sábado, 26 de novembro de 2016

[9951] - AS CRÓNICAS DE ADRIANO LIMA...

FACTÓTUNS DA CRUZADA DO CRIOULO


     Perguntado, em recente entrevista ao Expresso da Ilhas de 02 de Novembro de 2016, se “julgava que há pessoas que são contra a oficialização (do crioulo) só para não lhe darem o prazer de ver o seu reconhecimento”, o Professor Manuel Veiga (MV), antigo ministro da cultura, respondeu taxativamente que “o prazer não será para ele, mas sim para o povo de Cabo Verde”, visto que ele, Manuel Veiga, “fala o português, o crioulo e outras línguas.” 
     Ora, esta afirmação do MV tem que se lhe diga e não pode passar em branco. Costuma-se dizer que o peixe morre pela boca. É que das suas palavras tem de deduzir-se que a oficialização do crioulo será mais para consagrar a situação de baixa escolaridade de largo segmento do povo cabo-verdiano do que para a elevação do dialecto a língua capaz de todos os desempenhos sociais, formais e literários. Sim, implícito na afirmação de MV está o reconhecimento de que o seu estatuto social e cultural dispensa o uso do crioulo, já que para a sua projecção como intelectual e homem de letras tem outras línguas ao seu dispor, em particular o português. E não é por acaso que o diz. Ele sabe que se escrever obras literárias em crioulo, será para ganharem poeira nas prateleiras das lojas… cabo-verdianas, bem entendido. Magríssima procura devem ter e o autor não realiza os seus objectivos de notoriedade pública, além de ter de arrostar com prejuízos financeiros. 
     Contudo, outro entendimento do MV poderia supor numa aposta firme na língua portuguesa, conferindo-lhe prioridade, espaço e meios acrescidos, em benefício dos currículos escolares e também do ensino de adultos. Mas essa opção só ocorreria ao ex-ministro da cultura se ele tivesse uma visão mais alargada, evoluída e prospectiva do papel da língua na vida dos povos, em vez de circunscrita a este fraseado, qual epigrama, gravado no seu pensamento: “o crioulo faz parte da dignidade política, social e cultural conquistada com a independência em 1975” (entrevista ao Expresso das Ilhas em 2010). Caberá então ao leitor julgar se a “dignidade política, social e cultural” do povo cabo-verdiano sairia ferida com essa segunda opção, ou se, pelo contrário, ganharia mais sólida armadura para o futuro.
     Com efeito, o MV bem a podia ter considerado, concedendo-lhe ao menos o benefício da dúvida, porque outra dignificação “política, social e cultural” teriam hoje as camadas desfavorecidas da população, acaso tivessem fruído das oportunidades que ele e outros tiveram na vida, a ponto de poderem hoje optar por esta ou aqueloutra língua no seu discurso. Porque está por demonstrar qualquer nexo de causalidade entre a promoção do crioulo e a afirmação da dignidade do povo cabo-verdiano, ao passo que cientificamente parece mais plausível que o reforço do ensino do português alargue os seus horizontes no plano “político, social e cultural”.
     É que o crioulo é uma realidade adquirida e consumada, e vivenciada espontaneamente entre nós, pelo que a sua oficialização, uniformização e domesticação gramatical (alupequização) podem não acrescentar coisa alguma às competências pessoais e profissionais dos cabo-verdianos. Com o crioulo, as populações das nossas ilhas resolvem os seus problemas de comunicação mais triviais e instantes dentro do seu espaço social, mas já não será assim em circunstâncias laborais mais exigentes, e mesmo dentro do nosso território, como é o caso de empresas estrangeiras instaladas no país, em que no mínimo será útil e recomendável a comunicação em português. 
     Escusado é referir que fora das nossas fronteiras é que o crioulo, oficializado ou não, “alupecado” ou não, de nada valerá à nossa gente, se tiver de conviver no espaço lusófono, em situação informal, escolar ou laboral, com falantes da língua portuguesa, sejam eles angolanos, brasileiros, moçambicanos ou outros. Afinal, somos apenas uma presença insignificante de 500 mil entre 250 milhões de criaturas cuja ferramenta linguística comum é, fundamentalmente, o português. Por isso, é no mínimo surreal que nos deslumbremos tanto com o crioulo a ponto de o eleger como bandeira política. Assim como abjurar, por nosso arbítrio, a capacidade para comunicar escorreita e fluentemente, e em igualdade de condições, com os parceiros de um espaço comunitário – CPLP – que tem objectivos de concertação político-diplomática e de cooperação nos mais diversos domínios. Ripostar que a promoção do crioulo não interfere com a língua portuguesa, como pretenderão os autores desta cruzada, é tão insensato que não merece sequer resposta.  
     À afirmação do MV sobre a dignificação que o crioulo nos confere como povo, não encontro nada melhor para contrapor que esta reacção de uma mulher do povo quando lhe disseram que o filho ia aprender o crioulo na escola: “Adé, bsot insnal ê português porque crioulo ele nascê quel prindid”. Este episódio foi contado por Viriato Barros. Pois então, será de concluir que uma mulher do povo, que labuta arduamente para ganhar o pão do dia, sabe mais da vida que um intelectual? Terá ela uma aptidão natural, vinda do instinto, para descortinar entre as sombras do futuro aquilo que um homem culto não lobriga? Provavelmente é o caso, se considerarmos que a lucidez humana muitas vezes se ilumina mais facilmente frente à agrura da vida real do que em monólogos intelectuais. No mais, o entendimento do MV sobre a dignidade do seu povo não passa de um chavão, mero palavreado para bordar uma presunção (política), e por isso perfeitamente descartável. É como se os factótuns desta cruzada do crioulo se julgassem ungidos por um desígnio escatológico, dispostos a toda a via-sacra, mesmo à revelia da opinião pública.
     O MV, eu e muitos cabo-verdianos tivemos a feliz oportunidade de frequentar o liceu e outros níveis de ensino, o que não aconteceu com largas camadas da população cabo-verdiana. Assim, nós, os “privilegiados”, temos um painel de opções linguísticas que não está ao alcance do comum dos nossos conterrâneos. Livremente, falamos o nosso crioulo nos momentos e circunstâncias informais que entendemos, inscritos no universo da nossa memória afectiva. Contudo, não nos sentimos mais cabo-verdianos por isso, nem sentimos que algo acresça à parcela individual da nossa “dignidade política, social e cultural”. Por outro lado, não nos sentimos menos cabo-verdianos ao termos de falar o português. Simplesmente, o uso desta língua, que é tanto nossa de direito próprio como o é para 250 milhões de pessoas que connosco partilham séculos de história comum, alarga-nos as perspectivas do futuro, abre-nos um espaço de convívio multinacional, potenciando as condições para um maior acesso ao trabalho, à cultura e à promoção social.
    O que o MV devia cuidar de saber é se os seus conterrâneos menos favorecidos desdenhariam a possibilidade de usar desenvoltamente o português, na sua terra e fora dela. Basta pensar que uma das mais gratas realizações da independência foi o aumento considerável da população escolarizada e instruída, havendo hoje numerosos licenciados, mestres e doutores na pirâmide da hierarquia social porque tiveram, efectivamente, uma oportunidade que antes era escassa. Não fora isso, talvez muitos deles estivessem a engrossar o sector dos que não dominam a língua portuguesa. Portanto, a continuidade da aposta na escolarização e no ensino poderá ser a via acertada para melhorar o desempenho dos cabo-verdianos na língua portuguesa e, implicitamente, resolver ou minimizar o problema da diglossia.
     Pelo contrário, criar condições para o crioulo competir com o português, como propugna o autor do ALUPEC, vai agravar o problema linguístico cabo-verdiano, com o risco de liquidar definitivamente as competências na língua de Camões. E isso entra em contraciclo com as tendências de aglutinação e padronização de valores materiais e culturais perceptíveis neste mundo em acelerada transformação, tanto que um grupo de linguistas e peritos da UNESCO concluiu em 2003 que, em cada ano, entre 20 e 30 línguas minoritárias desapareciam no mundo. No fundo, é iniludível que o problema linguístico entre nós foi suscitado mais por um preconceito político contra a “língua do colonizador”, na expressão dos fundamentalistas de alguma cultura, do que por um “estado de necessidade”. Em minha opinião, o progresso contínuo da escolarização e um redobrado apoio ao ensino do português, tendem a resolver a nossa questão linguística, cada um dos idiomas ocupando o espaço da sua verdadeira vocação.
     Bom seria que os factótuns da causa do ALUPEC e tudo o que lhe está subjacente reflectissem seriamente sobre esta problemática e não pressionassem os governos com o capricho do seu egocentrismo. Os desafios do futuro não se compadecem com a carnavalização de assunto tão delicado e importante para o futuro do país.    

Tomar, 26 de Novembro de 2016

Adriano Miranda Lima

8 comentários:

  1. Para o bazofo MV, não podia haver melhor e certeira resposta.

    Bem haja e que a voz e a caneta não lhe doam!

    Mantenha

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  2. Faltam 49, para os 10.000.

    Braça contábil,
    Djack

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  3. O "alupec" é uma màquina inventada para triturar oito falares de um dialecto com séculos de vida. O pior é a passividade de muitos que deviam reagir e não o fizeram quando deviam.

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  4. Um excelente artigo onde o articulista desmonta a aldrabice da questão linguística em Cabo Verde, ou seja da problemática do Crioulo, da língua portuguesa e do sistema de escrita do crioulo denominado ALupeK.
    O conglomerado de radicais (formado por iluminados fundamentalistas, ex-esquerdista e outros oportunistas) anda enganar o ZePovinho convencendo-lhes que Cabo Verde estaria perante o 2º içar bandeira paigcista da independência em Cabo Verde, a verdadeira independência. Depois seria a felicidade eterna na terra desolada de Cabo Verde!!
    Outros, e somos muitos, olham com muita ansiedade e desconfiança esta nova aventura que esta minoria activa pretende embarcar Cabo Verde, uma aventura sem retorno possível.
    Eu vejo nesta operação uma oportunidade de negócios com o objectivo de enriquecer este grupinho : traduzir, plagiar livros em português etc vai ser o negócio da China , um negócio chorudo às expensas do pobre erário público cabo-verdiano.
    Daqui a 10 anos estes 'revolucionários' e seus filhos serão donos de empresas de tradução etc e interpretes para os vindouros cabo-verdianos, nascidos Alupekoides, Terão criado a multinacional do Alupek.
    Destaco alguns pontos fortes no artigo do Adriano Lima:
    ""Contudo, outro entendimento do MV poderia supor numa aposta firme na língua portuguesa, conferindo-lhe prioridade, espaço e meios acrescidos, em benefício dos currículos escolares e também do ensino de adultos. Mas essa opção só ocorreria ao ex-ministro da cultura se ele tivesse uma visão mais alargada, evoluída e prospectiva do papel da língua na vida dos povos, em vez de circunscrita a este fraseado, qual epigrama, gravado no seu pensamento: “o crioulo faz parte da dignidade política, social e cultural conquistada com a independência em 1975” (entrevista ao Expresso das Ilhas em 2010). Caberá então ao leitor julgar se a “dignidade política, social e cultural” do povo cabo-verdiano sairia ferida com essa segunda opção, ou se, pelo contrário, ganharia mais sólida armadura para o futuro."

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  5. Eis um artigo cujo conteúdo subscrevo na íntegra. Caro Adriano é isso mesmo que se passa em Cabo Verde quanto à questão linguística. Uma autêntica trapalhada e barafunda. Os falantes ressentem-se disso é basta ouvir o cabo-verdiano de hoje letrado, doutorado a falar a nossa também língua portuguesa. Uma vergonha! Os políticos, nem todos, felizmente; os intelectuais quase todos infelizmente, fazem uma defesa acérrima do Crioulo...para o "nosso povo" Obliterando maldosa e propositadamente o ganho, a riqueza que é para o falante das nossas ilhas saber expressar-se em português. Deste complexo,e deste grande pecado já não se livram! A nova geração do pós-independência, está a perder um património linguístico ímpar! O que o entrevistado expressou, revela o grande egoísmo e o "pouco me importa, pois eu sei português, francês etc...o resto que não aprenda e isto não me interessa" É isto que lhes vai no espírito. Aqueles que estão apostado em fazer desaparecer das ilhas, a língua portuguesa.
    Resta-me um consolo, pequenino embora, os meus antigos alunos, continuam a ter em conta na sua vida profissional e também, na de encarregados de educação, a importância da nossa língua segunda. Tenho tido demonstrações disso, volta e meia. O que é altamente consolador e gratificante.
    Obrigada Adriano por este excelente artigo.

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  6. Eis um artigo cujo conteúdo subscrevo na íntegra. Caro Adriano é isso mesmo que se passa em Cabo Verde quanto à questão linguística. Uma autêntica trapalhada e barafunda. Os falantes ressentem-se disso é basta ouvir o cabo-verdiano de hoje letrado, doutorado a falar a nossa também língua portuguesa. Uma vergonha! Os políticos, nem todos, felizmente; os intelectuais quase todos infelizmente, fazem uma defesa acérrima do Crioulo...para o "nosso povo" Obliterando maldosa e propositadamente o ganho, a riqueza que é para o falante das nossas ilhas saber expressar-se em português. Deste complexo,e deste grande pecado já não se livram! A nova geração do pós-independência, está a perder um património linguístico ímpar! O que o entrevistado expressou, revela o grande egoísmo e o "pouco me importa, pois eu sei português, francês etc...o resto que não aprenda e isto não me interessa" É isto que lhes vai no espírito. Aqueles que estão apostado em fazer desaparecer das ilhas, a língua portuguesa.
    Resta-me um consolo, pequenino embora, os meus antigos alunos, continuam a ter em conta na sua vida profissional e também, na de encarregados de educação, a importância da nossa língua segunda. Tenho tido demonstrações disso, volta e meia. O que é altamente consolador e gratificante.
    Obrigada Adriano por este excelente artigo.

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  7. Comentário de Ondina Ferreira (Ex ministra, julgo da Educação) no artigo de Adriano Moranda Lima que deve ser tido em conta, pois trata-se de uma pessoa bastante abalizada em matéria da língua portuguesa.
    Ela caracteriza este projecto de Trapalhada e Barafunda.
    Qualquer pessoa de bom senso não pode aprovar esta aventura demagógica que uma eliite política alienada e anafabeta, que ainda vive da demagogia do 25 de Abril, quer teimosamente precipitar Cabo Verde.

    A situação da língua portuguesa é grave e catastrófica pois, tirando uma elite iniciada ou privilegiada, já ninguém consegue exprimir em português em Cabo Verde, ou seja, como se diz 'dizer coisa com coisa'. O diabo é que parece que já nem em crioulo está-se conseguindo exprimir correctamente. Daqui a alguns anos veremos o resultadio final do trabalho dos aprendizes do Feiticeiceiro

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  8. Leiam bem o que ela diz "Os intelectuais quase todos infelizmente, fazem uma defesa acérrima do Crioulo...para o "Nosso Povo". Ou seja não para eles, os intelectuais, há toda a vantagem em expressar bem na língua de Camões. Quanto ao Povo 'que se lixe'.

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