Por volta dos fins da II Grande Guerra (1939/1945) não havia no Mindelo, capital da Ilha de S.Vicente de Cabo Verde, um restaurante que merecesse esse nome, mas parecia haver já uma classe média capaz de frequentar tal tipo de estabelecimentos...Era esta, pelo menos, a convicção do meu pai, José de Azevedo, ourives e relojoeiro, que aí se tinha fixado com mulher e filhos, por volta do ano de 1941...
Por essa altura, não estou certo se em consequència de um ataque de um submarino alemão ou por avaria, a tripulação de um navio de longo curso foi desembarcada e a maior parte recambiada por diversos meios aos seu países de origem, enquanto outros se foram deixando ficar. dedicando-se a diversas actividades...Entre estes, havia três italianos: o Giuseppe Micheloni, o Aste Agostini e o Antonio Conte. O primeiro, era cozinheiro, o segundo, chefe-de-mesa e o terceiro, criado de mesa...Estava traçado o destino e o nascimento do "Bar-Restaurante Atlas" assegurado, com uma sociedade destes três com o meu pai que, claro, entrou com o dinheiro que os outros não tinham - ou diziam não ter!
Tudo foi preparado com requinte, desde o balcão alto com tampo de zinco para o Bar, expositores, mesas e cadeiras, louça especialmente fabricada em Sacavem com a marca "Atlas", talheres de Guimarães como nome do restaurante cunhado, toalhas e guardanapos de algodão, música ambiente e até tinha um letreiro luminoso, engenhoca concebida e executada pelo Senhor Azevedo, graças ao mecanismo de um relógio-despertador, fios, lâmpadas e outros apetrechos que comandavam o acender e apagar das letras e/ou das palavras...um espectáculo nunca visto no Mindelo, enfim!
Graças a estes italianos que, ao fim de pouco tempo já falavam crioulo, aprendi a gostar de massa, de todos os tipos, a que eles chamavam "Pastaciutta" que, vim a saber mais tarde, é o nome genérico que dão às massas com ou sem molhos, em Nápoles...
Micheloni acendia o fogo no enorme fogão de lenha às seis da manhã, pois o molho de tomate especial para a pasta Bolonhesa necessita de muitas horas de cozedura em fogo muito lento, para ficar deliciosamente aveludado...Assobiava e cantava todo o dia, com excepção da tarde em que a nossa cabra Clotilde, que nos fornecia o leite diário, lhe comeu o chapéu de palha que usava e de que se esquecera, em cima de um banco...
Antonio e Agostini serviam às mesas com uma eficiência e segurança magnificas, pratos arrojados que as pessoas não estavam habituadas a comer e a que, não raro, torciam o nariz...Lembro-me, especialmente, do almoço em que serviram bifes grelhados com vegetais salteados...Foi um escândalo, pois nunca ninguém tinha jamais comido bifes com couves...Ainda se fosse arroz ou batatas fritas!
Enfim, foi uma aventura que não durou muito e deixou o meu pai de tanga, quando os três transalpinos, saudosos das suas "ragazzi" resolveram retornar à Itália...
O Bar-Restaurante Atlas, de que sobram, ainda, alguns pratos fechou as portas, o letreiro luminoso foi retirado e, pouso tempo depois, substituído pelo nome "Farmácia do Leão"...Já lá vão, creio, cerca de 63 anos!

É a este Restaurante que se refere o meu comentário ao post 0129 de 12-10-2011, de Praia-de-Bote...
ResponderEliminarGRANDE stóra! Lida com o maior prazer e achada demasiadamente curta. Esta matéria dava de certeza para uma data de páginas.
ResponderEliminarDeliciei-me, mesmo sem pitada de pasta.
Grande braça,
Djack
Com certeza, meu caro, mas a ditadura da sintese bloguista a tal obriga...Obrigado pelo comentário elogioso!
ResponderEliminarMantenha...
Excelente ...
ResponderEliminarPouco a pouco haveremos de registar a história da famosa Rua de Lisboa!
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Na casa do seu mano Tuta, existe um prato ATLAS....
Bom fim de semana "pâ gente!
Como querem Rua de Lisboa, o PRAIA DE BOTE vai enviar para o ARROZCATUM alguns postais da dita cuja. Vão pondo o atum na baía que as imagens daqui a nada chegam directamente da praia mais típica de S. Vicente e que deixa a milhas Matiotas, Lajinhas e Baías das Gatas para não falar de Salamanzas Ou será Salamansas?) e outras que tais.
ResponderEliminarBraça cheia de areia,
Djack
Não existe coincidência e sim sincronicidade. Estamos mesmo em linha, meu caro amigo.
ResponderEliminarAntes de entrar na net, estava namorando os detalhes de uma réplica de relógio de bolso que comprei e acho encantador. Agora vem esse seu post onde você se revela filho de relojoeiro- artífice e arteiro.
Seus amigos tem razão de que esta peleja merece mais que um post.
Abraços
A estas horas, meu pai Azevedo deve estar damndo pulos de contente; pode não ter sido muito amado nem muito odiado mas NÃO FOI ESQUERCIDO...Um (ou vários) Bem Hajam ao Stlula. ao Djack e à Nouredini, alma gémea de Santa Cruz...No que respeita a coincidencia, um dia ou conto a minha definiçãpo de "acaso" que é da família!
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