sábado, 26 de março de 2016

[9060] - SAÍR PELA PORTA PEQUENA...

Daniel Dos Santos

E agora, José?
Da leitura do resultado das eleições, importa a pergunta. E agora, José? As respostas, porque várias, dependem do olhar, da visão e da avaliação de cada um. Em 15 anos, não de partido único, de triste memória, mas, é certo, de regime democrático, fizeste história. Ou pelo mal ou pelo bem, fizeste-a. A este título, ninguém deixa de o reconhecer, por mais que ciência não tenha. Mas isso não se me afigura o mais importante.
De mansinho, em 2001, entraste pela porta grande da vida política cabo-verdiana, daquelas grandes que a História reserva apenas a alguns predestinados, iluminados. No fundo, aos eleitos da História. Cumpre dizer-te que furaste o esquema e, se pouco fosse, com promessas de «por amor à terra», ganhaste as eleições com a maioria absoluta dos votos. Levantaste o orgulho, o nacionalismo barato e bacoco de muitos que viam no slogan a oportunidade de resgatar o património empresarial do país, vendido a desbarato pelo MpD aos neocolonialistas portugueses, o qual foi, árdua e denodadamente, erguido, de sol a sol, como gostas de dizer, no consulado de partido único, dos melhores filhos.
Reergueste o moral do país, o estado de espírito da Nação, que tão baixo estava devido aos «tenebrosos anos 90» em comparação com os de ouro, de glória, da ditadura paigcviana. Qual Ernest Renan, pá! Do mesmo passo, prometeste melhorar a economia, recuperar a credibilidade e a imagem internacional do país, combater a criminalidade e, em síntese, melhorar a vida dos cabo-verdianos. Resultado, esse agora, foi pouco, muito pouco, convenhamos, mas o suficiente para que, no final, em 2006, o povo te renovasse o mandato, com mais uma maioria absoluta.
Fizeste história, de novo. Ganda José! Era o triunfo do nevismo, eras glorificado a toda hora, eras bajulado a cada momento. Por onde passavas, todos punham-se de pé, em sentido, porque dos teus poros iluminados brotavam poderes sem igual. Qual Cabral! Que messias, pá!!! A banalização de ídolos, de heróis. Em 2011, querias ir-te embora do governo. Olha até que não era má a ideia. Mas, por incrível que seja, optaste por ficar. Dizem as más-línguas da praça que a isso foste obrigado, porque muitos interesses, ainda por resolver, na altura, se achavam em jogo, diante dos quais não tiveste coragem de dizer Não. Seja como for, foste à luta e ganhaste, uma vez mais, com a maioria absoluta.
Belo, José? Três maiorias absolutas. Não está ao alcance de qualquer um consegui-las ainda que do pólo oposto tenha havido reclamações de fraude, batota, compra de consciência. A conversa de costume. Não é? Era tamanha a proeza, única ainda, fica nos anais da nossa história: três maiorias absolutas consecutivas. Nada mau, para alguém que sonhou um dia ser padre e administrador do concelho. Nada mau, sim.
Em 2011, quando, em estado de total efusão, celebravas, com os teus akólouthos, a conquista de mais uma vitória eleitoral, não imaginavas que estavas a lançar as sementes para colocar o PAICV na oposição e fazer regressar o MpD ao poder. Se o sabias, sinceramente, o desconheço, mas que é verdade é-o, verdadinha. Nessa noite de glória, por meio de aplausos, fantasias, emoção, histeria e mais não sei quê, lançaste a primeira pedra para a construção da vitória ventoinha a 20 de março. Podes não acreditar, mas, confesso-te, José, que é verdade.
E agora, José? Mandaste a Janira, a quem entregaste um partido doente, cansado, sem brilho e ainda dividido por causa das presidenciais de 2011, para o lume do qual não se saiu bem. Ela já o sabia. É inteligente, o suficiente para perceber que as coisas lhe não iriam sair bem. Perdeu. Perdeu porque, em vez de romper com o teu pesado legado, assumiu-o por cortesia e por obediência partidárias. Entre a continuidade e a ruptura, a Janira escolheu o caminho mais difícil, mas que lhe parecia mais fácil: assumir as tuas heranças. Por isso, perdeu. Agora, vai atravessar o deserto. Por quanto tempo, não sei, mas que vai, vai. O culpado da derrota tambarina não é a Janira. És tu. Foste o maior derrotado da memorável noite de 20 de março. O povo julgou os 15 anos da tua governação e, seguramente, não os poucos da Janira.
Tu, que entraste por aquela porta grande, a cujo acesso só se dão aos maiorais, tens agora que sair por uma bem pequena. Tão pequena que não me oferece dizer-te mais nada, de tão estreita que é a largura. Mesmo assim, não me furto de notar que a tua imagem é, nos presentes dias, péssima. O outrora tão poderoso José, que punha e dispunha por onde passasse, caiu, vítima das suas próprias contradições. Não percebeste o jogo a tempo de saíres em glória, de te pores a salvo das tuas próprias teias. Os teus camaradas, em nome e em proveito dos quais governaste, engoliram-te. A máquina ainda funciona.
Agora, muitas dúvidas atravessam-me. Não sei se és um activo ou um passivo. A resposta unicamente está nas tuas mãos. Se és um passivo, terás a escolher um sítio, algures no aparelho do Estado, bem aconchegado, com ar condicionado, gabinete de luxo, secretárias, guarda-costas. Ao invés, se és um activo, espero bem que o sejas, porque o país investiu em ti, muito mesmo, em 15 anos, não podes dar costas à luta. Não há desculpas, autárquicas ou outras, que te salvem de ir às presidenciais. Espero ver-te lá, porque o país não aceita que recues. É vida, José. Estamos combinados.
E agora, José?
Daniel dos Santos

1 comentário:

  1. O autor parece preocupar-se mais com os actores da nossa cena política do que com o conteúdo da peça. Mais com a cenografia do que a qualidade da obra.

    O que importa ao país o futuro do José Maria Neves? Acaso a sua pessoa detém virtudes sebastiânicas? Mal do país se se preocupa mais com os actores da política do que com as políticas concretas.

    Além do mais, não julgo que o país ganhasse alguma coisa de positivo com ele na presidência da república. Se como primeiro-ministro ainda lhe credito alguns pontos, não lhe vejo qualidades para vir a ser presidente da república.

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