terça-feira, 24 de novembro de 2015

[8678] - EUGÉNIO E O FADO...

“TEATRO AFRICANO”
O “FADO”

“As duas récitas levadas, nas semanas passadas, pelos quatro actores que se desligaram da Companhia Vellezz, proporcionaram ao público desta cidade duas noites agradáveis. Além de pequenas e engraçadas comédias, interpretadas com gosto, recitaram poesias, monólogos, com muita corecção, pelos actores e pelos amadores, como os snrs. Ezequiel de Figueiredo e Bonaparte Menezes.
Este último e o snr. António Campos, em ambas as noites, nos deliciaram com canções e fadinhos cantados com muito sentimento.
O snr. Bonaparte de Menezes canta com uma natural ternura, com uma infinita suavidade.
Parece que não canta para agradar ao público; mas sim para exprimir sentimentos íntimos. 
Convence-nos que está sentindo o que dizem os versos; identifica-se com a letra; e a música sai-lhe como uma expressão de sentir próprio. As toadas de um desfalecimento suave, acompanhadas como que em surdida, a guitarra e violão pelos snrs. Ezequiel e Filinto, pensamos que não seriam facilmente excedidas em sentimento, mesmo por mestres.
Ai de nós! O fado tão malicioso, tão triste, tão enternecedor; o fado esse filtro que fez adormecer a rude energia portuguesa, amolentou e debilitou o nervo do valor lusitano, é uma espécie de canto de sereia, que fez brotar do tronco de Nunoalvares o junco do Vimioso, e as rasteiras criptogramas, estéreis e moles, do faditismo… 
O Fado nascido numa taverna, inspirado nos olhos das Severas comovidas de amor e vinho, é a origem dessa sifilização moral que, em certa época, fez da mocidade portuguesa, uma ala de estropiados D. Joões mascarados e melancólicos.
Os descendentes dos heróis lusitanos, para empunhar a guitarra, desafivelavam a espada, e muitas vezes a desempenhavam; para cantar o fado, esqueceram a virilidade das vozes que se fizeram ouvir em Ourique ou em Aljubarrota; e os seus olhos obumbrados de lágrimas, pela morte das severas escalavradas, perderam a visão do caminho do futuro.
E no entretanto, o fado, esse veneno subtil, que eu desadoro porque é uma arma homicida, mas que comove, mas que me faz sonhar sonhos arroxeados como a visão de uma saudade, é tão doce! É tão comovedor! E o Bonaparte canta-o tão bem!
EUGÉNIO TAVARES
Praia, Novembro de 1913

(E-mail A.Mendes)

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