terça-feira, 12 de abril de 2016

[9116] - SOBRE O CARNAVAL MINDELENSE...

 Da série: "DO BAÚ"
 Publicado em Março de 2014:

 KARNAVAL D'INTENTASON
 Part II: As Economias do Karnaval

> A marcação da viagem para este trabalho em São Vicente não foi fácil: garantir uma reserva nos TACV exigiu um esforço épico; não encontramos alojamento até ao último momento porque todos os hotéis e pensões do Mindelo estavam lotados; e não havia um serviço de rent-a-car que ainda tivesse uma viatura disponível para aluguer. Se contabilizarmos as receitas dos concertos, bailes, restaurantes, bares, discotecas, salões, comércio, e das costureiras e operários assalariados que participam na construção das fantasias e dos carros alegóricos, torna-se evidente que muitos negócios em São Vicente lucram com a indústria do Carnaval.

> Mas qual é o total do investimento neste evento? Cada escola desfila com centenas de foliões; escolas como o Samba Tropical e Os Cruzeiros do Norte são capazes de desfilar com perto de 1000 participantes. A componente mais onerosa do desfile são as fantasias e a maioria é financiada individualmente, pelos próprios foliões: uma fantasia básica custa entre 10 000 e 12 000 escudos, o valor de um salário mínimo na ilha mais desempregada do país; os trajes das figuras de destaque chegam a custar 40, 50, 100 mil escudos; os dos reis e rainhas, 300, por vezes 400 contos. Mais despesas técnicas com som, ensaios, alugueis de salas, artistas e carros alegóricos, a factura de um desfile dos grupos de primeira linha pode chegar, conservadoramente, aos 15 000 contos

> De onde saem os fundos que suportam este investimento? Façamos as contas: habitualmente, a Câmara Municipal de São Vicente apoia cada Escola com 1000 contos por ano. Este ano seis grupos beneficiam de apoio municipal: por ordem alfabética, Cruzeiros do Norte, Flores do Mindelo, Monte Sossego, Samba Tropical, Sonhos sem Limites e Vindos do Oriente. O montante é substancial para a CMSV mas, mesmo assim, o patrocínio municipal não cobre as despesas de cada grupo com os carros alegóricos. Uma Escola com muita simpatia pública, redes sociais sólidas e uma massa associativa dinâmica consegue angariar outros 3000 contos em patrocínios comerciais e receitas próprias de rifas, festas e eventos; ou seja um total, dependendo da escola, de entre 3000 e 5000 contos – para cobrir uma produção que ultrapassa os 15 000 contos.

> Cabo Verde tem um problema generalizado de crédito á economia: mesmo antes de se formalizar o impacto da crise financeira e da gestão orçamental sobre o crédito a privados, os pequenos e médios empresários nacionais queixavam-se da dificuldade extrema em financiar os seus negócios, e as maiores empresas financiavam-se lá fora. Contudo – tomando como base hipotética o orçamento de 15 000 contos por escola – a descapitalizada economia Mindelense é capaz de gerar anualmente a quantia de 90 000 para financiar o Carnaval. À exceção dos fundos públicos municipais – pois as escolas queixam-se unanimemente que o Ministério da Cultura recusa-se a reconhecer de forma concreta o Carnaval Mindelense – e de uma ou outra empresa de porte nacional, estes fundos proveem essencialmente de vontades e iniciativas privadas locais.

> Esta base popular sólida sobre a qual assenta o Carnaval merece uma atenção especial se pretendemos perceber o que move a sociedade e a economia Mindelense. Todos os Cabo-verdianos queixam-se de obstáculos incontornáveis na mobilização de capital para investir em negócios; mas a capacidade privada e associativa de mobilização de recursos para sair no Carnaval do Mindelo não tem paralelo na experiência Cabo-verdiana contemporânea. Por um lado, é legítimo questionar as prioridades sociais que estão patentes neste esforço financeiro sem retorno, numa região economicamente asfixiada; por outro lado, fica demonstrado que as economias criativas têm uma sólida base de competências no Mindelo, que engajam a vontade popular e que eventos como o Carnaval podem, de facto, tornar-se pilares da economia regional, caso consigam definir um modelo de sustentabilidade.

> No Brasil o jogo do bicho é alegadamente um dos financiadores das escolas de samba; ao Carnaval Mindelense ainda ninguém acusou de ser financiado pelo crime organizado; mas, parece haver consenso social de que grande parte do financiamento das fantasias individuais – mais uma vez, a componente mais onerosa da produção – provém da prostituição informal. O que significaria a sustentabilidade para o Carnaval Mindelense? Significaria, em primeiro lugar, que nenhum investimento individual ou coletivo no evento fosse financiado com calote, prostituição ou contravenção.

> No Rio de Janeiro, a gestão profissionalizada das Escolas impõe-lhes a sustentabilidade como objetivo. Por um lado as escolas – individualmente e através da sua Liga, que é a organização que negoceia todos os direitos conjuntos, inclusive os direitos de transmissão da Rede Globo – têm uma base sólida e previsível de fundos, próprios, públicos e comercias, que lhe permite uma gestão orçamental adequada e uma produção devidamente calendarizada. Mas é importante referir que as escolas Cariocas não se transformaram em empresas, coisa que muitas das nossas sensibilidades tradicionais resistem em fazer; elas mantêm o seu estatuto de associações de promoção cultural e social, e é enquanto tal que dialogam com os seus filiados e parceiros. A diferença é que profissionalizaram uma parte importante das suas operações para poder resistir á competição comercial que se instalou na economia do evento, e garantir a sua sustentabilidade nesse contexto.

> Pelo que observei, a componente artística das principais produções – a composição musical, o design, a confecção, direção de som, etc. – já se encontra altamente profissionalizada; mas as estruturas organizativas ainda são predominantemente voluntárias e amadoras. Algumas escolas – especificamente aquelas cujas direções têm experiência técnica nas áreas de gestão e marketing, já encaram a sustentabilidade das suas atividades como o desafio principal no upgrade da dimensão e da qualidade do Carnaval Mindelense; e chegam a explorar as oportunidades comerciais ligadas à sua imagem, marcas, etc. Mas a maioria ainda subsiste exclusivamente com donativos municipais e fundos próprios, sem buscar outras vias de sustentabilidade para a sua atividade.

> O Carnaval Mindelense veio ao mundo com financiamento privado a fundo perdido; entusiastas e foliões concebiam e financiavam os seus desfiles gratia amor et artis; e qualquer eventual apoio financeiro estava estritamente ligado às suas redes pessoais. Nesse tempo não se falava em indústrias criativas ou economias do Carnaval; e apesar de o Carnaval ter sempre movimentado pequenos negócios locais – o comércio, as confecções, as oficinas, os eventos – o fenómeno atual movimenta outra dimensão de negócios, e é justo que lhes seja imputada uma participação no seu financiamento. O que isso significaria exatamente, não sei. Fala-se de economia do Carnaval? Então qual deve ser a participação TACV, ASA, restaurantes, comerciantes e hotéis no suporte das economias criativas, nas ilhas onde são elas que suportam os seus negócios? Qual deve ser o papel dos decisores públicos na mediação desse suporte?

N.E. - Os "K" são da responsabilidade da autora! E a ausência de alguns "c", também!

2 comentários:

  1. Adoro a LUZ que briha sempre porque tem grande intensidade, mas os K's estragam tudo.

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  2. A articulista nutriu-se de boa informação para fundamentar a sua análise, como é seu hábito. Sobre isso, não há dúvida. Mas tenho uns reparos.
    Penso que ela empola demasiadamente os custos das fantasias individuais. Quero crer que em grande parte dos casos se trata mais propriamente de criatividade, imaginação, reciclagem, aproveitamento e improviso. Disse-me uma prima que no Carnaval de há dois anos os professores organizaram o seu desfile com fantasias que se inscrevem precisamente nas condições atrás referidas.
    Também, considerar que a prostituição é um dos sustentos do Carnaval é algo excessivo. Não o vejo de uma forma organizada, para justificar semelhante generalização, mas simplesmente à escala individual, em que algumas moças que normalmente se prostituem desviam parte dos seus rendimentos para custear as fantasias.
    Igualmente, não me parece ajustado dizer que o Carnaval mindelense é um "esforço financeiro sem retorno, numa região economicamente asfixiada". Então os dividendos que se colhem com o turismo que atinge pico alto nessa altura? Como é que isso não é contabilizado?
    Denuncia o que já se sabe: "o Ministério da Cultura recusa-se a reconhecer de forma concreta o Carnaval Mindelense". Não nos surpreende porque sabemos que "aquela gente" é inimiga figadal da nossa ilha e da nossa gente. Não haja receio em denunciá-lo sem rebuço. Vamos ver é se o novo governo inaugura uma atmosfera mais sadia na nossa terra.

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