domingo, 29 de novembro de 2015

[8701] - MORNA VERSUS FADO...


Há dias, no "post" Nº 8678, recordamos palavras de Eugénio Tavares respingadas da imprensa de Novembro de 1913, acerca do Fado...
No dia seguinte, alguém que se identificava como "M.P.", respondia ao poeta nos seguintes termos e no mesmo jornal:

A MORNA…

“ Em Cabo Verde, podemos, mesmo dizer que há, entre outras, duas coisas essencialmente boas: - O olhar das jovens crioulas que o sabem ser deveras e a Morna por elas cantada ao som de uma rabeca.
É um encanto, como aliás não deixava de ser qualquer música boa, quando bem executada, embora haja quem diga que não é música a Morna, e embora também não falte que desdenha dos nossos rabequistas….
Mas… deixá-los falar, os técnicos. O sentimento não se amolda a regras e praxes, puramente convencionais por vezes.
Muitos com ouvido capaz de sentir se cantam a nosso favor neste ponto.
Quantos, artistas pelo coração, não terão ouvido com enlevo as nossas rabecas e as vozes das nossas afamadas cantadeiras?
Ouvi-las é às vezes uma verdadeira delícia…
Aqueles suaves acordes entram-nos pelo coração dentro como se fossem uma finíssima lâmina de marfim machetada a oiro e como ferindo-o no mais fundo amago da sua sensibilidade.
Ouvindo-as, como que se nos gasta deliciosamente aquele órgão, o centro de todas as emoções da alma.
A pouco e pouco se apoderam dos nossos sentidos, embriagando-nos como se fora um vinho capitoso e exercendo sobre eles uma acção comparável à do ópio, com efeitos correspondentes…. Como nos fazem sonhar acordados. Temos então visões verdadeiramente fantásticas, e nosso espirito, por momentos embalado no regaço da ilusão, parece transportar-se a ignotas regiões astrais! ….
Não se descrevem emoções destas. E supondo que nesse instante nos envolve a alma, como aveludado manto de luar, o curioso olhar de alguma vestal…

A nossa alma então
Semelha um passarinho
À procura do ninho
Dentro do Coração
….
Não se descrevem, emoções tais; são intraduzíveis com a saudade, esse doce amargo punjar que na música encontra o seu mais fiel interprete .
E de saudade parece realmente ser, às vezes, aquele fugitivo perfume com que se evola de acordes bem combinados.
E o Sr. Eugénio Tavares a falar-nos de fado!... Tem razão o poeta, mas não valia a pena:
Pois se por cá temos coisa melhor…
M.P. 

Vadias - Estudos de Pedro Gregório

(E-mail A,Mendes)




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