sábado, 17 de setembro de 2016

[9683] - AS CRÓNICAS DE ARSÉNIO DE PINA...


 Conta-me como se vivia nessas épocas

II
                                                           
O meu pai partiu para Moçambique em 1948, e pouco depois a família seguiu para S. Vicente, depois de eu e o irmão Hernâni termos completado a terceira classe.

S. Vicente era um paraíso para a meninada. Morávamos no Alto de S. António, e havia um largo à frente da nossa casa onde jogávamos à bola e disputávamos jogos de futebol com rapazes de outros bairros. Sabura para nós por haver o Eden Park com filmes diversos e coboiadas, a Matiota para os banhos de mar, clubes de futebol, praticando-se também golf, box, tenis, cricket, desportos introduzidos na ilha pelos ingleses das companhias inglesas de carvão, navegação e do telégrafo, responsáveis pelo povoamento da ilha e desenvolvimento do Porto Grande como porto privilegiado de passagem e para abastecimento de combustível, água e frescos dos barcos que ligavam a Europa à África e América latina. Havia a Praça Nova com o seu coreto de música onde a meninada dançava à volta aos sábados e domingos, Ribeira de Julião cheia de verdura e de gente nos meses dos santos populares. No Café Royal actuavam regularmente os manos Djosa e Lulu Marques ao piano e as pessoas juntavam-se à porta para os ouvir. O Djosa rivalizava com Fred Astaire no sapateado. Embora o Porto Grande, com a sua bela baía, já estivesse em decadência devido à concorrência de Dakar e das Canárias que investiram na modernização e equipamento dos respectivos portos, Portugal nada fez no Porto Grande e muito tardiamente é que se lembrou de construir um cais acostável, ainda dava algum movimento à ilha permitindo a sobrevivência de alguns negociantes de bordo e comércio. Conseguia-se obter, a preços acessíveis, muitos produtos conseguidos pelos negociantes de bordo (géneros alimentícios, bebidas, aparelhagens eléctricas, etc.), o que facilitava a vida da população. Claro que já não era nada do Tempo de Canequinha, em que gote de Mané jon era ingordode na gemada, quando passavam pela Baía do Porto Grande paquetes da Mala Real Inglesa e estava repleto de outros barcos a abastecerem-se de carvão e água. Ainda passavam alguns whale boats (barcos de pesca da baleia) noruegueses, a que chamávamos velbots, cujos marinheiros davam alguma vida aos bares e lojas da cidade e visitavam o Lombo acompanhados de cicerones. A influência inglesa é ainda perceptível na cidade do Mindelo, e nunca é de mais recordar que o Porto Grande do Mindelo foi o sustentáculo financeiro e cultural de Cabo Verde, isso graças à iniciativa dos ingleses de aí terem criado um entreposto de carvão para abastecimento da navegação marítima, com oficinas de reparação e formação de pessoal, agências marítimas, consulado, etc., que favoreceram a constituição de sindicatos e garantiram a melhoria de vida dos trabalhadores. Mantem-se ainda alguns hábitos introduzidos pelos ingleses, como o uso de calções e sapatos de ténis, um certo fair play do Mindelense, o gin tonic religiosamente a certas horas e o whisky a baixo preço, além dos desportos citados que tiveram grandes praticantes nacionais. 
A alimentação não variava muito da de S. Nicolau, embora com menos fruta e mais vezes à base de peixe frito, caldo de peixe, pão, pon de midge, por vezes corned beef e carne do Norte dos velbots. Cozinhava-se com carvão de pedra (de Nhô Casse – New Castle – e Cardif) em fogões improvisados feitos com latas vazias de petróleo.
A juventude dedicava-se bastante aos desportos; devido à influência do cinema, imitava os penteados e atitudes dos sports. Os namoricos eram platónicos do tipo gargarejo de janela, nos bailes em que as moças eram acompanhadas de tias, ou na Praça Nova sob vigilância apertada. Os costumes e o respeito eram outros, e a virgindade, o único valor que garantia o casamento. Não era, como dizia o impagável filósofo do povo, como dizia o mestre Nhô Roque, Djunga Fotógrfo (João Cleofas Martins), qu´ma ês menininha d´hoje em dia, que só sabe coser cueca na V8, tude qu´mesm agulha. O uso de bebidas era limitado aos refrescos, e muito raramente um groguim em ocasiões especiais. A cerveja era praticamente desconhecida e só consumida por gente com posses, em ocasiões particulares. Actualmente, a juventude consome mais cerveja do que água, talvez devido ao preço proibitivo da água fornecida pela ELECTRA, em que se paga a água propriamente dita, o contador e a canalização ...
No campo da saúde não havia grande diferença da época anterior. As vacinas continuavam ausentes. Dos antibióticos, a Penicilina era administrada com todo o rigor de 3/3 horas, conservando-se no frio, e raras vezes utilizada por ser cara. Já se podia fazer extracçâo dentária com anestesia, no privado, e ainda a maior parte dos medicamentos era preparada na farmácia do Estado. No hospital havia médicos – dois especialistas, o médico-cirurgião e um radiologista-, enfermeiros, farmacêuticos e técnicos de laboratório, sendo, no entanto, as condições de internamento precárias em enfermarias sem o mínimo de condições higiénicas e de conforto no Hospital Velho.
No ensino, um liceu, o único no país, tendo Praia passado a ter o seu liceu na década de sessenta.

De regresso ao país em 1967, já formado, trabalhei em Santiago (9 meses), Brava (4 anos), S. Vicente (7 meses), novamente Santiago (9 meses) e Fogo (2 anos), sem nunca ter podido gozar licença disciplinar por fazer falta ao serviço. Ganhava 4.600$00 (5.400$00 de vencimento base, sujeito a descontos dos avanços concedidos para instalação), e das duas vezes que estive na Praia, o trabalho era insano. Chegámos a ser três médicos no Hospital da Praia (eu, o José Cohen e o Cabral, com o Pinheiro nas Endemias e o Godinho em Santa Catarina, que teve de regressar à Praia para assumir a delegacia de saúde, ficando eu a fazer a cobertura semanal de Santa Catarina, Cidade Velha e São João Baptista, aqui sem centros de saúde nem enfermeiros). Fazia também a cobertura da Boavista, aonde me levava um aviãozito e aí permanecia durante uma semana, com uma ajuda de custos de cem escudos diários que recebia alguns meses depois, com decontos; como não havia pensões nem hotéis, dormia na delegacia de saúde, tendo passado mal na noite da primeira visita por causa de pulgas e percevejos. Uma boa velhota preparava-me as refeições. No Hospital da Praia atribuíram-me ainda a direcção da Maternidade e Pediatria, além das urgências, que duravam uma semana, alternadamente com o Dr. Cabral, sem nenhuma remuneração. Seis meses após a minha chegada, veio a minha mulher de Lisboa, após o casório por procuração, um tanto trabalhoso, devido à burocracia administrativa necessária para provar a idoneidade moral da futura mulher, por eu ser funcionário público superior; quando cheguei à Praia pesava 73 kg; à chegada da minha mulher, estava com 59 kg.
As transferências, só tínhamos conhecimento delas quando publicadas no Boletim Oficial. O Estado pagava a passagem do funcionário e família, mas a bagagem era por conta deste.

A diferença entre 1950 e 1967 e anos posteriores era pouco significativa, devendo-se as diferenças ao início das lutas armadas pela independência das colónias portuguesas, as quais levaram o poder colonial, relativamente a Cabo Verde, a evitar as mortes por fome com programas de fomento para a criação de algumas infra estruturas, principalmente estradas, dar trabalho às pessoas em anos de seca, e o controlo do estado nutricional com exames periódicos dos trabalhadores das frentes de trabalho por equipa comandada por médico nutricionista e os delegados de saúde das ilhas e visitas periódicas de uma equipe do Instituto de Medicina Tropical de Lisboa (IMT), sob superior direcção do Prof. Guilherme Jans, que fora meu mestre no curso de Medicina Tropical, distribuindo-se milho, feijão, óleo vegetal, leite em pó e vitaminas aos carenciados e suas famílias em quantidades mínimas de modo a prevenir o aparecimento de sinais de carência ou a tratá-las. Participei nesse controlo na ilha do Fogo em 1971/72.
Criou-se, na década de sessenta, o liceu da Praia, algumas escolas primárias e passou a haver bolsas de estudo para os melhores alunos liceais. No campo da saúde, não obstante a carência de médicos e ausência de especialistas, exceptuando o cirurgião – um na Praia e outro em S. Vicente – as especialidades farmacêuticas passaram a prevalecer sobre as formas oficinais, incluindo os antibióticos. O paludismo deixou de constituir problema devido a um excelente trabalho de uma missão do IMT, chamada Missão de Endemias, de luta anti-malárica, com formação de pessoal na identificação do plasmódio, localização e combate de viveiros de mosquitos e tratamento, missão que se encarregou também de combate de outras endemias como, por exemplo, a ancilostomíase em certas ilhas.
                                                                                                                             [continua]

3 comentários:

  1. Vida difícil naqueles tempos, Arsénio. É importante transmitir estes testemunhos às gerações mais novas, a quem, apesar de a braços com novos problemas, como o desemprego e a incerteza sobre o futuro, não passa pela cabeça as dificuldades de outrora nas nossa ilhas. Conto um episódio pessoal. Fui passar férias a Santo Antão quando tinha 6 anos (estada de 3 meses). Mal regressei a S. Vicente, apanhei uma forte pneumonia, tendo sido hospitalizado e tratado com penicilina, que já existia em Cabo Verde àquela data. Tivesse a pneumonia acontecido em Santo Antão, se calhar teria morrido porque não havia na ilha condições para ser tratado com a urgência que o caso requeria. Evacuação atempada também era difícil porque não havia barco todos os dias e que garantisse uma deslocação rápida. Já agora pergunto ao médico, que é o Dr. Arsénio de Pina, como é que o pessoal das ilhas com menores condições era tratado da pneumonia. O desenlace fatal era o mais provável? Lembro-me de que, no meu caso, tive de ser enviado para o hospital a altas horas da noite, porque repentinamente fui acometido de febre alta, tosse incontrolável e dores nas costas. Estou a falar do ano de 1950.

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    1. Uma pneumonia era doença grave nessas épocas. Se o doente tivesse boa resistência natural, poderia sobreviver; se não, morria na paz de Deus. Contou-me o Dr Teixeira de Sousa que, quando criança, foi tratado pelo meu pai de uma pneumonia, que se fazia à base de ventosas aplicadas no tórax e controlo da pirexia com panos de água fresca ou fria, e... safou-se.

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  2. Boa stóra arsénica.

    Braça de memórias,
    Djack

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