Páginas

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

ERA UMA VEZ, ANGOLA - XII ...


Eram cerca de seis horas da tarde quando, finalmente, chegámos a Cazombo, quase 11 horas depois de sairmos de Vila Teixeira de Sousa...Estava abafado e húmido e o primeiro sentimento foi de uma certa frustração: o povoado era, apenas, uma rua de piso em macadame com uma dúzia de casas de ambos os lados, separadas umas das outras e...muitas mangueiras que, como verificaria mais tarde, atraíam milhares de abelhas para se deliciarem nos frutos maduros mas que ninguém colhia...


Por respeito para com o meu estatuto de funcionário administrativo o meu transporte estacionou frente a uma construção maior que as restantes: era a única pensão do sítio, onde o proprietário também morava com mulher e filhos e tinha, anexa, a loja do mesmo...Chamava-se Mário Matos e recebeu-me com todas as deferências, com a informação de que, tendo sido avisado pelo Administrador da minha chegada, me havia reservado o "melhor" quarto...Tinha uma cama de 1,50 de largo, uma cómoda de três gavetas,  uma mesa de cabeceira com o inevitável candeeiro...de petróleo, e um banco com três pés e meio... Tinha uma porta estreita e uma janela minúscula, que davam para um pátio a ceu aberto em cujo extremo oposto estavam instalados as latrinas e os chuveiros...
Depois de instalado e tomado o primeiro banho com água do Zambeze, fui conduzido a uma mesa de 4 para o jantar. Lá estavam o meu chofer, o Heitor, que se apresentou como caçador oficial da Administração e o padre Dâmaso, um Franciscano de idade avançada e abundante barba branca como a neve, coisa que, imaginem, só 20 anos mais tarde eu haveria de ver pela primeira vez, em Londres...
A refeição foi outra má experiência pois era constituída por um caldo de sabor impreciso em que boiavam meia dúzia de feijões catarinos e alguns farrapos do que parecia ser couve portuguesa, arroz de berbigão (de lata...), pão de mau aspecto mas de inesperado bom paladar, cerveja razoavelmente fresca, fruta da região - manga, papaia, banana, maracujá - e um esplêndido café, temperado com cubos de açúcar que vinham dali perto, da Rodésia do Sul, a escassos 250 quilómetros de más estradas e piores picadas...Mesmo assim, não deixei, um dia, de ir a Balovale comprar uma carabina BSA calibre 22.long que haveria de participar numa das maiores façanhas de caça de que há memória em África...
Continua...

3 comentários:

  1. Aventura, mais aventura e ainda por cima aventura. Eu já disse o que tinha a dizer sobre esta escrita, por isso não repito. Ou então abro uma excepção para dizer: saborosa!

    Braça,
    Djack

    ResponderEliminar
  2. Eu já me envergonho deste diálogo...Mas prometo-lhe uma coisa: eu não sei onde estas crónicas vão parar...Mas, quando achar que a fonte secou, voltaremos a falar no assunto...Entretanto, os seus comentários intercalares fazem sempre algum bem ao meu ego...Obrigado!

    ResponderEliminar
  3. Cazombo:
    Capital do Alto Zamnbeze. Foto de 1966

    ResponderEliminar