segunda-feira, 17 de outubro de 2016

[9802] - MOMENTOS DE HISTÓRIA...(3)

CABO VERDE NA I GRANDE GUERRA
1914-1918


A DEFESA DE CABO VERDE


Os meios da base naval de São Vicente foram reforçados logo no início da Grande Guerra, ainda durante 1914. No seu máximo a força naval em Cabo Verde teve as seguintes unidades:

Cruzador:
"NRP São Gabriel": (de 8 de Setembro a 2 de Dezembro de 1914).

Canhoneiras:
"NRP Beira": (de 11 de Setembro a 2 de Dezembro de 1914); (de 14 de Dezembro de 1915 a 17 de Julho de 1917);  equipada com duas peças de 65mm e duas peças de 47mm.
(26 de Janeiro 1918 a 3 Março de 1919). A canhoneira quando regressou a Cabo Verde vinha pintada com camuflagem de guerra, equipada com a peça de proa de 90mm, em substituição da 65mm, e com dois lançadores de bombas contra submarinos.

"NRP Beira", 1918. A Canhoneira quando regressou a Cabo Verde vinha pintada com camuflagem de combate, por estar integrada na Divisão de Defesa dos Açores. Aguarela de Fernando Lemos Gomes (2010), pintor madeirense, integrado num conjunto de trabalhos comemorativos da implantação da República, 1910.
 "NRP Beira" - Foto tirada em São Vicente, 1918.  (Setenta e Cinco Anos no Mar, Voluma 1º, parte I/II/III, p.85)

"NRP Ibo": (de 12 de Novembro de 1914 a 2 de Abril de 1918), equipada com duas peças de 75mm, duas peças de 47mm e 2 metralhadoras.

"NRP Bengo": (de 5 de Maio de 1918 a 7 de Abril de 1919), equipada com uma peça de 90mm, 4 peças de 47mm e dois lançadores de bombas contra submarinos.

Patrulhas:
"NRP Fendele": (1918) equipado com uma peça Hotchkiss de 47mm

"NRP Mindêlo":  (1918) equipado com uma peça Hotchkiss de 47mm

Rebocador:
"NRP Brigadeiro Berreiros".(1914 a 1918), equipado com uma peça Hotchkiss de 47mm

Entre 1914 e 1916

A canhoneira "NRP Ibo" partiu de Lisboa a 24 de Agosto de 1914, para a sua missão de protecção do arquipélago de Cabo Verde.

Em 9 de Setembro de 1914 saíra do Tejo, o cruzador “ NRP São Gabriel” com destino a São Vicente (Cabo Verde), onde se manteve em serviço de vigilância até 19 de Novembro de 1916, data em que seguiu para Luanda em missão de escolta a dois transportes de tropas.

A 19 de Setembro de 1914 chegam ao Porto Grande de São Vicente as canhoneiras "Beira" e “Ibo”, que ficam aí fundeadas, passando ambas a fazer a protecção da zona naval do arquipélago. No entanto, a canhoneira "Beira" acompanha o comboio com as forças da primeira expedição a Angola,  mas regressou à base naval de São Vicente a 1 de Outubro. A Canhoneira "NRP Bengo" e o rebocador "NRP Brigadeiro Barreiros" já se encontravam em Cabo Verde.

A 22 de Novembro de 1914, seguiu de Lisboa para São Vicente, a bordo do vapor “Cazengo”, uma força expedicionária de Marinha para reforço da defesa da base naval.

A 23 de Fevereiro de 1916, quando Portugal decide pela apreensão de todos os navios mercantes alemães e austro-húngarosfundeados em portos nacionais, a fim de serem colocados ao serviço da "causa comum luso-britânica", encontravam-se no Porto Grande de são Vicente 8 navios alemães: "Beta" (Maio), "Burgmeister-Hachmann" (Ilha do Fogo), "Dora Horn" (S. Nicolau), "Heimburg" (Santo Antão), "Santa Bárbara" (Santiago), "Theoder Wille"  (Boa Vista), "Fogo" (Brava) e "Wurzburg" (S. Vicente). Parte destes navios foram cedidos aos ingleses, mas navegando com bandeira e tripulação portuguesas. Alguns foram posteriormente cedidos aos francesas, mantendo as tripulações e a bandeira portuguesa. (19)

Desde Março de 1916 até 19 de Dezembro de 1916, o Porto Grande de São Vicente alojou uma Base Naval Britânica, que serviu para apoio e abastecimento à 9ª Esquadra de Cruzadores do Atlântico Sul, do Almirante Gordon Moore. A missão desta esquadra inglesa era o patrulhamento do Atlântico Sul, desde as Canárias até à Costa da América do Sul e Golfo da Guiné. Entre os cruzadores que compunham a esquadra, encontrava-se o "HMS Suttlej", o "HMS Swiftsure", o "HMS Donegal", o "HMS High-Flyer", o "HMS Kent", e o "HMS Berwirk". Mais tarde o "HMS Suttlej" foi substituido pelo "HMS King Alfred". Esta esquadra também se encontravam vapores armados, com a função de cruzadores auxiliares, como o "HMS Marmora" e o "HMS Albermale Castle".

Encontravam-se sempre fundeados, pelo menos três cruzadores mais o navio almirante, que praticamente foi ali residente até 19 de Dezembro de 1916, data em que os últimos navios ingleses, os carvoeiros da esquadra, o navio-oficina e os cruzadores, "HMS King Alfred e "HMS Donegal",  saíram do Porto Grande em direcção à base militar naval de Freetown na África Ocidental Britânica, actual Serra Leoa. (5)

Sua localização geográfica entre a Europa, América do Sul e passagem obrigatória para o Sul da África, abrangia as principais rotas do Atlântico Sul. Acrescia outro factor estratégico a estação de cabos submarinos localizada na localidade Mindelo.

Com a saída da esquadra inglesa do Porto Grande, este perdeu quase todo o seu trafego, que tinha atingido uma entrada de 13 navios diário em média, com uma lotação de 40 navios em média. O trafego de carvão chegou a atingir 50.000 toneladas mês em Junho de 1916. Grande parte deste movimento foi devido ao transporte de tropas australianas para e cereais vindos da Argentina para a Europa. (16)

1º Ataque ao Porto Grande de São Vicente - 4  e 5 de Dezembro de 1916

A 4 de Dezembro de 1916, durante a vigilância nocturna do porto de São Vicente, a "NRP Ibo" veio às águas exteriores do porto, até junto do vapor "Moçambique" que se encontrava fundeado. Depois de dar ordem ao vapor "Moçambique" para entrar no porto e de ter regressado à baía, os marinheiros de vigia na canhoneira distinguiram o casco de um submarino emerso a entrar na baía.

A "NRP Ibo" arrancou de imediato ao encontro com o inimigo, com a intenção de o abalroar. Abriu um intenso fogo contra o submarino e acendeu um facho vermelho, como sinal de alarme de presença de inimigo. O fumo, o fogo das peças e do facho vermelho eram tão intensos, que a tripulação da canhoneira "NRP Beira", que estava acostada no porto, chegou a pensar que a "NRP Ibo " se tinha incendiado e largou de imediato em seu auxílio.

O submarino ao se aperceber do ataque mergulhou, acabando a cobertura de água por fazer de protecção aos tiros sucessivos que eram disparados sobre o seu casco. O submarino rodou submerso dentro da baía e fugiu rente ao fundo, pela espuma, algas e detritos que sobrenadaram. Pensa-se que teria a intenção de rocegar o cabo submarino de comunicações  que aí se encontrava amarrado.

O navio "Moçambique" e os seus 500 soldados repatriados e a grande quantidade de material de guerra de África que se encontrava a bordo foram salvos. O submarino já longe do porto, em mar aberto começou a emergir, mas a canhoneira "NRP Beira" que tinha saído em apoio da "NRP Ibo" encontrava-se perto e começou a disparar sobre o submarino. Este voltou a submergir e não foi mais visto. Provavelmente seria o submarino U-47, comandado por Heinrich Metzger, que tem registado um afundamento na zona, naquela data.(12)

Para a defesa da Ilha de São Vicente e do cabo submarino, foi desembarcado um contingente de 80 praças e três oficiais  do Batalhão de Infantaria n.º 23, comandadas pelo Capitão António Joaquim Ferreira Diniz,  que se encontravam a bordo do vapor "Moçambique". Estas faziam parte do contingente de repatriados que seguiam para a metrópole, encontrando-se muito afectados por doenças. No entanto e apesar das condições de saúde, abriram trincheiras e preparam posições defensivas com vista proteger o Porto Grande de um eventual desembarque de surpresa.

Tropas do BI23 desembarcadas a 5 de Dezembro de 1916 para defesa do Porto Grande

CONTINUA...

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