O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
Fernando Pessoa
Bonito, sem duvida, lido com calma.
ResponderEliminarE ouvido? Na voz do grande (não em altura) João Vilaret.
Também ouvi por Manuel Lerêno.
Recordo porque gostei da interpretação de ambos. Era no tempo em que a T.V. mostrava algo que nos deixava algum conhecimento.
Hoje, nem digo...
Abraço, e boa semana; já estamos no limiar.
Dilita
O nosso Fernando tinha o raro talento de nos embasbacar, e os versos dele, às vezes, empolgam-me até às lágrimas...O Vilaret dizia este poema como ninguém e sempre que me lembro vou ao Youtube ouvi-lo...
ResponderEliminarBoa semana
Zito