terça-feira, 13 de março de 2018

[10047] - A DESCOLONIZAÇÃO - CABO VERDE II


A invasão falhada ou adiada do arquipélago 

Aquando da reunião de quadros cabo-verdianos do P.A.I.G.C. realizada em Dakar de 17 a 20 de Julho de 1963, foi decidida a preparação da invasão armada do arquipélago. Na sua grande maioria, os militantes cabo-verdianos deste partido passaram a dedicar-se à concretização deste projeto, que teve então o apoio do Governo cubano. Concomitantemente, foi sendo organizada a estrutura clandestina do partido no arquipélago, através da constituição de células em pelo menos, três ilhas: S. Vicente, Santiago e Santo Antão. Após dois anos de preparação na Sierra Maestra, em Cuba, o plano de invasão foi abortado, tendo sido adiado sine die, mas nunca anulado. Assim, relativamente ao plano de desembarque em Cabo Verde, Luís Cabral afirma que não se reuniram condições mínimas para a sua concretização, evocando a seca permanente7. Aristides Pereira tece as mesmas considerações, referindo também as “circunstâncias políticas desfavoráveis”, certamente, as dificuldades de atuação no terreno devido à apertada vigilância da PIDE/DGS.8 Relativamente ao abortar da operação de desembarque em 1967 Silvino da Luz indica como fator imediato a retirada do apoio do Governo cubano após o assassinato do Comandante Che Guevara na Bolívia.9 

6 MNE, Direção Geral dos Negócios Políticos, Repartição África e Ásia, 3, Proc. 940, 1, Gonzaga Ferreira, Missão à Guiné: Agosto e Setembro de 1963, 17 de Setembro de 1963, p. 9  7 Luís Cabral, Memórias e Discursos (Praia: Fundação Amílcar Cabral, 2014), 108. 8 Aristides Pereira, O meu testemunho – uma luta, um partido, dois países – versão documentada, (Lisboa: Notícias, 2003), 166.  9 Pereira, O meu testemunho, 616. 

AUTORA: Ângela Sofia Benoliel Coutinho  (IPRI/UNL)

3 comentários:

  1. A invasão do arquipélago só foi possível quando em 1974 muito depois do 25 de Abril, depois do trabalhinho conjunto do MFA e da ala dos estudantes caboverdianos, na maioria mindelenses, enfeudada nos partidos esquerdistas radicais em Lisboa, laborou o terreno para que os libertadores invadissem pacificamente CV. Há uns anos um dos poucos militantes do Paigc em SV antes do 25 de Abril numa entrevista sobre a implantação daquele partido na ilha (que foi considerada a mais permeável ou progressista relativamente à ideologia do Paigc) dava uma ideia do desalento da meia dúzia de militantes em relação à sua luta (que sequer conseguiam juntar-se, quanto mais mobilizar a população).. Para além disso questiona-se como uma dezena de cabo-verdianos afiliados naquele partido, que teriam tido formação militar em Cuba, poderiam desembarcar em CV sem apoio logístico de uma potência. Qual seria a reacção dos residentes em relação a esta eventual desembarque e se haveria guerrilheiros guineenses a coadjuvar este punhado de cabo-verdianos. Este desembarque seria um completo suicídio, razão porque nunca ocorreu. Isto tudo para mostrar a inverossimilidade da narrativa do desembarque. É pena que hoje não se pode confrontar teses e a maioria dos que se opuseram a dita invasão do Paigc ou foram escorraçados e refugiaram-se no silêncio. É preciso recordar que aquele partido nunca teve implantação em Cabo Verde antes do 25 de Abril e que havia uma franja importante da população que lhe era hostil.

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  2. Esta interpretação do nosso caro José Fortes, parece bem mais verosímel que a que apresentada pela autora!!!

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