terça-feira, 28 de abril de 2015

[8078] - POEIRA DOS TEMPOS...

MIGUEL DA CONCEIÇÃO MOTA CARMO
O Homem, o Militar e o Administrador

CAPÍTULO VII

Louvores e condecorações

O oficial do Exército Miguel da Conceição Mota Carmo, ao longo de mais de 40 anos de serviço, recebeu inúmeros louvores e condecorações militares (sendo um de uma entidade civil) que atestam o seu mérito e os serviços prestados ao Exército e à Nação.
Louvores:
Ao todo, recebeu 20 louvores, conferidos por entidades de grau e categoria hierárquica distintos, e 6 condecorações de natureza diferenciada, umas mais directamente ligadas à rotina do seu desempenho como militar e outras, sobretudo as últimas, revestindo uma distinção mais elevada e particularizada.
Os dois primeiros louvores que Mota Carmo recebeu, respectivamente em 1921 e 1923, foram concedidos pela hierarquia da Guarda Nacional Republicana (GNR) e era ele ainda um jovem alferes. O primeiro louvor enaltece o seu espírito altruísta e generoso quando prescindiu de uma avultada importância em dinheiro, a que tinha direito, para a doar a uma instituição de assistência e aos homens que comandava. O segundo louvor enaltece o seu espírito de decisão, de terminação e coragem ao comandar o combate a um violento incêndio deflagrado na casa das máquinas de uma fábrica, ameaçando propagar-se e destruir o edifício.
Além desses, mais 5 louvores recebeu durante o tempo em que serviu na GNR, durante cerca de 20 anos. Esses 5 louvores atestam as suas qualidades de comando, de energia, de lealdade, de coragem e de determinação, que pôs em evidência no exercício das funções que sucessivamente lhe foram sendo atribuídas na Companhia a que pertencia.
Em 1940, estando já colocado na Escola Prática de Infantaria, e já capitão, é louvado pela Direcção da Arma de Infantaria em virtude da forma valiosa como participou na resolução de inúmeros problemas tendentes à melhoria dos cursos ministrados naquela Escola.
Em 1942, sendo Comandante da 1ª Companhia de Atiradores do Batalhão de Infantaria 15 sedeada em S. Antão, é louvado pelo seu Comandante de Batalhão pela forma resoluta e determinada como exerceu o seu comando, apesar de este lhe ter sido interrompido, dado que foi requisitado pelo Ministério das Colónias e mandado apresentar em S. Vicente. 
Em 1949, no termo das suas funções de administrador, é louvado pelo Governador da Colónia de Cabo Verde, “por ter desempenhado durante mais de seis anos as funções de administrador de concelho, comissário da polícia, delegado das Obras Públicas e Delegado da SAGA, sempre com invulgar competência e dedicação pelo serviço e….. (não é legível o que se segue porque é manuscrito) ”. 
Em 1952, é louvado pelo General Governador Militar de Lisboa “pela relevante colaboração que, desde o início, prestou na organização dos Serviços de Segurança relacionados com a Reunião do Conselho do Pacto do Atlântico em Lisboa, e, ainda, pela forma inteligente e criteriosa com que chefiou uma das Secções daquela Organização, não se poupando a esforços para assegurar o bom êxito das missões delicadas e difíceis que lhe foram confiadas, confirmando assim plenamente o conceito em que é tido no Governo Militar de Lisboa. Oficial invulgarmente desembaraçado, com muito bom senso e dotado de alto sentido do dever”.
De 1953 a 1961, este o ano em que cessa a fase activa da vida militar, recebe 9 sucessivos louvores a atestar as suas qualidades militares, postas em evidência como Subdirector do Campo de Tiro da Serra da Carregueira e, na parte final, como Director. Estes louvores foram concedidos quer pela sua hierarquia do canal de comando, o General Governador Militar de Lisboa, quer pela sua hierarquia do canal técnico, o General Director da Arma de Infantaria, quer ainda, e já no fim, pelo Ministro da Defesa nacional. Todos esses louvores se referem, em grau crescente de apreciação dos seus atributos militares, a uma acção tida como altamente valiosa seja no comando no Campo de Tiro da Serra da Carregueira, seja como Inspector e Coordenador de Segurança dos Estabelecimentos Militares da área do Governo Militar de Lisboa, seja ainda na organização de Campeonatos de Tiro Nacional envolvendo todos os ramos das Forças Armadas, designadamente, o Exército, a Marinha e a Força Aérea. 

Condecorações:
−Medalha de Dedicação da Cruz Vermelha (esta medalha lhe foi concedida pela disponibilidade e voluntariedade com que colaborou com esta Organização);
 −Medalha de Prata de Comportamento Exemplar (é uma medalha atribuída após algum tempo de serviço com bom comportamento militar e depois de um certo número de louvores concedidos);
−Medalha de Assiduidade de Segurança Pública (é do âmbito da GNR);
−Condecoração com o Grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Avis;
−Condecoração com o Grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Cristo;
−Medalha de Ouro de Comportamento Exemplar (semelhante à de Prata mas com mais tempo de serviço e resultante de louvores mais expressivos);
−Medalha de Prata de Serviços Distintos (este é o mais alto galardão militar que lhe foi atribuído e aconteceu no fim da sua carreira). 

Meu comentário: 
Os louvores e as condecorações que Mota Carmo recebeu atestam a sua valia como oficial do Exército. No seu conjunto, situam-no algo acima da média e o retratam como um oficial que não se limitou a gerir a rotina normal da sua vida profissional, como alguns fazem. Com efeito, demonstrou, na prática e na continuidade da sua carreira, e desde cedo, uma aptidão natural para a profissão militar. As suas qualidades de comando, de energia moral, de determinação, abnegação e dedicação ao serviço, aliadas à generosidade e altruísmo que também demonstrou, são os aspectos mais realçados nos louvores atribuídos. Reafirme-se que o primeiro louvor atribuído a Mota Carmo, enquanto alferes e ao serviço da Guarda Nacional Republicana, teve como finalidade reconhecer e enaltecer a exemplaridade da sua conduta ao prescindir de uma avultada gratificação monetária para a ofertar a uma instituição de assistência social. A grandiosidade deste gesto é reveladora do coração sensível que pulsava no interior deste homem corpulento e de semblante duro.  É o mesmo coração que o haveria de  guiar quando, mais tarde, em S. Vicente de Cabo Verde, moveu mundos e fundos para criar uma obra social na ilha. Esta marca da sua humanidade é tão evidente que não pode deixar de ser lembrada e sublinhada se se quiser fazer um julgamento da personalidade e do carácter do Mota Carmo e tiverem de entrar no prato da balança alguns aspectos menores do seu carácter. 

Adriano Miranda Lima

- Continua -

1 comentário:

  1. MOTA CARMO: O imaginário mindelense popular em torno do Mito Mota Carmo.
    Como se forjou o mito Mota Carmo?
    Como é que o homem que não estava por meias medidas quanto às leis, à disciplina e à moral, quase militares daqueles tempos, tornou-se no Mindelo liberal, anglófilo (uma ilha inundada de ingleses que até podiam fazer a chuva), no terror, no Papão da burguesia mindelense e de alguma população mais ou menos inclinada à 'desbunda'. Uma coisa é certa Mota Carmo entrou em rota de colisão com o meio mindelense, por alguma incompreensão mútua, incompatibilidades culturais com alguns meios desta ilha não muito dados à ortodoxias, ou mesmo pela natureza da formação rígida como militar que ele era!!! Esta é talvez a razão da caída num certo esquecimento deste homem que deixou obra na ilha, um nome que talvez injustamente acabou usado sempre no sentido pejorativo. Não é de estranhar que em 30 anos, até à sua morte nunca mais pisou o solo de S. Vicente.
    Adriano Miranda Lima diz e bem:
    'Todas as figuras públicas estão sujeitas ao escrutínio popular, em grau variável com a natureza das suas personalidades ou com o tipo das suas lideranças. Não raro, surgem rumores, boatos e por vezes invenções puras e simples, dando razão a este aforismo: “ quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto”. É neste húmus que nasce e cresce o anedotário.....'

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