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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

(5999) - PORTUGAL VIVE !!!

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O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»


«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»

Fernando Pessoa

2 comentários:

  1. Bonito, sem duvida, lido com calma.
    E ouvido? Na voz do grande (não em altura) João Vilaret.
    Também ouvi por Manuel Lerêno.
    Recordo porque gostei da interpretação de ambos. Era no tempo em que a T.V. mostrava algo que nos deixava algum conhecimento.
    Hoje, nem digo...
    Abraço, e boa semana; já estamos no limiar.
    Dilita

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  2. O nosso Fernando tinha o raro talento de nos embasbacar, e os versos dele, às vezes, empolgam-me até às lágrimas...O Vilaret dizia este poema como ninguém e sempre que me lembro vou ao Youtube ouvi-lo...
    Boa semana
    Zito

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