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quarta-feira, 6 de novembro de 2013

(6050) - ERA UMA VEZ, ANGOLA - XLI

 
O Hospital de Nova Lisboa era um edifício moderno, impecavelmente limpo, arejado e não cheirava a hospital, vá-se lá saber porquê...Foi-me reservado um quarto que compartilhava com um velhote de poucas falas e que, por azar, ressonava mais do que eu...Por isso, e quando não necessitava de o fazer, era raro estar no "meu" quarto...
Foram-me feitas análises ao sangue e a intervenção marcada para dois dias mais tarde. Fiquei surpreendido quando me informaram que seria operado pelo Dr. Abrantes do Amaral pois, com o mesmo nome, me lembrava eu do Governador de Cabo Verde quando, em 1956  havia zarpado do Mindelo...Claro que indaguei para saber se era a mesma pessoa, pois já estávamos em 1959 e, salvo erro, o Abrantes do Amaral, Governador, havia deixado de o ser em 1957. Afinal, o que me iria operar, era irmão do ex-Governador e, como acabei por constatar, uma esplendida pessoa com quem mantive algumas conversas quando ele soube que eu tinha ido para Angola a partir de Cabo Verde, onde o irmão tinha estado durante quatro anos...
A pequena cirurgia a que acabei por ser submetido na data prevista, decorreu com toda a normalidade e recordo-me bem de ter acordado da anestesia num quarto que não era o meu mas sim uma enfermaria com seis camas...Estava na hora do almoço e quando colocaram na mesinha ao meu lado um prato fumegante com empadão de arroz e azeitonas pretas, deitei-me a ele com toda a gana dado que estava em jejum havia uma data de horas...
Um grito meio abafado de "não coma isso!" fez-me levantar os olhos e dar de caras com uma das irmãs-hospitaleiras que serviam no Hospital que,  delicadamente,  me tirou o prato da frente informando-me que, durante três ou quatro dias, eu não poderia ingerir alimentos sólidos pois, dada a localização da zona operada, eu não conseguiria evacuar nem isso seria aconselhável. Na realidade,  e como a irmã Maria de Jesus me informou, a operação tinha consistido na extracção de um quisto e respectivas "raízes", ficando a ferida aberta por acção de uma mecha para que o tecido pudesse paulatinamente crescer e ocupar o vazio provocado pela excisão...
Fiquei algo preocupado pois a irmã-enfermeira explicou que a mecha de gaze tinha que ser substituída diariamente para evitar que colasse aos tecidos em carne viva, o que seria algo doloroso nos primeiros tempos...

 
Depois, também fiquei a saber que iria ficar no Hospital cerca de 3 meses pois sendo a minha residência a mais de 800 quilómetros de distância e o meu caso necessitar de tratamento ambulatório até à cicatrização total não havia outra solução, até por eu ser funcionário administrativo...Eram uma espécie de férias forçadas, embora confinadas ao Hospital...Claro que, quando já podia locomover-me, dei grandes passeios pela cidade que era agradável e acolhedora e fiquei a saber que devia a sua existência ao General Norton  de Matos!

3 comentários:

  1. Comentário matemático: ora 41 crónicas no ACT, vezes pelo menos duas páginas A4, dá mais de 80 páginas A4. Mas como uma página A4 dá em princípio mais que uma página de livro, temos que o ACT já tem cerca de 100 páginas para o tal livro chamado "Crónica de uma Angola desaparecida" ou coisa que o valha... Autor, El Zito; apresentador, El Djack; local de lançamento, Lisboa (de preferência, em associação angolana ou, na falta dela, cabo-verdiana); comes e bebes a seguir, muamba, regada por exemplo com vinhaça de Borba... e por aí fora, o rapaz a dar que falar e os livros a sairem em catadupas, aqui na cara da Europa e lá, no país do petróleo...

    Braça com esperança,
    Djack

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  2. São tantos os "causos" de Angola que terei que estudar novamente os algarismo, senão corre o risco de sabe ler o número do episódio...rsrs.
    feliz os que tem memórias!

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  3. Meu caro Djack - Embora continue a julgar que V. sobrevaloriza o valimento destes escritos, não gostaria de considerar a "obra" acabada antes do meu "regresso" ao Mindelo, em 1961...Creio ter matéria para mais umas 10 crónicas. Então, poderíamos ponderar o assunto...
    Nouredini, eu creio que as memórias só perduram porque nos dizem algo, nos tocam a sensibilidade e marcam a nossa vida de forma indelevel...O supérfluo creio que esquece, na hora!

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