segunda-feira, 31 de outubro de 2016

[9863] - HORRIPILANTE E SOMBRIO...

Discurso horripilante e sombrio
Folheando o jornal Expresso das Ilhas, edição 775 do dia 5 de Outubro de 2016, prendeu a minha atenção o artigo do meu amigo José Almada (Zé Almada) com o título curioso “O ano de todas as eleições, do fim das ilusões e da procura das soluções, num ambiente de um presidente, um governo e uma maioria autárquica“, que ao ler fiquei atónito e interrogando, se na realidade andamos todos a falar do mesmo país, aliás se temos vivido todos no mesmo Cabo Verde.

Por: Jorge Fonseca


De qualquer modo, o meu propósito com este artigo não é analisar a crónica do articulista, nem saber da bondade dos seus propósitos, mas sim pegar nessa sua “deixa” e, com o meu ponto de vista, debruçar sobre o discurso ”inócuo” que  vai  ecoando pelo país fora, pelas penas e vozes de setores ligados à nova maioria governativa, saída do “ano de todas as eleições”; mas antes queria distinguir a maioria governativa e seus simpatizantes da maioria vencedora das eleições. Nesta última categoria, mais abrangente, incluem­se milhares de cabo­verdianos que, serenamente, souberam fazer a escolha que no seu entender fazia sentido em 2016, uma mudança e um renovar das energias para que Cabo Verde continue a crescer e  a desenvolver, para bem e proveito de todos os seus filhos.

Mas voltando àquilo que me despertou atenção no artigo do Zé Almada, a introdução, com  um  discurso  horripilante  e sombrio, utilizando suas palavras “o triste retrato de Cabo Verde, país de desemprego, super­endividado, com ilhas a perderem populações, de crime, de cidades tumultuosas com bairros de guetos onde nem a polícia entra” e terminando “é  esta a herança que os novos governantes receberam. Poderia ser pior?”. Um discurso recorrente no seio de quem vai governar o país, que ao olhar para trás, para os últimos quinze anos, não vê no país nada de bom, nada de positivo, apenas uma árdua tarefa de desmantelar e começar de novo.

É realidade e verdade sim, que dos quinze anos de governo do PAICV cometeram­se erros, e por vezes escusados e, por  vezes ainda, em exagero.

É realidade e verdade também, que parte da liderança, dessa maioria que governou o país, nos últimos quinze anos, a partir de determinada altura, tornou­se arrogante, narcisista e altiva. Aliás, talvez a maior fraqueza das lideranças do PAICV tenha sido a vaidade e não terem governado para produzir legado, focado no eu. Só produz legado aquele que é capaz de ser sábio, mas também humilde e generoso – infelizmente, estes três adjetivos não fazem parte da matriz da nossa (cabo­  verdiana) escola de lideranças. À custa disso, o PAICV recebeu a avaliação que recebeu e a nota que mereceu, devendo  voltar às origens, recompor­se, penitenciar e reerguer­se.

Mas a maioria que acabou de ganhar a confiança dos cabo­verdianos, deve manter­se alerta e não deixar­se iludir e envaidecer sob pena de cair na mesma armadilha do seu antecessor. Certamente têm todos bem presente o que havia de mais enfadonho e oco no último mandato do PAICV, a cassete encravada no gravador dos anos noventa, pelo que uma manutenção, conveniente, do magnetofone nos pouparia a todos de mais uma dose, deprimente, de rádio­novela sobre os primeiros quinze anos do novo século. É importante lembrar que o PAICV não governou sozinho; o MpD governou a maioria das câmaras municipais do país, pelo que também tem parte nos sucessos e insucessos dos últimos 15 anos. Por exemplo, a política de segurança é tarefa do governo central, mas é tarefa também de quem governa o município. Um bom autarca é aquele que cuida do ordenamento do seu território, zela para o seu município ser o mais limpo, ter as melhores escolas, bons centros de formação profissional, fomenta o desenvolvimento das artes, o desenvolvimento empresarial, a criação de empregos, mas também colabora com as autoridades centrais para que o município seja seguro, estimulando, deste modo, a fixação e atracção de novas populações.

Contudo, o que se vê, em todos os municípios de Cabo Verde, sejam os governados pelo MpD, sejam aqueles governados pelo PAICV, é a implementação de políticas populistas, que só têm servido para manter o povo refém dos caudilhos, numa relação perversa em que o voto se transforma num bem transacionável, com a balança a pender sempre para o lado dos caciques dos partidos.

Eu que vivi os últimos vinte e dois anos, em Cabo Verde, no Sal, vi: um país transformar­se, um país a instruir­se, novas estradas, aeroportos, portos, escolas, hospitais, centros de saúde, novos hotéis, novos resorts, novas avenidas, mais energia, mais água, iluminação pública, estrada de duas vias (Espargos­Santa Maria), um parque automóvel como nunca sonhámos, Cabo Verde passar a receber mais de 500.000 turistas ano (em 2000 recebíamos 148.000).

Falando de Turismo, quantas vezes eu vi o meu amigo, articulista, no Sal, em fóruns de turismo, por vezes ao lado daqueles que mandavam calar os críticos da forma desenfreada como o património (terrenos) público era distribuído e alienado, sem critérios, nem transparência, mas também como promotor de projectos de turismo, que certamente, e na nossa juventude, enquanto estudantes em S. Vicente e mais tarde em Portugal, nunca imaginámos ver em Cabo Verde, mormente com o articulista como promotor, eram tempos de sonho, é verdade, de ilusões, que a crise deu um abanão, mas não, não deixemos morrer os sonhos, não deixemos morrer as ilusões, são eles a energia do empreendedor. O empreendedor que há dentro do Zé, não pode ser sufocado, não pode calar­se, por um discurso pessimista, de desalento, há que continuar, corrigir o que precisa ser corrigido, mas aproveitar tudo que de bom os caboverdianos construíram.


Participamos todos nesta obra, a dívida é de todos, vamos pagá­la juntos, mas as fotos de barragens cheias de  água, postadas nas redes sociais, com orgulho, pelas gentes de Santo Antão e Santiago, são também nossas alegrias a serem partilhadas com o mundo.

Há empresas em situação difícil sim, TACV por exemplo, há problemas com “casa para todos”,  pessoalmente  nunca concordei com esse projeto, também é verdade, há proliferação de bairros de lata na cintura das nossas cidades, o desemprego é crónico, em especial o desemprego jovem, um dos maiores desafios de governantes do mundo inteiro no século XXI. A segurança é um desafio global, mas novo em Cabo Verde, não tenhamos ilusões, é um problema novo, que ocorreria com qualquer partido que governasse Cabo Verde, nesta etapa do nosso desenvolvimento, e é um desafio futuro de todos os governos, seja de que cor política for.

A propósito de segurança, nos idos anos oitenta, um professor (brasileiro) na minha faculdade (economia), em Lisboa, um dia comigo em conversa, disse­me, “Visitei Cabo Verde, a cidade da Praia daqui por uns anos vai ser como o Rio de Janeiro, violência, assaltos e assassinatos vão ser alguns dos grandes problemas do futuro”, ao que lhe retorqui, “Impossível”, e o professor doutor, disse­me “O modelo de desenvolvimento que estão implementando vai produzir muita desigualdade e com isso não têm safa”.

Pois é, meu caro Zé, a desigualdade é o maior dano que nos quarenta anos de independência se produziu na sociedade cabo­verdiana, independentemente de quem tenha governado, essa é a grande herança, nociva, que os governos de PAICV  e MpD deixaram com as suas políticas e o modelo de desenvolvimento implementado, sobretudo nos últimos vinte e cinco anos de Democracia.

Portanto, combater a insegurança, o crime, o desassossego, não vai ser tarefa fácil, nem de solução mágica, a luta passará seguramente pelo combate à pobreza, diria à miséria, que quer tempo, recursos, e ideias inovadoras, o que requer o  concurso de todos. Assim, os tempos não são de triunfos, nem de velhas políticas sectárias, mas de entendimento, de inclusão, de sabedoria, de humildade e de generosidade.

A generosidade fará com que estendamos a mão aos vencidos para juntos olharmos para um futuro que é das novas gerações, mas também daqueles que construíram o passado, esse passado que devemos sentir­nos todos orgulhosos e revermos, nele, um Cabo Verde que brilhou e brilha. O trabalho das sucessivas gerações do pós­independência não foi em vão; cometeram­se erros, é certo, mas ficaram as sementes, e porque não, as boas obras.

O mundo mudou, estamos hoje inseridos num mundo global, dinâmico, e veloz, pelo que o desafio futuro é libertar o cabo­ verdiano da sombra do Estado, e é essa sombra cada vez mais curta, que assusta os empresários, os licenciados, os funcionários públicos, os deserdados que os políticos e as políticas vão habituando a viver de mão estendida, sobretudo,  como os párias do sistema.

Na minha opinião, neste ano de todas as eleições, o povo mais do que dizer não ao PAICV disse não à velha política, e o PAICV com as suas quezílias internas acabou por ser o rosto mais visível dessa velha política, mas creio que o “não” dos eleitores o é também para todos os caudilhos locais, deste país, que devem entender a mensagem e mudar o rumo das suas atitudes.

Mudar de rumo, é também olhar para trás, fazer a análise do percurso efectuado, ter a humildade de reconhecer o trabalho do outro, valorizar tudo que de bom foi feito, aprender com as vitórias e os erros passados e galvanizar o povo para prosseguir a caminhada.

A nova largada, num mundo novo, de competição global, da era digital, requer mais agilidade, mais preparação, criatividade, lideranças fortes, competentes e capazes de incluir e galvanizar a equipa, de transformar as dificuldades em oportunidades, contrariamente ao discurso lamecha, pessimista, mas também arrogante e presunçoso de quem sabe tudo e tem, no bolso, a solução para tudo.

Eu sou pelo otimismo, Cabo Verde está preparado, em todas as áreas temos gente capaz, nos últimos quarenta anos produzimos valor, há quadros bem preparados, há recursos e abundantes, só nos falta “mudar o chip e o software”. Se conseguirmos na plataforma um presidente, um governo e uma maioria autárquica instalar o software do século XXI, então sim, teremos as soluções encaminhadas.

Sal, 12 de Outubro de 2016
in A Semana - 30.10.16

Sugerido por Adriano M. Lima

1 comentário:

  1. Subscrevo inteiramente este texto. De facto, considerar que o governo do MpD vai fazer melhor e operar uma mudança é cantiguinha que só entra na cabeça dos sonsos e ignorantes. Ou então dos que não conseguem descortinar a realidade senão pelo crivo (sempre perverso) do partido a que pertencem.
    Se eu quisesse escrever um artigo sobre a nossa actual situação, não hesitaria em tomar este como choca.
    Só há uma coisa em que não comungo com o articulista. É com o optimismo, que ele confessa. Não direi que, inversamente, eu seja pessimista. Sou, é, sim, realista. Porquê? Porque não acredito que a nossa terra consiga sobreviver no mar encapelado que é a actual situação mundial. Um mundo globalizado mas que não se pauta pelos melhores critérios de moralidade política, de justiça e equanimidade no planeta. Enquanto a globalização ocorrer sob a batuta do capitalismo neoliberal, estaremos em mau caminho.
    Países pobres e pequenos como o nosso, têm e terão cada vez mais dificuldades em sobreviver e em encontrar um rumo que preserve a sua autonomia como estado. Creio que Cabo Verde vai ter de encontrar mais tarde ou mais cedo um ancoradouro que lhe dê mais segurança contra as procelas e as incertezas do futuro. Os micro-estados da actualidade terão imensas dificuldades em manter os seus estatutos porque os princípios de solidariedade internacional (âmbito da guerra fria) que outrora possibilitaram a sua aparição no concerto das nações, vão ser derrogados em nome de valores que não têm em conta as razões do sentimento caritativo mas doravante a lógica irrevogável da competitividade. Ora, a questão resumir-se-á na seguinte equação: tens de te integrar em realidades geopolíticas sólidas, credíveis e condizentes com os desafios do mundo actual. Ou então ficas por tua conta.
    Aliás, é só somar dois e dois para verificar que os micro-estados estão em contraciclo com o mundo global e aglutinador. Quem é pobre e fraco não tem outra hipótese senão juntar-se aos mais fortes. Na nossa terra é imperativo evitar que a evolução conseguida até agora mercê da ajuda internacional sofra um grave retrocesso. Daí que os cabo-verdianos deverão ter a lucidez e o alcance mental necessários para a percepção do que está em causa.
    Mas receio que os nossos políticos não estejam à altura dos desafios, quer num quer noutro partido. A nossa democracia é mais um exercício virtual do que instrumento virtuoso para transformar o real. Embora tenhamos evoluído, é estranho que em matéria de cidadania activa tenhamos andado para trás. Muito mau mesmo. Só isto explica que os governantes sejam sempre naturais de Santiago e imponham aos barlavenses as suas políticas discriminatórias e discricionárias sem que haja um lampejo de contestação no terreiro das ilhas da periferia. Nunca imaginei uma coisa destas. Há quem diga que deixamos de ser colonizados pelos portugueses para passarmos a sê-lo por uma ilha. Segundo li, o ALUPEC já está em vigor em duas escolas de S. Vicente. No meu entender, já foram longe demais. Custa-me entender que os mindelenses continuem timoratos e encolhidos, incapazes de fazer valer a sua voz.

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