segunda-feira, 22 de agosto de 2016

[9596] - A CASA DO SENADOR...



O edifício onde se encontra instalado atualmente o Centro Nacional de Artesanato e Design, possui uma história grandiosa. Foi mandado construir, por volta de 1890, pelo senador Augusto Vera-Cruz, um homem abastado, proveniente da ilha do Sal, mas que vivia em São Vicente. Como era um benfeitor e altruísta, preocupava-se muito com o povo, nomeadamente as gentes de São Vicente.

Senador Vera CruzAntes da sua morte, cedeu o palacete para que aqui se instalasse o primeiro liceu da ilha. Depois, com o aumento da população, o espaço revelou-se insuficiente e o liceu teve se ser transferido para outro local da cidade.

Nos finais da década de 30, dá lugar ao Clube Recreativo da alta sociedade mindelense, e passou a ser denominado de Grémio do Mindelo.

Durante a 2ª Guerra Mundial, a casa foi cedida, a título temporário, ao exército, transformando-se num quartel militar. Quando terminou a guerra, volta a acolher o Grémio do Mindelo, onde só se abria para sócios e para as pessoas de elite da ilha, as chamadas gentes de morada. Reuniam aqui, e aqui instalaram, nos anos 50, a Rádio Barlavento, que foi um importante veículo de comunicação para o povo são-vicentino. Muitos artistas, entre os quais a Cesária Évora, gravaram os seus primeiros discos na Rádio Barlavento.

Posteriormente, com a independência, o povo mostrou-se insatisfeito pelo facto de o espaço estar a ser utilizado apenas por um grupo de pessoas e, numa revolução popular, restituíram a Rádio Barlavento e a casa, ao povo da ilha. A Rádio Barlavento deu então lugar à Rádio Voz de São Vicente.

O primeiro ministro de então, o comandante Pedro Pires, ofereceu o espaço ao Centro Nacional das Artes onde foi ampliado por forma a realizarem-se outras atividades culturais. Criaram-se salas de desenho, de tecelagem, uma loja que vendia os produtos produzidos e onde se dava formação a novos alunos. Funcionou também como entreposto dos artesãos da ilha, onde todas as quartas e sextas-feiras, chegavam produtos do artesanato local produzidos noutros pontos de São Vicente.

Foi uma época de grande atividade, com formação profissional, simpósios onde participavam artistas de renome internacional, exposições e um espaço permanente de produção, nomeadamente de tapeçarias e tecelagem tradicional. Havia igualmente um conforto económico, pois como o Centro produzia e comercializava os seus trabalhos, as receitas eram aplicadas na expansão e no fomento da atividade. Contudo, e apesar de ser uma instituição autossustentada, com a mudança dos sucessivos governos, foi decretado o seu encerramento e o Centro Nacional das Artes viu-se privado dos seus funcionários, e acabou por definhar e se extinguir.

Após quatro anos sem qualquer atividade, o Centro reabre como Museu de Arte Tradicional, no entanto sem a pujança de outros tempos, com menos funcionários e sem produção própria.

Mais uma mudança nos membros governativos e mais uma alteração ao nome do museu, que desta feita passa a ser chamado de Casa do Senador, que embora estivesse vocacionado para as artes, perdeu o estatuto de museu.

Com a atual estrutura governativa, a casa do senador Vera-Cruz, vê ressurgir o projeto inicial e atualiza-se para acolher o Centro Nacional de Artesanato e Design, onde a par de uma mostra permanente, pretende estimular a componente de formação às novas gerações e fazer renascer o artesanato tradicional como forma de contributo para a economia nacional. (in NosGenti)
(Pesquisa de Valdemar Pereira)



N.E. - Por respeito pelo(s) autor(es) do texto acima ele está transcrito de acordo com o original sem qualquer emenda ortográfica...




2 comentários:

  1. É "A" casa e "As" casas!!! Todas as peles que já teve ficaram-lhe definitivamente coladas. Nunca deixará de ser a casa do senador, nunca deixará de ser o Liceu Infante D. Henrique, nunca deixará de ser o Grémio, nem a Rádio Barlavento nem sequer o Centro Nacional de Artesanato. É de facto "As" casas.

    Braça encostado ao coreto a olhar para ali,
    Djack

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  2. De homens como o Augusto Vera-Cruz é que Cabo Verde precisaria hoje para dar a volta ao seu destino.

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