segunda-feira, 1 de agosto de 2016

[9512] - CABO VERDE - EVOLUÇÃO MUSICAL...


Na primavera de 1968 um navio cargueiro preparava-se para deixar o porto de Baltimore com um importante carregamento de instrumentos musicais. O destino final era o Rio de Janeiro, onde a Exposição EMSE (Exposição Mundial Do Som Eletrônico) ia ser realizada. 

Foi a primeira exposição do género a ter lugar no Hemisfério Sul e muitas das empresas líderes no campo da música eletrónica estavam envolvidas. Rhodes, Moog, Farfisa, Hammond e Korg, são apenas alguns exemplos citados, e todos eles estavam entusiasmados para apresentar os seus mais novos sintetizadores num crescente e promissor mercado sul-americano, liderado pelo Brasil e pela Colômbia.

O navio com a mercadoria zarpou no dia 20 março, numa manhã calma, e misteriosamente desapareceu do radar no mesmo dia.

Só podemos imaginar a surpresa dos moradores de Cachaço, na ilha de São Nicolau, Cabo Verde, quando alguns meses depois acordaram e encontraram um navio nas suas terras, no meio do nada, a 8 km de qualquer costa. Após consultarem os anciãos da aldeia, os moradores da aldeia decidiram abrir os contentores para ver o que tinham dentro. Contudo como a noticia tinha espalhado rapidamente, a policia colonial chegou e segurou a área.

Cientistas e físicos portugueses foram enviados para o local e depois de semanas de estudos intensivos e de pesquisas, concluíram que o navio tinha caído do céu. Uma das teorias mais plausíveis era que ele poderia ter caído de uma transportadora aérea militar russo. Os moradores escarneceram, mais uma vez, o governo tinha desperdiçado seu imposto num exercício inútil, visto que um simples olhar para a cratera gerada pelo impacto poderia explicar o fenômeno. Não havia necessidade de trazer cientistas da elite portuguesa para explicar isso! Eles riam.

O que os moradores não sabiam, era que havia traços de partículas cósmicas no barco. A proa do navio tinha vestígios de calor extremo, muito semelhante aos encontrados nos meteoros, sugerindo que o navio havia penetrado o hemisfério em alta velocidade. Essa teoria também não fazia sentido visto que tal impacto teria reduzido o navio a poeira. Tudo era um mistério.

Finalmente, uma equipe de soldadores chegou para abrir os contentores e toda a aldeia esperava impacientemente. A atmosfera, que era de alegria e emoção, rapidamente tronou-se em espanto. Centenas de caixas, com teclados e outros instrumentos musicais que nunca tinham visto antes: e todos inúteis em uma área sem eletricidade. A decepção era palpável. Os instrumentos foram temporariamente armazenados na igreja local e as mulheres da aldeia insistiam que encontrassem uma solução antes da missa de domingo.

Diz-se que carismático líder anticolonial, Amilcar Cabral, ordenou que os instrumentos fossem equitativamente distribuídos entre os lugares que tinham acesso a eletricidade, o que originou a que fossem levados essencialmente as escolas.

Essa distribuição foi melhor coisa que poderia ter acontecido - os teclados encontraram terreno fértil nas mãos de crianças curiosas, que nasceram com um senso inato de ritmo e que encontraram instrumentos prontos a serem usados. Este, por sua vez facilitou a modernização dos ritmos locais, como o das Mornas, das Coladeras e do estilo de música que apela à dança chamada Funana, que havia sido proibido pelos governantes coloniais portuguesas até 1975, devido à sua alta sensualidade.

Por e-mail de
Manuel M. Silva

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