quinta-feira, 20 de outubro de 2016

[9814] - NO REINO DE DELFOS...



PITONISAS DA NOSSA ECONOMIA

  Quem assiste, todas as semanas, no canal TVI 24, às dissertações de um conhecido analista do estado da economia e das finanças de Portugal, tende a dar-lhe razão dentro do princípio de que 2+2=4. A matemática elementar, sustentando gráficos e valores numéricos repetidos ad nauseam, ano após ano, parece a única matriz do seu conceito. Mas se o segredo do sucesso se resumisse a esse instrumento de análise, qualquer economista licenciado com 10 valores teria capacidade para governar o sector. O axioma só não surte efeito porque, no dizer do analista, temos sido governados por “criminosos loucos”. Estes seguramente que não desconhecem a matemática, mas a ilustre figura deve supor que, ungidos pelo diabo, têm o sortilégio de subverter a soma de 2 + 2 para valores estranhos e distorsivos.
     Não é preciso muito esforço para perceber a insinuação mal disfarçada: as nossas dificuldades financeiras se devem às liberdades cívicas do regime democrático. É particularmente sobre esta II República que ele descarrega a sua verrina quando fala de “criminosos loucos”. E é implícito que absolve das malfeitorias nacionais o ditador Salazar, que soube destronar os “criminosos loucos” do seu tempo para que as contas públicas se reconciliassem com a normalidade tranquila da matemática. Mas para protegê-la com grades de ferro Salazar teve de suprimir a oposição, de domesticar o parlamento, de extinguir a liberdade de opinião, de acabar com os sindicatos, de criar uma polícia política, de construir uma colónia penal em Cabo Verde. Nada mais simples, e só os “criminosos loucos” é que não se lembraram nem se lembram do Ovo de Colombo descoberto por Salazar. Com aquele governante, as contas foram postas no seu devido lugar e o país entrou numa era de paz… de cemitério: sem progresso material, sem infra-estruturas, sem indústrias evoluídas, sem promoção da instrução, sem segurança social, sem protecção à infância e à velhice. 
     Bastou o retorno da democracia em 1974 para que as nossas contas se descontrolassem, tudo por culpa dos “excessos revolucionários” cometidos, como sentencia o analista e, obviamente, merecendo aqui a nossa concordância. Só que aqueles “excessos” tiveram a virtude de instituir o direito de todos os portugueses à segurança social, à saúde, ao ensino e à cultura, eliminando ou atenuando a gravidade de situações de abjecta e confrangedora pobreza.
    Posto isto, começa a desenhar-se no espírito do leitor a sugestão de que a economia será algo muito complexo nos seus meandros para se poder consertar com duas marteladas de matemática. Sim, a economia não é uma ciência exacta. Ramo das ciências sociais, depende, como tal, de variáveis que não é fácil quantificar e por vezes até identificar com linear clareza. São do domínio do comportamento humano e social, onde a imprevisibilidade e a incerteza são de tal grau que muitas vezes conseguem deitar por terra as estimativas e previsões mais sofisticadamente calculadas. Mais ainda porque aquelas variáveis são normalmente interdependentes, obnubilando a percepção da sua complexidade, não só por interferência de fenómenos sociais internos como de dinâmicas exteriores não controláveis pelos governos.
     Contudo, a pessoa em causa não é o nosso único oráculo nesta delicada e difícil matéria. O canal SIC tem outro senhor de certezas inabaláveis e irrevogáveis. Estes dois são os de maior visibilidade porque desde há anos vêm usufruindo de um exclusivo privilégio nos respectivos espaços mediáticos, sem terem contraditório que se veja. Um foi ministro durante ano e meio e o que consta de mais saliente na sua governação foi ter negociado um empréstimo aos EUA, por culpa de anteriores “criminosos loucos”, cuja concessão exigiria a primeira intervenção do FMI no país. No entanto, enquanto ministro ele não fez escola nem deixou, que se conheça, qualquer receita infalível para o sector. O outro é apenas jornalista, com licenciatura em economia, nunca tendo exercido qualquer cargo público ou privado que assinale os seus méritos e constitua background da ciência virtual que amiúde despeja no canal televisivo que lhe dá guarida.
     Direi que são ambos as principais pitonisas da nossa economia, de entre outras menos notadas e de mais esparsa intervenção. Por que não são chamadas a salvar a pátria estas pessoas que se mostram tão compenetradas dos seus argumentos, tão cientes da infalibilidade dos seus cálculos, dos seus juízos e dos seus prognósticos? Bem, admito que não desejarão qualquer prova real das suas capacidades, a não ser com uma hipotética supressão da democracia, pois caso contrário teriam de se confrontar com as mesmas adversidades e condicionalismos por que passaram ministros de alto gabarito académico e grande traquejo como Sousa Franco, Silva Lopes, Vítor Constâncio, Miguel Cadilhe, Hernâni Lopes, Jacinto Nunes e outros. Ou será que estes merecem ser mimoseados com o tratamento de “criminosos loucos”?
     Chegado aqui, o leitor terá já intuído ou deduzido que o problema das nossas contas públicas poderá ter, na verdade, alguma relação com a nossa idiossincrasia. Isto é, com a falta de apuro da nossa consciência colectiva para fortalecer a unidade em torno dos grandes objectivos nacionais. Esta é, aliás, a face visível da nossa dificuldade em maximizar as virtudes da democracia, de modo a que ela se torne facilitadora de consensos e maiorias políticas e extirpe à nascença fenómenos (corrupção e evasão fiscal, por exemplo) que corroem a saúde do organismo nacional. As pitonisas em causa certamente que não ignoram o fundo sociológico do problema, mas preferem fazer vista grossa e entreter o pagode com a superficialidade das suas análises.
     Claro que despedir a democracia para viabilizar a resolução dos nossos problemas não deve passar seriamente pela cabeça de ninguém, nem mesmo das pitonisas. Por isso é que lhes fica mal passar a imagem de que são virgens impolutas ou mentes luminosas, enquanto subliminarmente crucificam e execram quem ousa assumir a governação. Tanto mais que as suas análises e conjecturas podem ajudar a dona de casa ou o merceeiro da nossa rua, mas de pouco servem para o esclarecimento da complexidade da ciência económica. Bem se diz que a economia é algo sério demais para ser deixado só aos economistas. 

Tomar, 17 de Outubro de 2016

Adriano Miranda Lima

8 comentários:

  1. Conhecendo, de longa data, as profecias dos pitonisicos comentadores a que faz referencia fico, no entanto, confuso depois de ler este texto, pois ele dá-me a sensação, decerto errónea, de que estamos condenados à ditadura de cofres cheios ou à democracia de bolsos vazios...E será que as idiossincrasias explicam tudo e nos condenam ao anátema de incapazes sociais? De economia, eu entendo tanto como de lagares de azeite, mas tenho direito às minhas dúvidas e acredito que nada, para além da morte, é irremdiável...

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  2. É um facto, Zito, que desde sempre houve, em Portugal, certa dificuldade em organizar as coisas do Estado de forma a poder-se garantir um futuro mais ou menos estribado em realidades sólidas. A questão das finanças é apenas uma das suas aflorações. Ainda não há muito tempo, assisti na televisão a um desses programas sobre História de Portugal do José Hermano Saraiva em que ele punha o dedo na ferida. Lembrou as especiarias da Índia, o ouro do Brasil, a posse de colónias ricas, e, mais recentemente, os biliões que a CEE/UE fez entrar no país tendo em vista o seu desenvolvimento. No tempo de D. João V, Portugal era, virtualmente, o país mais rico da Europa (nenhum tinha tanto ouro) e no entanto era o menos desenvolvido em estruturas produtivas. Com o ouro se comprava tudo, até o pão.
    Ao longo de séculos, estivemos, pois, sempre abaixo da média europeia, com manifesta dificuldade em dar o salto definitivo para o progresso. Para o Hermano Saraiva, padecemos de um défice de consciência colectiva, com predomínio do individualismo e do interesse de classe (agora, dos grupos políticos) sobre os desígnios nacionais. E tudo isto se reflecte, evidentemente, na organização social e na planificação da economia, por incapacidade de aquietar os ânimos e disciplinar as vontades para que as respostas para os problemas não sejam sempre votadas para o curto prazo, como vem sendo.
    Relativamente à economia propriamente dita, penso que a expulsão das comunidades judias privou a sociedade portuguesa de uma mais-valia genética que é impossível não reconhecer. Na realidade, penso que há algo de genético no nosso problema. Basta sentar meia dúzia de pessoas a uma mesa e debater sobre um problema, para depressa se constatar que cada uma terá uma opinião diferente. Mesmo que alguém concorde com algum argumento, a resposta será “sim mas…”
    Mas o objectivo do meu texto foi mais para discordar de duas pessoas conhecidas que se arvoram em profetas e donos da sabedoria sem terem nada de especial que as recomende a não ser a sua prosápia e a sua presunção. Ou o crédito que incautamente se lhes dá na televisão, provavelmente a troco de uma suposta audiência. Bastaria que fossem chamadas a governar para que se lhes calasse de vez o pio, pois passariam a ingressar na lista dos “fracassados”
    Conclusão: há muita coisa a melhorar na mentalidade nacional. É certo que tudo o que é atavismo é difícil de extirpar da mente e do espírito. Porém, vamos acreditar que nada é irremediável, como bem diz. Só a morte. Volta e meia cito o Eduardo Lourenço, que, a propósito dos nossos desacertos a seguir ao 25 de Abril, diz que a sociedade portuguesa precisa fazer uma “autognose”. Será isso indispensável para nos livrarmos de “troikas” e ditadores estrangeiros mal disfarçados?

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  3. Um grande texto e comentário do Adriano, que como sempre nos brinda com análises profundas, tentando ir ao cerne da questão. Neste tema tenho a minha opinião mas não acrescentaria muita coisa àquilo que foi dito aqui. Penso que a questão judaica levantada pelo Adriano merece análise pois como sabemos a expulsão dos judeus marcou o início da decadência da Península IBérica. Haverá relação causa e efeito, talvez. Muitos dizem que sim, pois esta comunidade tinha os segredos do know how da época.

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  4. À pressa porque há dias em que tenho mais pressa, e só para acrescentar ao que acabo de ler (e com o que concordo) que costumo referir-me a essa "ave rara", a primeira das duas citadas por Adriano Miranda Lima, como o "ministro dos cemitérios". Transmite uma carga de pessimismo atroz, não gostaria de o ter como amigo.

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    1. John, como sei que tem uma mana (Liza) em Tomar, onde vivo, quando por lá passar apita para tomarmos um copo. Só conheço o teu irmão Luís. Rectificando, conheço também a Liza, pois fui a casa dela buscar uma encomendinha de Cabo Verde.

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    2. Adriano, agradeço o convite, ao qual corresponderei na próxima oportunidade. Grato abraço.

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  5. Ocorre-me que andamos aqui à volta com os nossos atavismos e arautos da desgraça e ainda ninguém se lembrou de trazer à liça os "Partidos Políticos", emanação da Democracia, mentores ideológicose, não raro, mestres da mistificação, que terão, decerto, algo a "dizer", não sobre os tais atavismos mas, no mínimo, sobre as suas consequências... Pois, julgo eu, a Economia tem uma vertente política!

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    1. Zito, diz bem, a economia tem uma “vertente política”. E até se pode dizer que a economia é essencialmente política se considerarmos que, sendo uma ciência social, ela tem uma profunda conexão com a complexidade da natureza humana. A política exprime os anseios das sociedades humanas e os modelos de organização interna para atingir os fins sociais, e regra geral funciona com base em consensos, salvo em regimes autocráticos. A economia espelha o sucesso das escolhas e decisões políticas tomadas, bem como o grau de entendimento das prioridades nacionais, de criatividade nacional, de disciplina e concertação social. ,
      As interfaces entre política e economia são um campo consagrado de estudos, operando precisamente na fronteira entre campos que só são diferentes do ponto de vista processual, pois são interdependentes e radicam na mesma dimensão – a natureza humana, com as suas contradições, incertezas e perplexidades. Daí haver quem pense que não se pode dizer que a política acaba aqui e agora começa a economia.
      Por isso é que é cada vez mais consensual que a ciência económica não pode ser analisada, esmiuçada e explicada só com modelos matemáticos e econométricos.
      Não sou economista mas é o que me sugerem algumas leituras sobre o assunto.

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