terça-feira, 14 de junho de 2016

[9324] - A TRAVESSIA DO DESERTO...

SÃO VICENTE E AS REPÚBLICAS
 2001 A 2016

Como inicio, para não ser mal interpretado e conotado com bairrismo ou autismo no que toca a São Vicente, ressalvo que este texto apenas visa expor, do meu ponto de vista, como a Republica vê, qualifica e coloca São Vicente no contexto político e como os Sanvicentinenos “na descontra” deixam-se enquadrar sucumbindo, quase sempre, a outros interesses e nem sempre orientados para o bem comum…

São Vicente, provado pela história e pelo seu património é das ilhas mais importantes do arquipélago de Cabo Verde: a nível social, cultural, patrimonial, no ensino/educação, na valência económica, sobretudo ligada ao mar, no comércio, turismo, porém, todo este capital / potencial é e tem sido desvalorizado pela Republica, com destaque pela dos últimos 15 anos de governação do PAICV.

Nos últimos 15 anos o que se proporcionou, ou não, a São Vicente não possibilitou a continuidade do seu desenvolvimento, nem adianta reivindicar obras cosméticas que de valor acrescentado pouco trouxeram a ilha. Os políticos /parlamentares PAICV-SV, excepto um, preocupados com um partido, nunca com a ilha e seu eleitorado, satisfizeram-se nas vontades e realização de desejos pessoais e de camaradas passando para segundo plano os anseios dos Sanvicentinos.

A nível interno, com a Dra. Isaura Gomes, apesar das dificuldades, com a fibra que lhe é característica, SV ainda teve ganhos devido a sua pró – eficiência e amor a ilha, o que não se pode dizer do sucessor, que, não obstante ter dado continuidade a algumas boas obras projectadas, garantido o funcionamento corrente da ilha (urbanístico, saneamento e acção social), não demonstra ter visão de desenvolvimento além da caixa que lhe rodeia. Apresenta claramente limitações ao nível do pensar e ver São Vicente potenciado e desenvolvido, independentemente das condicionantes que a Republica tem colocado.

Várias vezes o actual Presidente da CMSV, assim como muitos Sanvicentinos, denominaram a nossa República como “de Santiago” pela centralização evidente e excessiva de tudo… querendo também de todos. Reconhecendo uma certa dose de razão, propiciada pela actuação, ou falta dela, dos políticos / deputados SV do PAICV nas esferas de decisão, excepto um na anterior legislatura, e actuação da governação anterior, facto é que, de São Vicente, não temos visto despoletar nenhuma figura política de peso, também condicionado pelas estruturas partidárias, capaz de se “impor” na Republica e reivindicar os apoios que a ilha merece e necessita para ajudar no desenvolvimento harmonioso do país… Com a devida vénia Onésimos e Isauras precisam-se… esperando que o centralizador se abra a este apoio de São Vicente.

Da nova República pós 20 de Março 2016, hoje assistimos a uma nova conjuntura política onde o Governo é MPD e agora os deputados da situação da ilha terão de provar que não farão o mesmo que os anteriores colegas, isto é, defenderem os interesses partidários acima do seu eleitorado e necessidades da ilha, que efectivamente “são diferentes e fazem diferente”. A ver vamos o que será de São Vicente com esta nova vaga de deputados nacionais… e este novo contexto político/governativo.

 “Djobendo pa lado”, traduzindo “Spia pa lod/banda” actualmente a República pode denominar-se de Santiago / Santo Antão – República dos grandes – Santo Antão é uma ilha politicamente muito bem posicionada e representada, tanto no anterior como actual governo, em que os seus actores políticos tem-se valorizado e apontado aos órgãos de decisão do país, o que tem contribuído e muito, para sua valorização / afirmação, tanto é que, o actual Primeiro-Ministro, a semelhança de um amigo meu de Santo Antão, parece gostar de São Vicente, mas no Cais com a cara voltada para Santo Antão. O sinal que não é auspicioso para SV é para o Norte, sem sombra de dúvidas, com Santo Antão a cabeça…Adoro a ilha e sua gente, meus vizinhos, e por gente de Soncente ser também de Sintantom não me aflige esta direcção, porém não me satisfaz de todo, não por Santo Antão obviamente, mas por achar que SV tem quadros minimamente competentes para integrarem órgãos de decisão do país. SANSÃO (Santo Antão + São Vicente) seria sempre mais forte e representativo do Norte…

Espero que São Vicente “produza” políticos com visão de desenvolvimento local, regional e nacional, com amor a ilha, com capacidade de empreender, de posicionar assertivamente nos partidos, nos fóruns políticos e na sociedade… Espero que São Vicente faça parte da República pelo valor, pelo potencial e pelo que pode ajudar no desenvolvimento equilibrado do país.

Toca-me profundamente ver o que foi São Vicente nos últimos 15 anos e ver que, apesar da ideia de regionalização do actual governo, os quadros/políticos da ilha não são valorizados pela República, temendo que o efeito dos últimos anos perdure e continue a prejudicar o desenvolvimento harmoniosos, espero estar enganado relativamente aos sinais do novo governo…

Adoro a ilha e consigo ver o seu valor e o seu potencial em todas as vertentes temendo apenas a visão política das Republicas e o pensamento comodista, “in box”, de muitos sanvicentinos… Hora de acordar o Monte Cara, se não for com a República dos actuais partidos que seja de outra forma… De todo o modo é preciso dar tempo ao temo para ver realmente o propósito e a forma de actuação da nova governação e que este desabafo ser considerado precipitado e sem fundamento no futuro próximo.

Sou um “made in SV”, que apenas saiu do país para nascer no exterior, porém, ainda no ventre, supliquei a minha mãe que queria ter o luxo de viver em SV o que, felizmente, acontece desde os dois meses de idade e “daqui não saio e daqui ninguém me tira”… a não ser temporariamente…

Mindelo, aos 16 de Maio de 2016

Nelson Faria (Notícias do Norte)

5 comentários:

  1. O Almirante, perdão, Nelson Faria põe o dedo na ferida e agradeço. Pena não ter acordado os depressivos que continuam no seu congresso por falta de cidadadania, prazer no comodismo, uma boa dose de egoismo e outra de ingratidão.
    Como o articulista, não vejo o dia da separação entre os dois Santos (Antão e Vicente) embora alguns mal intencionados o pensem sem compreender que não se pode ir contra a Natureza.

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  2. Se eu caracterizasse os mindelenses dos últimos 40 anos 'Djobi pa Lado' seria o melhor atributo

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  3. Este artigo tem interesse e merece ser lido com atenção. O que o autor diz sobre S. Antão vem entroncar no que tenho considerado uma insidiosa estratégia indirecta de separar as duas ilhas irmãs. E ele põe o dedo na ferida ao dizer que os políticos de S. Vicente não têm sido aproveitados pela República. Mas eu diria que a expressão é algo eufemística, porque na verdade os políticos de S. Vicente têm sido intencionalmente encostados ao lado.

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  4. Os politicos e as cabeças de S. Vicente, na terra, estão na sua maioria na Republica da Praia, porque nao passam de uns grandes manhentes e lambedores! Mas a ira do Monte Cara ha-de ser devastadora !

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