quarta-feira, 13 de julho de 2016

[9441] - AINDA O EUROPEU - RESCALDO...


Grande projecto para o passado
Rui Cardoso Martins

O dia de hoje não é igual ao dia de ontem", disse ontem o Presidente da República Portuguesa, no Palácio de Belém.
"Hoje é feriado nacional, car...!", disse também ontem, na Alameda D. Afonso Henriques, o autor do golo mais importante de sempre do futebol nacional.
Eu estava muito bem a concordar com Marcelo Rebelo de Sousa e com Éderzito, ou Éder. Pronto para um dia de extenuada beatitude e de sopas no sofá. Preparei-me para ver a repetição do golo 50 vezes, chorar, ver outra vez, lacrimejar de novo, ver a borboleta na testa do Ronaldo (a sussurrar-lhe qualquer coisa ou a beber-lhe uma lágrima), o joelho heróico do capitão deitado na relva. Tencionava diversificar esta privada choradeira com imagens de motards na marginal de Díli, da festa na Guiné-Bissau, do ex--presidente do primeiro clube de Éder, o Adémia, a lembrar "o menino que apareceu aqui, muito franzino, num dia de muito frio", com "as perninhas da grossura dos meus braços", e que então era pago em golos-costeleta, chorar com isso, claro, e pensar nos irredutíveis emigrantes portugueses que nasceram em França. Depois, ver chegar o avião, o autocarro, a taça rebrilhante, a multidão buzinante, a pena imperial estampada na careca de Quaresma, as mãos de Rui Patrício, a profunda alegria de Nani, sem nunca deixar de parecer triste, as corridas destravadas do jovem Renato Sanches das tranças, as bandeiras da República na rua, e talvez, também sair para a festa em Lisboa. Antes disso, num gesto de desportismo iluminado, vi a gravação dos campeonatos europeus de atletismo e as medalhas de ouro das belas Sara Moreira e Patrícia Mamona, e as dos outros, e quando estava tudo a correr de acordo com este extraordinário plano de felicidade, recebi, sem mais nem menos, um telefonema do Diário de Notícias a pedir-me para entrar em campo, sem aquecer. E agora aqui estamos, a penar no prolongamento, se me estão a ler.
Sou, por assim dizer, um lamechas de cariz épico. Comove-me a coragem, o espírito de sacrifício, a força do grupo, a vitória dos pré-derrotados, a resposta digna às injustiças, é isto que me põe assim. E gosto deste fortíssimo sentimento de nacionalismo positivo: o que pode trazer a Portugal e ao mundo uma vitória como a do Euro 2016, porque os portugueses vivem em todos os mares, como as sardinhas, somos as sardinhas da humanidade.
Os franceses dizem que vão ter de digerir a derrota. Nós temos de digerir a vitória. Cada um que se amanhe, mas o resultado será de todos. Durante o jogo, domingo à noite, vivemos como nunca o extraordinário poder dramático do futebol. Vimos como Dimitri Payet, que entrou no torneio como herói salvador da França, se transformou em vilão dégoulasse e que o seu primeiro golo vale agora menos do que a terrível tesoura às pernas de Cristiano Ronaldo, ataque que o tirou do campo mas não do jogo, não do jogo, messieurs. Em minha casa, entre amigos, berrámos sobre assuntos inesquecíveis: uma traça é uma borboleta e a borboleta simboliza a renovação, a segunda oportunidade, ela tem um esqueleto externo, o poeta brasileiro Manoel de Barros fala em coisinhas como "osso de borboleta" e temos todos um osso no crânio com a forma de borboleta, um osso frontal, virado para dentro, que nos protege o cérebro e a alma: é nele que se segura a traseira dos olhos que nos fazem chorar de tristeza e de alegria.
Num gesto chauvinista e antifrancês (eu, que chorei pela França e pelos amigos franceses, neste ano de terrorismo, e fui beber uma cerveja no Le Carrillon e acho que nisto eles são uns bravos), fiz passar pela sala um exemplar em marroquim do livro El-Rey Junot, de Raul Brandão, que nos conta os delírios das invasões de Portugal, no princípio do século XIX, quando isto parecia ser tudo deles e quando ainda hoje tantos respeitam um assassino de massas, salteador sem misericórdia, Napoleão Bonaparte. Lembrámos as derrotas futebolísticas de 1984, 2000, 2006, quando a França nos eliminava e tratava a seguir como se o nosso fracasso estivesse contemplado no artigo 2 de um eterno código napoleónico.
Concluímos que dizer "quem não tem Cristiano Ronaldo caça com Éder" era uma frase estúpida, tendo em conta a qualidade extrema e sonhadora do pontapé do avançado que ninguém esperava ver ali. Gritámos à varanda o slogan mais improvável do Euro 2016: Éder, Éder, Éder!
Finalmente, agradecemos ao exasperante delay das televisões de alta definição - que já vai em quase dez segundos e com tendência para crescer... - porque assim a malta do café da frente, com tecnologia do milénio passado, avisou-nos a tempo para nos prepararmos porque íamos ser, estamos a ser, somos campeões.
Gosto muito de futebol, às vezes sem saber porquê. Também sou um optimista sem perceber porquê. Em 2004 estive na final do Euro no Estádio da Luz e tive um momento, por assim dizer, à Ronaldo, como quando ele ontem explicava a um repórter, depois da recepção presidencial em Belém, a da comenda, a do "hoje não é igual a ontem", que não podia falar à TV: "Tenho de ir à casa de banho porque estou à rasca." No princípio da segunda parte contra a Grécia, em 2004, desci à casa de banho do estádio e, olha, está a haver um bruaá no campo e acho que foi golo, mas não foi nosso, não foi nosso, que se fosse nosso isto rebentava tudo. Tivemos só explosão no fogo-de-artifício do encerramento, mas era pólvora e não alegria, e nem vi em directo as primeiras grandes lágrimas do jovem Ronaldo, estava no terceiro anel.
Noutra ocasião, assisti à vitória do Benfica por 2-0 (Simão e Miccoli) em Liverpool, quando a baliza esteve abençoada (Domingo, com Rui Patrício e o poste, também esteve). No fim, Miccoli atirou a camisola aos adeptos e dois rapazes apanharam-na ao mesmo tempo:
É minha!
É minha!
É minha!
Vamos cortá-la ao meio...
Isso nunca, fica tu com ela!
e isto não foi só um momento salomónico, foi belo e comovente, uma lição de vida.
Ontem, por acaso, uma simpática leitora lembrava na internet as ideias de uma personagem minha que tem por lema de vida "se fosse fácil era para os outros". Este rapaz-narrador, decerto cheio de problemas, desenvolve a ideia de que não é o futuro que está à nossa frente, mas o passado. O futuro está atrás da cabeça, não se vê. "Não há nenhuma seta atirada para a frente, não é assim que o tempo funciona. Projectos para o futuro? Tenho é bons projectos para o passado."
Parece que o seleccionador Fernando Santos, há mais de um mês, olhou para as suas costas e viu que só voltaria a 11 de Julho, e com o caneco na mão. Isto é um facto, não é só fé.
Já está: é passado. Custou imenso, mas foi merecido. Estou muito curioso por ver o que vamos fazer com este passado. Acho que é uma ideia com futuro.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

(Por e-mail de
Adriano M. Lima)

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