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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

D. CARLOTA I ... E ÚNICA !

A vantagem que nós, os idosos, temos sobre os outros é que, quando aqui chegamos, já reunimos à nossa volta uma plêiade de amigos, se calhar, maior do que, eventualmente, mereceríamos... Mas eles aí estão, a provar que tenho razão e, o mais importante, que há, ainda, amizades, já nem digo das antigas mas, simplesmente, amizades antigas que refinaram um "bouquet" tão inebriante como um bom néctar das vinhas de Baco...É o caso de Lilica, a mais exagerada de todas as minhas belas amigas porque, para além de ter tudo quanto o mais exigente pode pedir de um amigo, ainda por cima...é poetisa! Mas, imaginem, há mais, muito mais, que fazem desta pessoa humana um ser peculiar que deve a sua existência a uma história de amor, envolvendo seus pais, de tal forma intensa e profunda que deu a Eugénio Tavares inspiração para compor uma das mais belas mornas de tantas que conheço, dele e doutros inspirados compositores de Cabo Verde. Refiro-me a esse expoente da musica romântica que é "Força Di Cretcheu"...
É que, imagine-se, o amor recíproco que os que a haveriam de gerar se dedicavam não era do agrado de familiares o que, ao contrário do que se poderia esperar, lhes deu forças para, com o incondicional apoio de Tatai, seguirem o seu destino, que haveria de ser o que se deseja a dois apaixonados. Numa das primeiras paginas do seu livro de poemas "A Ternura da Água", publicado em 2000, Carlota de Barros escreveu: "À memória de meus pais que me ensinaram a amar e a sonhar para além das desilusões da vida"...Ainda bem, digo eu!
Enfim, e para que esta crónica tenha, finalmente, algo de interessante, deixo-vos com um poema do livro "Sonho Sonhado", de 2007: O RUMOR DA CHUVA !
*
Ouvi dizer
que chove nas ilhas
e que a terra rejubila de frescura
*
as nuvens partilham
a água com os potes
*
as fontes agora cheias
trocam rumores
com a chuva nos telhados
nas latas dos tanques nas cisternas
*
o coração da terra
se alegra
vamos ter
espiga madura nos santos
*
batata doce ervilha verde
abóbora menina
*
ouvi dizer
que o ar veste-se de azul
e as pedras se enternecem
porque a chuva
amou a ilhas perdidamente
e os cântaros se enchem de doçura

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