domingo, 27 de maio de 2018

[10063] - AREIAS DE CABO VERDE - HISTÓRIA

EÇA DE QUEIROZ
AREIA DE CABO-VERDE

…” Tendo deixado de falar para resolver, o actual sr. Ministro da marinha nem fala nem resolve.
O parlamento fechou-se sem que sua ex.ª lhe apresentasse:
O orçamento do ultramar.
O relatório do seu ministério.
O mais simples e exíguo projecto de lei.

Da actividade com que sua ex.ª ocorre ao expediente dos negócios pendentes da sua secretaria, daremos ao leitor uma ideia contando uma história.
À exposição de Paris de 1867 mandou um habitante do arquipélago de Cabo Verde uma amostra das areias daquela costa. Examinou em Paris as referidas areias, a École des arts et des métiers, e em Lisboa a sociedade farmacêutica. Averiguou-se então que a areia das costas de Cabo Verde continha partículas de ferro.

Há tempos a casa A. Dubois & C.e, de Rouen, tendo catorze navios em navegação entre o nosso arquipélago e os portos europeus, lembrou-se de pedir ao governo português licença para exportar, como lastro, a areia de Cabo Verde, pagando ao governo a quantia que ele arbitrasse a cada tonelada de areia, e obrigando-se a casa Dubois a fixar o mínimo das toneladas exportadas, a fim de que o governo pudesse desde logo fixar no orçamento do estado esta nova receita.

Um amigo nosso, o sr. Regnauld, sócio da casa Dubois, negociantes milionários, cuja respeitabilidade foi afiançada em Lisboa pelo próprio sr. Thiers, o sr. Regnauld dizemos, veio pessoalmente a Portugal tratar do negócio, e expô-lo em toda a sua simplicidade ao sr ministro da marinha. S. ex.ª mandou ouvir a junta consultiva do ultramar. Esta deu o seguinte parecer sibilino:
Que, havendo aço na areia de Cabo Verde, e sendo o aço um metal, a exportação da sobredita areia se deveria regular pela legislação das minas!

Legislação das minas era muito menos lucrativo para o governo e muito menos dispendioso para a Casa Dubois, o nosso amigo Regnauld apressou-se a declarar que aceitava o contrato nas bases da legislação que se lhe inculcava. Considerada porém a areia de Cabo Verde como se fosse uma mina, era preciso: saber quem tinha descoberto a mina; registar a mina delimitar a mina; etc., etc. – o que tudo se tornava bastante difícil de se fazer – não havendo mina.

De sorte que, tendo-se primeiramente decidido, sobre a praia, que a praia se considerasse mina, resolveu-se depois sobre a mina, que a mina se considerasse praia.
O Sr. Regnauld apresenta-se, pede, suplica, exora: -- Meus senhores, considerem a areia como muito bem quiserem, considerem-na praia, considerem-na mina, considerem-na pano cru, considerem-na óleo de mamona, mas respondam-me uma coisa: digam-me sim ou digam-me não, como lhes aprouver, mas respondam-me por quem são, porque eu estou aqui a morrer de calor e de tédio, e quero ir-me embora para casa!

Tal tem sido em cada dia a linguagem do nosso amigo, o qual está em Lisboa há noventa dias: O seu requerimento foi apresentado há dez meses!
Não se lhe responde nada, senão que se está meditando o assunto.
IN- FARPAS- EÇA DE QUEIROZ – RAMALHO ORTIGÃO

COLABORAÇÃO - DJEU 

8 comentários:

  1. Atenção à imagem do escritor.
    Braça

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    1. Caro Djack, publiquei tal como o original enviado. Diz-me que não se trata de uma imagem do Eça?
      Braça

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    2. Pois não, é de Camilo Castelo Branco!!!
      Obrigado!

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    3. O problema é sempre o mesmo. Enviam-nos coisas com erros, a gente fia-se e depois... Ou seja, em Internet, a palavra de ordem só pode ser esta: "Duvidar, duvidar, duvidar". Isto, porque coisas deste género já me aconteceram.

      Braça camiliana e eciana,
      Djack

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  2. Esqueci-me de dizer que provavelmente, a pessoa que lhe enviou o texto já o recebeu assim e se calhar também a outra antes dele/dela e por aí fora. Agora quem cometeu o erro primordial, decerto nunca se saberá quem foi, ahahaha. E mais, até nem o deve ter feito por mal. Ou seja, estamos todos perdoados.

    Nova braça,
    Djack

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    1. Reportando-me à despedida no anterior comentário, acontece que saiu asneira, pois seria "Novo braça"...

      Braça, agora com concordância gramatical,
      Djack

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  3. Não há crise, já está resolvido!
    Abraço e mais uma vez obrigado!

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  4. Sete (7) comentários devido a uma troca de carinha.... é obra!
    Esperam-se 70 pelo texto...

    DJEU

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