgo que o "Cais de Mota Carmo" se destinava à descarga de combustiveis e outros produtos perigosos, longe da zona urbana do cais da Alfandega, por exemplo...Quanto ao 3 mastros que se avista lá ao fundo da foto, creio ser, efectivamente, o "Senhor das Areias" de tão boa memória, pois foi com ele que visitei, pela primeira vez, S.Nicolau, Sal e Brava!

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  2. Meus caros, há uma pequena confusão pois a foto da escola João Belo não é minha. As que tirei, duas ou três, são de 1999, há 16 anos. Portanto, peço que tirem dali o meu nome, não vá o verdadeiro autor zangar-se comigo e chamar-me usurpador, sem eu ter culpa nenhuma. Ou ainda por cima meter-me um processo em tribunal, eu ir preso e acabar-se o "Praia de Bote", maior tragédia de todos os tempos para a dita praia e para os ditos botes.

    Braça não plagiadora,
    Djack

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  3. Já agora... as fotos que eu tirei mostravam este belo edifício num estado muito superior de conservação. Na altura desta que aqui vemos, já ele estava nas últimas e suponho que abandonado. Lembro-me de ter visto esta e outras imagens da escola João Belo (dita da Praça Nova) há poucos anos (antes da recuperação que está a ser ou já foi feita) mas não sei quem foi o seu autor.

    Braça desconhecedora,
    Djack

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  4. Como se pode calcular, o grande Capitão (em ambos os sentidos) não era homem de "Tude pa Tchom" mas de levantar edificios no lugar que dirigia. Com dois gritos ele metia quaisquer fundamentalistas no devido lugar e se o desrespeitassem iam para o Fortim, de onde ele ia buscar os presos para trabalhar para dar a sua contribuição nas obras. Nem todos aceitavam este procedimento "de mà conotação" mas penso que os reclusos também podiam dar o seu contributo.

    V/

    P.S. - Aproveito para dizer aqui que, na maioria das vezes, sirvo-me do que ainda me resta de memôria para comentar e que agradeço a quem souber do contràrio.

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  5. Nunca é tarde para se reabilitar o nome de um obreiro. Apesar do seu propalado autoritarismo, o Administrador, Capitão Mota Carmo construiu obras de grande significado para a cidade do Mindelo e para a ilha de S. Vicente. O texto bem fundamentado do amigo Adriano, traz ao leitor a prova disso. Aprecio o reconhecimento e a separação " do trigo, do joio" e ser possível dar, "o seu a seu dono". Assim é que deve ser feita a História. Afinal , Mota Carmo é um nome que figura entre os construtores da bela cidade do Mindelo.
    Abraços
    Ondina

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