quarta-feira, 15 de junho de 2016

[9330] - ECONOMIA ESTAGNADA...

O país baseou-se durante vários anos no capital externo, sendo a dívida externa a maior fatia do bolo, para desenvolver o país. O foco foi sobretudo no endividamento para aproveitar a vaca gorda que os mercados estavam a oferecer

Fala-se muito no nível de desenvolvimento em Cabo Verde. Para uns foi um desenvolvimento económico conseguido sob uma gestão de impossibilidades, ou seja, foi um desenvolvimento quase que impossível de obter.

A questão que se coloca é: o que é desenvolvimento? Na verdade, um dos temas mais problemáticos na economia é justamente o desenvolvimento. Existe medida para quase tudo na economia, exceto para este indicador. O mais próximo que se consegue obter é o Índice de Desenvolvimento Humano, o dito IDH. Mesmo assim não é desenvolvimento económico. É desenvolvimento humano.

Vendo por outro lado, pode-se dizer que desenvolvimento económico é o desenvolvimento das pessoas. Pois bem. Não se discute.

Mas como este indicador pode falhar, os economistas resolveram calcular um índice que é só para aqueles que não sabem o que é desenvolvimento (será??). Na verdade calcularam dois índices. São eles, Índice da Pobreza Humana do Tipo 1 (IPH1) e do Tipo 2 (IPH2). É sempre bom confirmar que os países pobres são mesmo pobres.

Em todos estes casos o crescimento económico toma um papel essencial, mas não determinante. Antes de lá chegar, voltamos ao desenvolvimento. Este tema é tão sensível que não há meio-termo. Ou há desenvolvidos, ou há subdesenvolvidos. O problema persiste em saber onde é a linha da demarcação. Não se sabe. Como desenvolvimento é um indicador chato, quando estamos a falar da economia, vamos para o crescimento, ou melhor, o nível de rendimento. Para este, tem tantas definições de nível de país, ao gosto do freguês. De entre outras, as três que mais se destacam é a definição das Nações Unidas, do Banco Mundial e do FMI, sendo que cada uma delas difere uma da outra. Estas duas últimas são mais práticas, porque fazem a divisão por nível de rendimento.

A definição do Banco Mundial diz que existem países de rendimento baixo (Países Menos Avançados), países de rendimento médio-baixo, países de rendimento médio-alto e países de rendimento alto (países desenvolvidos). Já o FMI é mais prático. Segundo esta instituição, existem países avançados e mercados emergentes e em desenvolvimento.

Toda esta introdução serviu, antes de mais, para dizer que não existe nenhuma indicação de um nível intermédio de desenvolvimento. Portanto não existe País de Desenvolvimento Médio (PDM?). O que existe sim é o País de Rendimento Médio (PRM), do qual Cabo Verde faz parte, pertencendo à tabela inferior da classificação.

Antes de lá chegar, Cabo Verde passou um bom período, depois da sua independência, no grupo de países menos avançado. Contudo, a expetativa é grande e o foco é grupo de países de rendimento alto (em 2030, quem sabe).

Mas, até aqui, qual foi o problema? De facto houve um salto enorme no nível de Rendimento Nacional Bruto per capita. A questão que se coloca é, a troco de quê.

O país baseou-se durante vários anos no capital externo, sendo a dívida externa a maior fatia do bolo, para desenvolver o país. O foco foi sobretudo no endividamento para aproveitar a vaca gorda que os mercados estavam a oferecer.

O grande erro desta aposta foi o facto de  não se ter contabilizado o efeito nefasto que esta opção podia trazer para a economia e para o futuro do país.

Em primeiro lugar, esta medida estava sujeita ao problema do abrandamento brusco (Sudden Stop). Este problema mostra que se o foco for no uso do capital externo para fazer crescer a economia, deve-se ter um grande cuidado porque este capital pode parar de uma hora por outra e levar à crise económica. E foi o que aconteceu em Cabo Verde.

O outro problema foi acomodar-se com estes capitais e deixar de preparar a economia para ficar independente destes capitais. Ou pelo menos que tivessem menos importância na dinamização da economia.

Utilizou-se sim estes capitais para construir portos e aeroportos, pontes e barragens e estradas em circulares (sempre com grande ineficiência), mas não se focou no mais importante: A produção.

Depois da paragem brusca do capital em 2008/9 a economia cabo-verdiana nunca mais cresceu. “tuntunhou” nos um e tal por cento ao ano, até 2015. O que falhou então?

Falhou o foco para a produção interna. Falhou o foco nas exportações (incluindo o turismo). Apenas com a dinâmica da produção interna, dinamização do setor privado, se consegue dar o salto para o que se quer: o desenvolvimento económico conseguido.

Portanto, ao novo governo apenas resta saber dinamizar a economia através da orientação para a produção e consequentemente a exportação. A única forma de conseguir isso, é ter o apoio do setor privado. Para ter o apoio do setor privado, é preciso apoiar o setor privado. (O Liberal)

Gilson Pina | PhD em Economia
Professor de Economia no Instituto Superior de Ciências Jurídicas e Sociais

3 comentários:

  1. Bem, leio e fico na mesma. Se o problema do crescimento económico se resume muito simplesmente apoiando o sector privado, porque é que não se envereda por aí? Ou não se enveredou? Por birra dos governos, por preconceitos ideológicos? Claro que não. Ora, o sector privado tem de ter uma expressão minimamente significativa para poder contribuir para a economia nacional. Não parece que isso seja uma realidade em Cabo Verde. Depois, a capacidade produtiva tem de visar um determinado mercado, interno e externo, para haver retorno em todo o investimento privado que se faça. Em Cabo Verde, verifica-se que o mercado interno é muito fraco e incapaz justificar, ainda que parcialmente, um investimento produtivo que tenha real impacto no PIB. Quanto ao mercado externo, ninguém ignora os constrangimentos de um país periférico, sem matérias primas, e com escassa capacidade competitiva no mundo global. A menos que, para "apoiar o sector privado", como preconiza o articulista, se recorra a uma oferta de mão-de-obra ainda mais barata do que aquela que se pratica em alguns países asiáticos. Ou seja, Cabo Verde teria de praticar uma mão-de-obra escrava, ou quase, para poder atrair algum investimento externo. E mesmo assim, seria de contabilizar o efeito de factores pouco favoráveis ao país, relativamente aos seus concorrentes, como, por exemplo, a sua maior distância geográfica aos mercados consumidores, para não falar da insuficiência de transportes e infraestruturas portuárias e aeroportuárias, essenciais ao apoio do sistema produtivo. Tirando o sector turístico, não se vê onde poderia o sector privado transformar o panorama da economia do país.
    Portanto, não basta dizer que é preciso dinamizar a economia apoiando o sector privado. È importante explicar como e em que condições.

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  2. Pois é amigo, esse é o grande problema da política e dos políticos: todos conhecem as soluções mas ninguém sabe como lá chegar!
    A única coisa que C.V. produz em abundância é um óptimo clima, condição primeira para a exploração do turismo onde, aliás, se tem verificado o maior volume do investimento externo. Poucas coisas mais terão o condão de dinamizar a economia...

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  3. O articulista sabe de economia e eu não. Sugere que o Estado ajude o privado... mas pergunto o que é que produzimos em quantidade exportável além do turismo que se encontra sob a batuta de capitais estrangeiros e da pesca que necessita melhores cuidados.
    De uns anos trabalhando no estrangeiro em postos de observação tenho a minha opinião mas se tivesse de pedir (sugerir) seria que ajudassem a nossa pesca e estruturassem (diversificassem) a nossa agricultura e fossem mais intervenientes na indùstria hoteleira. Antes de alargarmos em considerandos (eu) penso que devíamos ocupar do turismo, da pesca e da agricultura.

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