domingo, 18 de setembro de 2016

[9686] - AS CRÓNICAS DE ARSÉNIO DE PINA...


Conta-me como se vivia nessas épocas

III
                                                         
Nas outras ilhas, que não S. Vicente e Santiago, não havia meios auxiliares de diagnóstico, cuja única vantagem era obrigar os médicos a aperfeiçoarem-se na semiologia, interrogatório e observação minuciosa dos doentes, o que falta nos dias que correm, preferindo alguns colegas adivinhar os diagnósticos através de exames complementares, alguns perfeitamente evitáveis quando se observa correctamente o doente. No Fogo havia um aparelho de RX antigo que fazia radioscopia. Na ilha Brava utilizei um aparelho portátil, recolhido num armazém do Hospital Central aquando de uma deslocação à Praia, que só fazia radioscopia. Numa visita de deputados portugueses, um deles, cujo nome já não me lembro, era assistente de Radiologia no Hospital de Santa Maria de Lisboa; ao mostrar-lhe a minha preciosidade, levou a mão à cabeça aconselhando-me a pô-lo de parte, por já ser de museu, com radiações centenas de vezes superiores aos aparelhos modernos de RX.
                                                                      
Somente em fins de 1972 é que pude gozar licença graciosa (seis meses em Portugal, a que se podia acrescentar três meses das disciplinares não gozadas), que aproveitei para me especializar em Pediatria e Saúde Pública, após forte luta para converter a licença em comissão eventual de serviço, dado que pouco se importava o Ministério do Ultramar com uma especialização em Pediatria e Saúde Pública, devido à carência em médicos de clínica geral em Cabo Verde.

Regressei a Cabo Verde – S. Vicente – em Fevereiro de 1976, já especializado, com mulher e dois filhos, numa altura em que alguns colegas nacionais (4) abandonavam o país, por discordarem da independência, embora dissessem que faltavam as mínimas condições de trabalho, como se antes as houvesse, para auferir um vencimento de dez mil escudos, que passou a doze mil três meses depois – vencimento de especialista – pagando três mil escudos de renda, sem um chavo de lado, por ter consumido todas as economias durante a especialização. Vida difícil, mesmo arriscada, para mim e a família, até porque, pouco tempo depois, foi socializada a Saúde, aliás, colectivizados os médicos, porque as outras profissões continuaram como dantes, passando os enfermeiros a fazer a clínica privada, antes da responsabilidade de médicos, e os serventes substituíram os enfermeiros nos curativos a nível particular.
As condições de trabalho eram, como não podiam deixar de ser, difíceis, por falta de meios, de instalações e de colegas, tanto generalistas como especialistas, sendo eu o primeiro pediatra nacional a pôr os pés em Cabo Verde, com outro cubano na Praia. Praticamente, a Pediatria nasceu comigo em Cabo Verde e tenho sérias dúvidas se teríamos podido fazer igual ou melhor se não regressasse a Cabo Verde. Creio que somente com nacionais como os que ficaram e regressaram se poderia realizar a proeza conseguida. No total éramos doze médicos no país no início da independência, com a deserção de alguns e o não regresso de outros altamente qualificados que preferiram ficar em Portugal, não correndo riscos e com melhores condições de trabalho, inexistentes entre nós, as quais teriam de ser criadas com empenho, entrega total, sacrifícios e imenso amor à terra e aos patrícios, acreditando num futuro melhor sob a bandeira do Partido que nos levou à independência que aspirávamos e por que lutámos. Mesmo os que não estavam com o Partido, deram o corpo ao manifesto pelo seu país e o povo, não o abandonando nessa aventura arriscada que alguns julgavam impossível por considerarem inviável a independência de Cabo Verde.
Obviamente que não havia condições, mas teríamos de ser nós a criá-las, não os cooperantes progressistas de países ocidentais que nos ajudaram, por opção política, e de colegas dos países comunistas, que vieram por decisão administrativa dos seus governos, e assim foi. A pouco-e-pouco, sem olhar a sacrifícios, fomos criando as condições que já deveriam existir muito antes na Saúde, embora tenhamos ficado com amargos de boca por não reconhecimento pelo poder dos nossos sacrifícios e triunfos. Houve até colegas que, desiludidos e magoados, se foram embora, e os fracos vencimentos e proibição de clinica privada fora das horas de serviço, criaram um mau ambiente que não contribuiu para o regresso de patrícios qualificados do exterior e fez pender o ânimo dos médicos para a mudança, que finalmente se deu e melhorou a vida dos colegas. Diga-se a verdade inteira: o Poder era desaforado – o desaforo da inconsciência - a ponto do Primeiro-Ministro ter declarado, face às nossas justas reivindicações, que nem afectavam o orçamento do Estado, após anos de sacrifícios, que quem não estivesse contente que se fosse embora, tendo o Ministro da Saúde repetido o mesmo. Nós os mais antigos – eu, o António Cohen, Pedro e Afrânio do Rosário, Fragoso, Lisboa Ramos (não incluo o Dario por ainda não ter chegado ao país) – estávamos em Cabo Verde por opção e amor à terra; se tivéssemos abandonado o país nessa altura, seguramente que nada do que se conseguiu no campo da Saúde teria sido possível.
Não fora, portanto, o empenho, motivação e competência dos médicos nacionais, nunca se teria dado a evolução tão positiva, consistente e sustentada da situação sanitária do país, a qual ultrapassou a da maioria dos países africanos, ao cabo de tão pouco tempo, que regurgitam riquezas naturais e há mais tempo independentes.

Não me alongo nesta exposição por os acontecimentos serem menos antigos e os ter descrito no meu primeiro livro ULI-ME LI!, noutros que se seguiram, em artigos, palestras e documentos com críticas e sugestões encaminhadas ao Ministério da Saúde que caíram em cesto roto. Em nenhum dos países africanos em que trabalhei como conselheiro técnico principal em Saúde Materno-Infantil e Planeamento Familiar (Gabão, Mali, Rep. Centro-Africana, Guiné Conakry, Mauritânia) se conseguiu, como fizemos em Cabo Verde, converter as PMI/PF em Programas Nacionais suportados pelo orçamento do Ministério da Saúde, por não haver da parte dos respectivos governos, dos políticos e dos médicos nacionais nenhum interesse nisso, o que se explica pela inexistência do sentimento de nação, ausência da sociedade civil e da classe média e de opções nacionalistas. Só lamento não se ter tido em conta as minhas recomendações escritas quanto à evolução da PMI/PF e da industrialização da mistura de cereais e leguminosa, MICAF, tendo preferido o Departamento da Medicina Preventiva introduzir alterações (para pior) à ficha do controlo do estado nutricional de crianças, alterado o sistema de férias do pessoal, que levou a que a PMI/PF nunca trabalha em pleno e permitido a transferência do pessoal conflituoso ou pouco produtivo do curativo para a PMI/PF, em troca com o pessoal activo desta, eliminado a valência nutricional por se ter criado no Ministério da Saúde o Departamento de Nutrição, eliminado o subsídio do pessoal de enfermagem que compensava não fazerem velas no hospital, o que o obriga a fazer velas, ausentando-se, por isso, do trabalho na PMI/PF.

Parede, Setembro de 2016                                                           Arsénio Fermino de Pina
                                                                               (Pediatra e sócio honorário da Adeco)

3 comentários:

  1. "Chapeau, Haut-et-Bas !!!"
    Pela leitura do teu livro e por outras informações soube do imenso trabalho que tu e teus colegas fizeram nessa altura pôs independência mas desconhecia o montão de dificuldades com que se depararam. Portanto, digo "chapeau, haut et bas".
    A terceira parte do tua crônica me leva ao tempo, antes da chegada da Tropa Expedicionária, onde se morria de "dor-de-barriga-d'home" porque a apendicite era desconhecida no vernáculo. Contabilizavam-se os mortos que passavam durante (incompatibilidade com o clorofórmio) ou depois (espasmos que arrebentavam as costuras) das operações no Hospital. Não vou entrar neste assunto mas quero simplesmente lembrar que antes a coisa já era o que dizes. Confirmo.
    Tínhamos três médicos (medicina geral) estando um na Direcção (Sócrates da Costa, goês) e dois (António Alfredo Miranda, sanvicentino, e outro, também goês, Mirandinha) que operavam sem serem cirurgiões, sem condições mínimas. Lembro-me que pessoas vinham nos veleiros de Santo Antão para serem tratadas. No privado só havia um, o Dr. Daniel Tavares, o qual era procurado quando os meninos precisavam. Mais tarde veio o Dr. Aníbal Lopes da Silva como dentista. Este, logo incorporado com a patente de tenente, trabalhava também pelo privado.
    Muitas estórias se contavam mas... não me vou alargar a isso. Os médicos fizeram quanto puderam mas não conseguiram muita coisa. Felizmente chegou o Dr. Baptista de Sousa.

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  2. Tempos outros, Arsénio, tempos de carência e restrição numa área crítica para o bem-estar humano como é a da Saúde. É muito importante relatos como este, porque, como se costuma dizer, a memória das sociedades é curta.

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  3. O Amigo Arsénio tem muitas histórias para contar da sua actividade profissional em cabo Verde assim como consutor internacional. Um activista da cidadania activa. Bem haja este e outros textos aqui publicados

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