quarta-feira, 11 de novembro de 2015

[8638] - É TEMPO DE ÁGUA-PÉ...


ÁGUA-PÉ - O CHAMPANHE DO POVO

A água-pé é uma bebida feita de uvas, tal como o vinho, segundo me parece, mais utilizada na região centro de Portugal. Na Bufarda ainda considerada região saloia (circundante de Lisboa) dizia-se, com certa verdade, que era o verdadeiro champanhe do povo.
Talvez consiga evocar um pouco a bebida, já que ajudei a fabricá-la na adolescência. No fundo era um vinho mais fraco e sendo mais barato, era o que os patrões utilizavam para dar aos trabalhadores durante o dia, pelo menos no Inverno, porque depois ia torna-se menos convidativa.
Em Lisboa, pelo S. Martinho, toda a gente gostava (ou gosta) de comprar a sua água-pé, para acompanhar as castanhas em muitas casas, no tempo vendiam-na avulso. No entanto nunca me seduzia, porque lhe era atribuído o mesmo preço do vinho, por vezes mais, quando no fundo se adquiria pura e simplesmente um vinho misturado com água.
Também havia quem comprasse umas uvas, esmagando-as em casa num simples alguidar, em seguida deitava o líquido num recipiente próprio, acabava encher de água, deixava ferver e pronto... proclamava ter uma boa água-pé... pois até passava dos dez graus!...
Mas uma vez mais, vinho e água! Ora fazer vinho e depois deitar-lhe água, nunca dá água-pé de jeito, por muito forte que saia.
A verdadeira bebida, que toma a designação, não deve ser feita de vinho mas sim de uva. Procede-se assim: Espreme-se o pé feito do fruto da videira. Por cálculo, saindo o mosto para fazer o vinho. Desmancha-se o pé, espalhando-o por todo o lagar, deita-se a água e em seguida, pisa-se tudo e deixa-se a macerar por cerca de duas horas. 
Então, abre-se a bica e enquanto vai escorrendo para o líquido para o tanque, ergue-se toda a massa debaixo da prensa e espreme-se tudo até ao fim. 
É assim que resulta o tal “champanhe”.
Que me lembre, já o meu avô produzia uma água-pé de estalar e a do meu pai não lhe ficaria atrás, até parecia ter um gasoso, um sabor do outro mundo. Com piquinhos e tudo.
Estando com a mão na massa, convém dizer que o bagaço, ficando lavado, no fundo era disso que se tratava, já não dava para fazer aguardente bagaceira.
Também do mosto, fervido numa panela, resultava num néctar a que se dava o nome de arrobe, para utilizar na culinária.
Do mesmo também e podia fazer vinho abafado, chamado assim pelo facto de consistir na simplicidade, de não o deixar ferver, abafando-o com álcool vinícola. De imediato fica feita uma bebida melosa. No Oeste usava-se o método, com fins apenas de renovar a garrafeira da casa.
Diga-se que a venda da água-pé, ao público era e creio que ainda é proibida por lei. No tempo da outra "senhora", um dia ouvi pedir um café frio. Questionado o pai sobre o assunto, disse a razão ser simples: quando havia alguém desconhecido por perto pedia-se assim, para evitar complicações, o que era logo entendido.
Isto vem a propósito de ser este mês, o de ir tratando de produzir o apreciado néctar.

Daniel Costa - Nov. 2009
(Blog Daniel-Milagre)

4 comentários:

  1. Na década de 80 era ainda vendida a copo, mas ...

    No largo do Carmo (Lisboa), onde trabalhei com meu irmão, numa loja dos Srs Leão e Moreira, no dia de S. Martinho era deitado ao ar um "morteiro", anunciando a abertura dos pipos. O lugar era pejado de tascas...
    Como na realidade era proibida a venda, a estratégia era comprar um pratinho com meia dúzia de tremoços, e o taberneiro magnânimo oferecia a água pé! Era forma de enganar os chuis... Embora, eles também fossem uns grandes apreciadores de tremoços!

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  2. Estas castanhinhas com água-pé devem saber muito bem

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  3. Nunca bebi água-pé mas deve ser melhor que grogue de carrapato ou qualquer outra bebida com misturas assassinas.
    Bem, não me importo que fiquem com o vinho mas dêem-me as castanhas. Fico contente

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  4. Val, neste ano um tio da minha ofereceu-me um garrafão de água-pé e só te digo que aquilo era de estalo.

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