quinta-feira, 17 de março de 2016

[9017] - CONTOS SINGELOS...

Rua Direito-Nova Sintra-Brava-Cabo Verde

CONTOS SINGELOS
DE
Guilherme da Cunha Dantas
Ricardo Galvão

Ricardo Galvão que vimos ficar gravemente ferido pela bala da pistola sobre ele disparada por Rodolfo, a qual foi extraída do ombro com bom êxito pelo mesmo facultativo que tratara a sua premeditada vítima, não sucumbiu.
Quando o teve a salvo e restabelecido, o honrado cirurgião disse-lhe com severidade:
-- Mancebo! Hei-vos, salvo. Podia ter-vos deixado perecer, que o remorso não atormentaria a minha consciência. Expurgava a terra de mais um monstro. Mas restitui-vos a vida, e oxalá que ora avante a empregueis melhor, procurando reparar os muitos males que tendes feito. Ao contrário, quando as vossas torpes acções vos conduzirem à beira do precipício ninguém vos estenderá mão valedora, e a justiça de Deus seguirá seu curso.
Aquele homem acabava de lhe salvar a vida quase milagrosamente, empregando nisso todos os esforços da sua ciência, noites desveladas, cuidados de mãe, que infeliz e fatalmente para si, Ricardo Galvão não chegara a conhecer.
Escutou-o pois num silêncio atento, quase religioso. E quando o digno homem acabou o seu exordio, por mais empedernido que fosse o seu coração, Ricardo sentiu rebentarem-lhe dos olhos até ali impassíveis, dois rios de lágrimas que lhe inundaram o rosto e o peito. 
Escondendo o rosto entre as mãos, apenas pôde balbuciar. 
-- Oh! Sim, senhor! Emendar- me-hei! …
O honrado médico saiu dali com o coração jubiloso, crendo ter salvado não só uma vida, mas uma alma que prestes estava a abismar-se nas voragens do crime, do inferno.
Ricardo tinha caído em profunda e cruel meditação. Ante seus olhos que agora pareciam envergonhar-se de ver a luz do dia, apresentaram-se como num sonho, todas as passadas e terríveis cenas da sua vida desregrada. 
Viúvas e órfãos esbulhados do seu património, pedindo a Deus castigo contra o miserável que os deixara sem pão e sem abrigo; esposas deplorando a perda da sua honra; donzelas cujas coroas de virgem ele desfolhara a uma e uma, lançando depois as folham já ressequidas à lama de suas paixões brutais. – Tais são as negras recordações que como fantasmas aterradores se apresentaram ao seu espírito
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A FESTA DE SANTO ANTÓNIO EM ILHA BRAVA
Amanhecera esplendido o dia 13 de Junho de 1860. Parecia que a natureza, ataviando-se com as suas galas mais ricas, queria ajudar os bravenses a festejar dignamente o glorioso filho de Lisboa, o popular Santo António.
Apenas uma ligeira neblina que desde a madrugada se formara assombreava os frondosos cafeeiros e bananeiras, cujas largas folhas baloiçavam brandamente, impelidas por amena viração. Porém o sol que se levantava radiante, prometendo um dia bastante calmoso, dissipava a mesma neblina, e fazia brilhar como pérolas as cristalinas gotinhas de orvalho que tremulavam nas flores e folhas das plantas balsâmicas que circundavam algumas brancas casinhas de Pé da Rocha, e que com seus doces perfumes completavam, embriagando os sentidos, o quadro esplendido da natureza.
Em suma – estava uma bela manhã!
E não menos bela e alegre era a cena que àquela mesma hora se passava em quase toda a extensão da ilha.
 As festas dos santos – António, João e Pedro, são as mais estrondosas naquela boa terra. E sinto bastante que a muita brevidade com que escrevo me não permita fazer delas uma descrição mais sucinta aos meus leitores.
Além dos ofícios da igreja, há fogueiras, foguetes, salvas de artilharia, muitos presentes duma parte e de outra, lautos jantares em que a abundam o “xerem ” e a “batanca” (2) cavalhadas, bailes, serenatas, etc., etc., a datar de antevéspera do dia festivo.
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Ouvia-se o alegre repique dos sinos em Santana; por toda a parte se cruzavam vistosos bandos de moços e donzelas; aqueles tangendo alegremente nas suas violas, estas acompanhando-as com as suas melodiosas cantigas ao som de palmas compassadas. Todos se dirigiam a “plantar os mastros” nos pontos mais culminantes da ilha, para cujo fim e enfeites quatro possantes rapagões do bando levavam aos ombros um formidável tronco de papaieira ou de outra árvore gigantesca; e as raparigas levavam à cabeça canastras, nas quais alvas toalhas ocultavam os ananases, as bananas, as uvas, os cocos, as tâmaras e muitas outras frutas, queijos, frascos de licores, etc. que haviam de ser suspensos das vergas e cordas dos mastros, que se coroavam de alegres galhardetes.
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(1) – Milho guisado (!)
(2) – O pão-rei da festa, feito de farinha de milho mui fina com recheio de bananas cozido entre folhas de bananeiras e lume por cima.  
Voz de Cabo Verde – 1912                                                                            Continua
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