terça-feira, 4 de outubro de 2016

[9745] - O CAOS URBANO...


Sobre o horrível e caótico urbanismo da Ilha de S. Vicente, um cidadão comum escreveu:

""Em 2014, quando estive em S. Vicente, subi no alto do Fortim e, olhando ao redor, pensei que estava numa favela. Não existe ordenamento territorial nem qualquer lei que permita a conservação da traça original dos prédio emblemáticos do centro da cidade? Quarenta anos volvidos passei em locais que nada mudaram e em outros totalmente degradados. Foi com muita tristeza que constatei a degradação do muro da antiga pracinha dos namorados, do predio contiguo a antiga esquadra da polícia, da escola nova, enfim, de vários outras construções que fizeram o deleite da minha infância. A Câmara Municipal de S. Vicente é responsável por tudo isto e deve explicações aos seus munícipes bem como acções para voltar a dignificar aquela que já foi uma Roma crioula""

Espero que a CMSV se vergonhe da opinião dos seus cidadãos...
Isto são aut^nticos labirintos, cheios de "canalin pa fogá macoc"!

Os arquitectos da CMSV, e não só, podem bem candidatar-se ao Prémio Pritzker de arquitectura!

(José F. Lopes)

 A FEALDADE DA PAISAGEM URBANA CABO-VERDIANA


    Recente comentário no facebook de um conterrâneo foi de uma veemente severidade sobre a realidade da paisagem urbana do Mindelo da actualidade. Entre outros reparos, disse que aquilo parece uma grande favela. É uma realidade que ninguém ignora.
     Com efeito, estamos perante falhas clamorosas ao nível da arquitectura paisagista, no Mindelo como em outras cidades cabo-verdianas que cresceram à margem de regras que são imperativas numa cidade que se preze. A arquitectura paisagista, por princípio, deve integrar as artes criativas, as ciências naturais e as ciências sociais, e da sua conjugação resultam soluções que sempre têm de se coadunar com a história, a cultura e a traça dominante de uma cidade. Nada disto se verifica na nossa terra e a pergunta que se põe é se isso se deve à impreparação ou incompetência dos arquitectos. Direi que não porque os nossos arquitectos têm a ciência necessária para conceber qualquer tipo de projecto.
     O que sucede na nossa terra é que não há nem nunca houve rei nem roque nesta matéria, desde a independência, sobretudo a partir de 1990. Cada um faz o que lhe apetece e sempre em obediência ao seu gosto ou interesse pessoal, marimbando para o colectivo. Por isso é que, como diz a pessoa que interveio no facebook, aquilo parece uma vasta favela e não uma cidade que deva primar por um mínimo de bom gosto, decência e funcionalidade. E, cereja amarga em cima do bolo azedo, é essa ausência de acabamento exterior em grande parte das construções, pelo que resulta da amálgama de casas sem estética uma paisagem feia, sem graça, incaracterística, além do grave problema de se inscreverem em ruas mal traçadas, desconexas, anquilosadas, sem espaço sequer, em inúmeros casos, para fins utilitários e públicos, como acesso a ambulâncias, viaturas de bombeiros, etc.
     Então, se não é uma questão de falta de arquitectos capazes, o mal só pode ser atribuível a corrupção ou demissão de responsabilidades ao nível das autarquias. A começar, pois, pelas autoridades, que não agem ou hesitam em agir de acordo com as suas competências e responsabilidades, ou que, mais grave ainda, não estabelecem baias intransponíveis entre o interesse público e o privado, dando azo a situações de duvidosa legitimidade, ou mesmo de flagrante transgressão, isto para ser mais eufemístico do que assertivo nas minhas palavras.
     Depois, não é difícil imaginar que a demissão, apatia ou inacção de quem governa tem um efeito de autêntica permissão e aval aos desmandos das empresas construtoras e dos cidadãos. Assim, direi que o mal se entrelaça de tal forma que não se sabe onde começa e onde acaba, nem quando vai ter fim ou se é mesmo possível pôr-lhe um fim. O que está em causa pode ser mais aquele tipo de transgressão que é fruto de favoritismo, cedência, lassidão, desleixo, hábitos paroquialmente enraizados nos meios em que quase toda a gente se conhece. Poderá não assumir a escala das situações mais gravosas e de enquadramento criminal, mas, silenciosamente, sub-repticiamente, vai produzindo os seus efeitos melífluos. É como certo tipo de cancros.
     No fundo, o mal está na comunidade como um todo, na sua mentalidade de conformismo e permissividade, que é sintomática de uma flagrante carência de consciência cívica e identitária. A simples constatação da proliferação desses inúmeros caixotes de maior ou menor tamanho em detrimento da bonita traça colonial de muitas construções que herdámos, diz-nos de uma realidade que não podemos ignorar e temos de lastimar e condenar. Aos poucos, a cidade do Mindelo se vai assemelhando a muitas grandes favelas de qualquer outra cidade africana sem história e sem passado digno de registo.
     Contudo, penso que aos nossos arquitectos cabe uma particular e intransmissível responsabilidade. Pela sua formação académica, deviam ser os primeiros a agir em defesa do nosso legado patrimonial, em vez de caucionarem, activa ou passivamente, as transgressões sucessivas que nos conduziram à situação que várias fotografias do Mindelo vêm reportando.

Tomar, 3 de Outubro de 2016

Adriano Miranda Lima


3 comentários:

  1. Proponho às autoridades locais que organizem uma visita guiada a estes pardieiros aos 70 barcos de cruzeiro esperados no Porto Grande este ano e que vejam quantos desses navios voltarão no ano seguinte. Bom desafio, não é?

    Braça farto do Mindelo transformado em favela da Rocinha,
    Djack

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  2. Sim, Djack, fala-se de turismo em S. Vicente e, de facto, tenho perguntado a mim mesmo se é isto que querem mostrar aos visitantes. Parece que o bom senso desapareceu daquela nossa querida e saudosa terrinha.

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  3. Bom os Turistas vão estar distraídos com funanás e outras danças da bundinha não vão ter tempo de reparar pela obra prima dos Homens Novos

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