O meu primeiro ano em Cazombo, desde que aí chegara em Janeiro de 1957, foi fértil em acontecimentos marcantes, pelo menos para mim...Em conversas informais eu já ouvira falar de um irlandês que trabalhava numa mina de ouro na África do Sul e que costumava aparecer todos os anos para uma lauta caldeirada de cabrito, encharcada em vinho verde Casal Garcia, "estupidamente" gelado!
Por isso, foi com alguma naturalidade que uma manhã recebi na secção dos Correios da Administração, via Vila Teixeira de Sousa, de um tal Ian Mc'Cosh, um telegrama ditado, para o Mário Matos da Pensão, que apenas dizia: "Irriving saturday noon regards Ian". Mais telegráfico do que isto era impossível e como estávamos numa 5ª feira, havia pouco mais do que um dia para ir caçar uns cabritos no mato...
Ao jantar não se falou de outra coisa, pois era uma ocasião especial a visita do Mc'Cosh, que viria sozinho, aos comandos da sua Auster, uma avioneta quase nova que não podia trazer mais ninguém pois o peso e o espaço disponíveis eram necessários para uns tantos "jerrycans" de gasolina de altas octanas para a viagem de regresso à África do Sul... Em Cazombo, claro, não havia, gasolina de avião...
Mas, estranhamente, havia uma pista de aterragem, em razoável estado ao longo da qual se haviam colocado alguns tambores de gasolina vazios para evitar pousos indesejáveis mas que era necessário limpar para o Mc'Cosh poder aterrar...
Também era preciso preparar-lhe um quarto para ele dormir a sesta e fazer litros de refresco de maracujá, única forma daquele irlandês de cerca de um metro e noventa beber alguma água...Claro que também era útil verificar os estoques de whisky de malte e de cerveja da Rodésia...
O homem só aparecia uma vez por ano mas eram-lhe reservados mimos e cuidados tais que mais parecia que se estava a preparar a recepção ao Governador de Angola!
Como acabei por confirmar dois dias mais tarde, o comedor de caldeiradas era um tipo estupendo, que sabia da História de Portugal mais do que muitos de nos outros, que adorava Angola, os angolanos e os portugueses e que só tinha pena de Portugal ter perdido para os ingleses aquela coisa do Mapa Cor-de-Rosa...Um fulano peculiar, sem dúvidas!
- Continua -


Continuam as memorangolanas, sempre suculentas e irrepetíveis. Daí que estes textos devam... bem, não digo maios nada!!
ResponderEliminarBraça com Cuca,
Djack
mais*
ResponderEliminarMeu amigo, volto a agradecer o seu incentivo...Acontece, no entanto, que estas "memórias" cazombianas são compostas na hora em que sao aqui publicadas: não é nada que já exista e eu vá ublicando, aos bocadinhos...Desta forma, eu nem sei como nem quando acaba esta saga e, claro, creio que só se poderá pensar num outro passo, depois de a fonte ter esgotado...
ResponderEliminarBraça com Nocal
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