A ORIGEM DAS ESÉCIES DE ACORDO COM
A SELECÇÃO NATALÍCIA...
Confesso que já faço parte da Era Neonatal.
Como Neonatal entenda-se o Natal
que sucedeu ao Natal tradicional, ou
então, como a conjugação da palavra néon com a palavra natal sugere – na
verdade, o resultado e o efeito final são os mesmos.
A geração Neonatal é aquela que
já pouco viveu as tradições ancestrais do Natal, tendo em conta que este se
pautava por um conjunto de pequenas particularidades e tipicidades ritualísticas
mas plenas de simplicidade que ainda hoje geram saudade e nostalgia entre
aqueles que as viveram. Consideremos então que estamos perante duas Eras distintas onde, inclusive,
predominavam espécies diferentes.
Passemos então à análise das
principais diferenças entre ambas.
Na Era Natal, toda a casa que se prezasse tinha como centro nevrálgico
o presépio onde se encontrava representada a cena relativa ao nascimento do Menino.
Como base para a estrutura do intrincado cenário, eram escolhidas as
bryophytas, mais precisamente, o musgo que pais e filhos, ou netos e avós
recolhiam das zonas mais húmidas e sombrias da região. Feita a cama deste verde
único, era a altura de colocar as figuras. Entre os devotos pastores
proliferavam as ovelhas (Ovis aires)
e algumas cabritas mais ariscas (Capra
hircus). Os lugares de honra cabiam ao burro (Equus asinus), que por
sinal se encontra em extinção no nosso país, e à vaca (Bos linnaeus), que com o seu bafo mantinha as
palhinhas quentes para a chegada do Menino, que só assumiria a seu lugar na noite
de 24 de Dezembro.
À mesa, o incontestável domínio
era do bacalhau (Gadus morhua), que por
sinal também se encontra na lista das espécies vulneráveis de extinção, da
couve portuguesa (Brassica oleracea) aferventada e da batata (Solanum tuberosum) cozida. Tudo isto regado com o mais fino azeite cuja fonte
é a Olea europaea.
O
azevinho (Ilex aquifolium) dava uma
nota de cor ao interior de todos os lares,
sendo considerado o ex-líbris da
decoração natalícia. Hoje em dia,
está proibidíssima a sua recolha dado que, sendo uma planta dióica, ou seja,
que tem um macho e uma fêmea, e considerando que só a fêmea produz as afamadas
bagas vermelhas, foi ela o alvo preferencial das populações, que a recolheram
em quantidades acima do desejável nesta época do ano, deixando os machos com um
número muito reduzido de parceiras para posterior reprodução.
Na
lareira, o sobreiro (Quercus suber) ou outro Quercus
qualquer, ardia lentamente para que, durante a noite, o menino Jesus, que
traria os presentes, se pudesse aquecer.
Ao
acordar, as crianças podiam viver a alegria do Menino em palhas deitado e do presente que lhes calhasse em
sorte e que, à semelhança do que ocorre nos nossos dias, dependia da bolsa dos
donos da casa, com a diferença que, naquela
altura, o presente mais singelo podia passar pela simples passa de figo (Ficus carica), que
segundo consta, lhes sabia pela vida.
Mas
os tempos mudaram e hoje, a Era Neonatal
caracteriza-se inclusive por alterações climáticas, dado que começa logo a dar sinal de si quando ainda nós fruímos os últimos raios de sol na praia.
As famílias continuam a reunir-se, mas já
raros vão sendo os presépios, que são substituídos pelo pinheiro (Pinus pinaster) enfeitado com luzes
cintilantes, fitas reluzentes e bolas coloridas. Consta que a primeira Árvore
de Natal foi feita pelo Príncipe
Ferdinand von August Franz Anton von Sachsen- Coburg-Gotha-Koháry (vulgo, D.
Fernando II), marido da rainha
Dona Maria II. Este príncipe de origem alemã trouxe a tradição da sua terra e entendeu
que os seus onze filhos achariam graça à novidade.
Acrescente-se que esta tradição tem uma origem pagã, dado
que os povos do norte da Europa acreditavam que alguns deuses habitavam o
interior das árvores e que enfeitando-as os agradariam. Da tradição pagã para a
cristã foi um salto. Mas, em Portugal, a explosão do Pinus pinaster só se deu na década de 70 do século XX, quando a trilogia “Deus, Pátria e Família”, deixou de ser “referencial
do Estado”, e
o povo se sentiu mais solto para abrir as portas às modernices que entravam
pelos écrans do cinema e da televisão oriundas de Hollywood e da Disney. Foi
por esta mesma porta que entrou a
nova estrela das mesas da consoada, o
peru (Meleagris gallopavo), ave originária da América do Norte.
Outra
espécie rara que passou a integrar a Era
Neonatal
foi um velhote com um ar bondoso e
simpático
chamado Pai Natal que,
sorrateiramente, destronou o menino Jesus na entrega dos presentes e que, segundo consta, se veste de vermelho e branco desde a década
de 30 por ser patrocinado pela Coca-Cola.
Mas,
nos dias que correm, o Pai Natal
faz-se acompanhar por mais duas novas espécies, um hipopótamo (Hippopotamus amphibius) conhecido pelo
nome de Popota e uma ave, que de tão rara ainda não consta da literatura
científica, e que dá pelo nome de Leopoldina.
É
a evolução em todo o seu esplendor!
Mas, que se viva o Natal ou
o Neonatal, o fundamental é
nunca esquecer que esta época visa, essencialmente, salientar, realçar, revelar
o que de melhor existe dentro de todos nós e que o Natal é sempre quando o homem (Homo
sapiens sapiens) quiser.
Algarve, Dezembro de 2013
Zenaida Isabel Mendes Lima

Tenho vindo a ser comentador assíduo neste blogue, mas em relação a este post não me pronuncio por ser pai da autora...
ResponderEliminarDescule, amigo, mas os outros leitores talvez mereçam saber o que pensa o pai da autora...
ResponderEliminarÊ com imenso agrado que se lê prosa tão erudita, rica e comparações e ainda por cima versando sobre um Natal de que sentimos mais próximo.
ResponderEliminarPortanto, com tantos anos na Diáspora, tínhamos a obrigação de estar mais adaptado mas quem é conservador ou, melhor, quem guarda seus costumes e prefere os seus usos nunca poderá aderir a certas mudanças, ricas talvés, por medo de acompanhar o enterro de uma educação que foi exemplar.
 autora do texto agradeço pelo que me toca, desejando muitos e muitos Natais como deseja para si e para a sua Familia e, já agora, muito tempo para nos visitar aqui e nos dois outros lugares irmãos que são "Praia de Bote" e "Esquina do Tempo".
V/
P.S. - Conheço alguém que está mudo e orgulhoso.
"Quem sai os seus não degenera a familia"
Parabéns e braça, Rapaz !!!.
concordo e me algro em ser dos antigos natais. Na minha familia ainda se faz presépio, reuniões e troca de presente, temos até algum bacalhau.
ResponderEliminarBeijos e Feliz Natal
Bem, Zito, se propus à minha filha que o ARROZCATUM acolhesse o seu texto foi por duas razões diferentes: o texto é interessante e tem qualidade; e o blogue merece atenção.
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